Região da Beira Interior e seus vinhos de altitude

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Por Edmilson Palermo Soares

Continuando com a série sobre os vinhos de Portugal, hoje vamos falar sobre Beira Interior, que é a região vinícola mais montanhosa daquele país, compreendendo algumas das serras mais altas de Portugal.

Montanhas da Beira Interior – Foto Pexels

É uma extensa região vitícola que está situada com as seguinte fronteiras:

  • ao Norte com o Douro;
  • ao Sul com o Alentejo;
  • ao Oeste com o Dão;
  • ao Leste com a Sierra de Salamanca (Espanha).

No meio de tantos vizinhos com uma produção vinícola de destaque, seus vinhos não poderiam ser diferentes, são de alta qualidade.

Estranhamente é pouco conhecida dentro de Portugal.

O clima sofre de uma influência continental extremada, com importantes variações de temperatura, verões curtos, quentes e secos, e invernos prolongados e muito frios.

Os solos são maioritariamente graníticos, com pequenas manchas de xisto e, embora pouco comuns, manchas arenosas.

A Beira Interior encontra-se dividida em três sub-regiões:

  • Castelo Rodrigo;
  • Pinhel;
  • Cova da Beira.

Castelo Rodrigo e Pinhel, apesar de se encontrarem separadas por cadeias montanhosas, partilham características semelhantes.

Por sua vez, a Cova da Beira apresenta-se diferente, estendendo-se desde os contrafortes da Serra da Estrela até o vale do Rio Tejo, a Sul de Castelo Branco.

A tradição vitícola da região remonta à época romana, como a arqueologia nos aponta. Após a pacificação do território, os romanos instalaram-se, criaram grandes vilas e dedicaram-se à agricultura, principalmente ao cultivo da vinha e produção do vinho.

Foto: Pexels

Uma notável descoberta arqueológica, em pleno coração da Beira Interior, demonstra que também a norte do Tejo se produziu vinho romano em quantidade superior à necessária para o autoconsumo e com qualidade reconhecida. O local do achado situa-se muito próximo da via romana que ligava a capital da Lusitânia (Emerita Augusta) a atual Mérida (Bracara Augusta). As instalações encontradas e os equipamentos contidos nela permitem imaginar uma produção de vinho em grande volume para comercialização no exterior.

Este achados foram datados da ocupação entre a primeira metade do século I D.C. e o início do século V D.C.

A queda do Império Romano, a invasão visigótica e, posteriormente, o domínio árabe, provocaram profundas alterações na sociedade e em toda a estrutura produtiva, incluindo o vinho. De uma sociedade organizada e controlada de forma global, passou-se a uma sociedade mal estruturada e em constantes lutas de poder, onde cada aglomerado populacional tentava sobreviver como podia, à própria custa. Os vestígios desta época mostram uma produção de autossubsistência, recorrendo a incipientes lagares rupestres escavados na rocha e sistemas de prensagem muito mais arcaicos que os da época romana.

Beira Interior, uma das regiões vinícolas de Portugal, tem uma longa história na produção de vinhos. Com a altitude da região, produz vinhos elegantes
Lagar rupreste – Foto: CM-Tabuaço

D. João I implementou diversas medidas e leis que visavam fortalecer a Beira Interior, tanto em termos militares e econômicos quanto administrativos e religiosos, buscando garantir a segurança e o desenvolvimento da região após um período de conflitos e instabilidade contra o reino de Castela.

Durante o reinado de D. João III (entre 1521 e 1557), a região enfrentou um período de expansão marítima e comercial, com a chegada de produtos de outras regiões, como o vinho da Grécia e da Ilha da Madeira, que competiam com o vinho da Beira Interior.

Ele então decretou medidas protecionistas para a região com o objetivo de proteger a produção local de vinho, garantir a receita da Coroa com o comércio do produto e controlar a sua qualidade, evitando a concorrência com vinhos de outras regiões.

A Beira Interior sempre foi marcada por uma cultura de pequenas propriedades, com produtores que mantiveram a tradição de produção artesanal de vinho.

A Beira Interior como Denominação de Origem Controlada (DOC) foi criada em 1999, unindo as antigas regiões de Castelo Rodrigo, Cova da Beira e Pinhel, que se tornaram sub-regiões.

As castas brancas predominantes são o Arinto, Fonte Cal, Malvasia Fina, Rabo de Ovelha e Síria, enquanto nos tintos prevalecem o Bastardo, Marufo, Rufete, Tinta Roriz e Touriga Nacional, com presença regular de vinhas muito velhas.

Beira Interior e seus vinhos elegantes

A Beira Interior é conhecida pela produção de vinhos de altitude, com destaque para os vinhos tintos frutados e elegantes e os brancos frescos e aromáticos.

Há brancos muito aromáticos, frescos, com grande sentido gastronómico que exaltam as características das principais castas da região (Síria e Fonte Cal) e começa a haver brancos de guarda, que evoluem maravilhosamente em garrafa e evocam os dos antigos solares beirões.

Nos tintos, há vinhos de estilo moderno, carregados de cor, bastante alcoólicos e cheios de aromas primários, muitos deles feitos com a ajuda de castas internacionais, mas também há vinhos das castas autóctones (principalmente Rufete, Marufo, Touriga, Trincadeira e Bastardo), com menos cor e cheios de originalidade, tanto para beber jovens como para envelhecer longamente em garrafa. E isso só é possível graças ao clima da Beira Interior, às baixas produções por hectare e ao cuidado colocado na sua elaboração.

São tantas e tão originais as castas antigas da Beira Interior, que não é fácil eleger uma branca e uma tinta para representar a identidade da região.

Por ser uma casta branca que ainda não existe em mais nenhuma região vitícola do país, a Fonte Cal seria a mais indicada par representar a região. E para a casta tinta, por ser muito antiga em toda a região, e muito apreciada na Espanha, a Rufete.

Um brinde a todos e uma excelente experiência.

Foto principal: Belmonte, na região de Beira Interior – crédito: Calendario.Info

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin

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