Por Edmilson Palermo Soares
Continuando com nossa série sobre vinhos e vinícolas de Portugal, hoje vamos falar da Região do Alentejo que é um dos mais importantes e vibrantes polos de produção de vinhos daquele país. Conhecida por suas vastas planícies, clima quente e ensolarado e uma rica história, a região produz vinhos que se destacam pela sua qualidade e complexidade.
A história da viticultura da região é milenar, com vestígios que remontam aos tempos pré-romanos. Estudos arqueológicos sugerem que a produção de vinho no Alentejo é anterior à chegada dos romanos, com indícios da presença de tartessos e fenícios, seguidos pelos gregos.

Os romanos deixaram um legado importante, introduzindo técnicas e práticas que persistem até hoje. Um grande exemplo é o método de produção dos vinhos de talha, que utiliza ânforas de barro para a fermentação e armazenamento do vinho, uma tradição que está sendo resgatada e valorizada e que se tornou uma marca registrada da região.
Após fundação de Beja, entre 31 e 27 a. C., assistiu-se a um grande aumento no cultivo da vinha. Próximo da zona da Vidigueira foram encontrados pedaços de talhas de barro, grainhas de uvas e um lagar de granito.
A produção de vinho sofreu declínios com a ocupação muçulmana. Mas, após a expulsão dos mouros do Alentejo, o poder real e as ordens religiosas incentivaram a vitivinicultura. A população era obrigada a cultivar as terras com vinha e depois de três, quatro ou cinco anos desde a plantação, era obrigada a dar uma determinada quantia da sua colheita. Em 1221, D. Afonso Henriques determinou que as uvas e vinho produzido seriam posse da Sé de Évora.
No século XVI, as vinhas floresciam, dando origem a vinhos aclamados de Évora, como “Peramanca” e “Enxarrama”, bem como os vinhos brancos de Beja e os claretes do Alvito, Viana e Vila de Frades.
Em meados do século XVII os vinhos alentejanos, juntamente com os da Beira e Estremadura, gozavam de fama e de prestígio em Portugal.
Na perspectiva de proteção do Douro, em detrimento das outras regiões, surgiu a criação da Real Companhia Geral de Agricultura dos Vinhos do Douro, no século XVIII, pelo Marquês de Pombal. O resultado foi a destruição de vinhas nas restantes zonas do país.
A crise durou até meados do século XIX, mas existiu uma revitalização do Alentejo com uma campanha de recuperação para cultivar em terra fértil e assegurar uma nova geração de agricultores nessas terras.

No início do século XX, ao choque da Filoxera seguiu-se a Primeira Guerra Mundial, e agravaram-se as sucessivas recessões. Juntando tudo isto, a grande campanha do Estado Novo para plantar cereais em vez de videiras, promovendo o cultivo de trigo para fazer do Alentejo o “Celeiro de Portugal”, contribuiu para que as vinhas fossem gradualmente reduzidas para as bordas de campos de trigo, e em poucos anos o vinho do Alentejo já tinha desaparecido do mercado.
Após a Revolução de 25 de Abril, a região passou por um processo de revitalização da produção vinícola, com a criação de novas adegas e o desenvolvimento de projetos como o PROVA (Projeto de Viticultura do Alentejo).
A criação da CVRA (Comissão Vitivinícola Regional Alentejana), em 1989 e a regulamentação das primeiras Denominações de Origem (D.O.s), em 1988, foram fundamentais para o reconhecimento e valorização dos vinhos do Alentejo no mercado global.

O Alentejo é a maior região de Portugal e sua paisagem é marcada por planícies e colinas suaves, onde dominam as vinhas, os sobreiros (produtores de cortiça) e as oliveiras. A combinação de fatores naturais que influenciam a produção de vinho, conhecida como terroir, é o que torna a região tão especial.
- Clima: Predominantemente mediterrâneo e continental, com verões quentes e secos e invernos moderados. Essa característica climática, com longas horas de sol e pouca chuva, favorece o amadurecimento das uvas.
- Solo: A diversidade de solos é grande, variando de xisto, granito e calcário a argila, o que contribui para a complexidade e variedade dos vinhos.
O Alentejo é subdividido em oito Denominações de Origem Controlada (DOC), cada uma possui características únicas que se refletem nos vinhos produzidos:
- Borba
- Évora
- Granja-Amareleja
- Moura
- Redondo
- Portalegre
- Reguengos
- Vidigueira
Os vinhos do Alentejo

O Alentejo é famoso por seus vinhos tintos, que geralmente são encorpados, frutados e com boa estrutura de taninos. Mas a região também produz excelentes vinhos brancos, com frescor e bom potencial de guarda, além de rosés refrescantes.
Principais Castas Tintas:
- Aragonez: Conhecida como Tempranillo na Espanha, produz vinhos encorpados e complexos, com notas de frutas silvestres e pimenta;
- Trincadeira: Adaptada ao clima seco, dá origem a vinhos aromáticos e frutados, com acidez natural e potencial de envelhecimento;
- Alicante Bouschet: De origem francesa, faz sucesso em Portugal. Uma casta tinta com polpa também tinta (teinturier), que confere aos vinhos uma cor escura e intensa, além de vigor e estrutura;
- Touriga Nacional: Considerada a uva mais emblemática de Portugal, oferece vinhos elegantes e concentrados, com aromas florais e de frutas maduras;
- Castelão: Produz vinhos com aromas de groselha e framboesa, com ótima capacidade de envelhecimento.
Principais Castas Brancas:
- Antão Vaz: Considerada a “alma dos brancos alentejanos”, resulta em vinhos perfumados, estruturados e com boa acidez;
- Arinto: Conhecida por sua acidez marcante e perfil mineral, produz vinhos frescos e vibrantes.
- Roupeiro: Oferece vinhos com aromas cítricos e de pêssego, sendo uma das castas brancas mais plantadas na região.
Características dos vinhos:
Vinhos Tintos: De cor rubi ou granada, aromas intensos de frutos vermelhos bem maduros. Macios e ligeiramente adstringentes, equilibrados e com estrutura, adquirem complexidade com a idade;
Vinhos Brancos: Aromáticos, frescos, harmoniosos e, por vezes, complexos em resultado da associação de castas.
A gastronomia alentejana é rica e robusta, e os vinhos da região harmonizam perfeitamente com os pratos locais. A base da culinária são o porco, o borrego (cordeiro) e o pão. Pratos como o Ensopado de Borrego, a Carne de Porco à Alentejana e as famosas Açordas e Migas são companhias perfeitas para os vinhos tintos encorpados do Alentejo. Já para os brancos, a harmonização ideal é com pratos de peixe ou com as sopas locais, como a Sopa de Cação e a Sopa de Beldroegas.
Se você ainda não experimentou um vinho desta região, não sabe o que está perdendo. Nas próximas semanas, vamos falar mais sobre o Alentejo e seus vinhos.
Um brinde!
Foto principal: Turismo Alentejo
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
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