Douro: onde nasce o Vinho do Porto

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Por Edmilson Palermo Soares

Na semana passada falamos sobre uma região vinícola de Portugal pouco conhecida, Távora-Varosa. Nesta semana, falaremos sobre a mais conhecida, a Região do Douro, onde nasce o Vinho do Porto.

O Douro é uma das regiões mais selvagens e agrestes de Portugal, talhada pelo vale do rio Douro e pela pobreza dos solos xistosos.

Em nenhum outro ponto de Portugal a intervenção do homem na paisagem é tão evidente, visível nos milhares de socalcos espalhados pela região, desafiando a gravidade das encostas íngremes onde as vinhas estão implantadas.

Socalcos são superfícies planas ou quase planas criadas em terrenos inclinados, geralmente em encostas de montanhas ou colinas, para permitir o cultivo e evitar a erosão do solo. São também conhecidos como terraços ou terraceamento.

Em áreas com declives acentuados, o solo pode ser facilmente erodido pela água da chuva ou vento. Para evitar isso, o terreno é cortado em degraus ou patamares.

Esses degraus nivelados criam superfícies planas onde o cultivo é possível, e ajudam a reter a água, reduzindo a erosão. Muros de pedra ou outros materiais são frequentemente usados para reforçar os socalcos e manter a sua estrutura.

Foto: Pixabay

Pela sua beleza e monumentalidade, a região foi reconhecida pela UNESCO como “Patrimônio da Humanidade”.

O Douro demarca-se segundo o eixo do rio Douro, estendendo-se desde a fronteira com Espanha até cerca de noventa quilometros de distância da cidade do Porto.

Douro é uma região vinícola de Portugal muito respeitada e conhecida no mundo todo, principalmente pelo seu maior vinho: o Vinho do Porto
Foto: Pixabay

Fortemente montanhosa, a região encontra-se protegida da influência atlântica pela Serra do Marão. O clima é habitualmente seco, com invernos frios e verões muito quentes, variando entre a precipitação moderada a Oeste e a secura quase desértica das terras próxima à fronteira.

É no Douro que nasce o Vinho do Porto, principal vinho de Portugal, amparado nas duas últimas décadas pelos vinhos tranquilos do Douro que ganharam consideração e independência, afirmando-se hoje como fonte de notoriedade redobrada para a região.

A produção de vinho no Douro é uma tradição passada de geração em geração, com técnicas ancestrais como a pisa a pé das uvas em lagares.

O Douro encontra-se dividido em três sub-regiões:

Baixo Corgo: sob a influência direta da Serra do Marão, é a sub-região mais fresca e chuvosa, a mais fértil e com maior densidade de vinhas.

Cima Corgo: conhecido como o coração do Douro, onde nascem muitos dos vinhos do segmento superior do Vinho do Porto.

Douro Superior: a sub-região de maior extensão, a mais quente, seca e extremada, mas também a menos acidentada, marcada pela secura e pelos verões infernais. É uma das regiões mais ricas em castas autóctones, com centenas de castas únicas e uma área extensa de vinhas velhas, por vezes plantadas com dezenas de castas misturadas.

A denominação “do Porto” é devido ao vinho ser armazenado e comercializado a partir do porto situado entre a cidade do Porto e Vila Nova de Gaia. O vinho descia o rio Douro dentro de barris em pequenos barcos chamados rabelos, onde seguiam para estagiar nas caves da cidade portuguesa de Vila Nova de Gaia, já que esta zona apresenta poucas variações de temperatura durante o ano.

Entre as centenas de castas, destacam-se cinco variedades tintas: Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca e Touriga Nacional, selecionadas pela excelência na produção de Vinho do Porto.

Foto: Pexels

Sobressaem igualmente as castas brancas Gouveio, Malvasia Fina, Moscatel, Rabigato e Viosinho, e as castas tintas Sousão e Tinta Amarela (Trincadeira).

Vestígios de lagares e vasilhames para guardar vinho indicam a produção de vinho no Douro desde a época romana.

As exportações do Vinho do Porto

Com o desenvolvimento das exportações de Vinho do Porto iniciou-se a prática de lhe adicionar aguardente. Assim, o vinho resistia inalterado à viagem no mar e a paragem da fermentação com a aguardente tornava o vinho mais adocicado e apropriado ao gosto do mercado inglês.

O Tratado de Windsor refere-se principalmente à mais antiga aliança diplomática ainda em vigor, estabelecida entre Portugal e Inglaterra. Este tratado, assinado em 1386, consolidou a amizade e cooperação mútua entre os dois reinos, especialmente após a Batalha de Aljubarrota, onde a Inglaterra apoiou Portugal.

O tratado estabelecia acordos militares, políticos e comerciais, incluindo a promessa de não permitir navios inimigos ou prestar auxílio a nações em conflito com qualquer um dos reinos.

Em 1703 foi assinado um novo tratado, Tratado de Methuen, impulsionando a exportação de Vinho do Porto para a Inglaterra, consolidando a região como fornecedora.

Também conhecido como Tratado de Panos e Vinhos, foi assinado em 27 de dezembro de 1703. Ele regulamentou as relações comerciais entre Portugal e Inglaterra, no que tange o comércio, justamente, de panos (por parte dos ingleses) e vinhos (por parte dos portugueses).

No contexto militar, o tratado garantiu o apoio inglês a Portugal durante o conflito com a Espanha na Guerra de Sucessão Espanhola.

O Marquês de Pombal estabeleceu a primeira região demarcada do mundo em 1756, com a criação da Real Companhia Velha, consolidando o Douro como região vinícola de referência.

Este organismo tinha como principais competências fazer a limitação da região e registo das vinhas, classificar os vinhos de acordo com a sua qualidade e estabelecer determinadas práticas vitivinícolas na região. Era o nascimento de uma das primeiras regiões demarcadas do mundo.

Nos anos de 1850 a 1870, o Douro enfrentou desafios com pragas como o oídio (fungos) e a filoxera (pulgões), que devastaram os vinhedos.

Em 1979, foi incluída a demarcação oficial do Douro para a elaboração de rótulos tranquilos, além dos licorosos.

As cepas tintas também geram vinhos encorpados, tânicos e dignos de envelhecimento. Os brancos são um pouco mais difíceis de encontrar, mas têm corpo leve, são minerais e apresentam notas frutadas, assim como salinidade e alta acidez.

Por falar em uvas, estima-se que mais de 80 castas distintas sejam cultivadas e utilizadas na produção de vinhos tranquilos e fortificados no Vale do Douro. Toda essa diversidade faz com que, muitas vezes, um só vinhedo contenha mais de 20 variedades.

Algumas castas internacionais voltadas para a produção de vinhos tranquilos, como cabernet sauvignon, sauvignon blanc e gewürztraminer, também ganharam espaço nas vinícolas e figuram entre as uvas não nativas mais comuns.

O Vinho do Porto possui várias classificações:

Ruby: Um vinho tinto, jovem e frutado, envelhecido em grandes tonéis, o que limita o contato com a madeira e preserva seus sabores vibrantes de frutas vermelhas;

Tawny: Envelhecido por longos períodos em barricas de madeira, desenvolve um sabor mais complexo, com notas de frutas secas, caramelo e especiarias;

Reserva: Refere-se a vinhos Ruby e Tawny que possuem maior complexidade e estrutura, fruto de uma seleção de vinhos de maior qualidade;

Vintage: Um vinho tinto produzido com uvas de um único ano excepcional, envelhecido em garrafa por décadas, e considerado um dos melhores Vinhos do Porto;

Late Bottled Vintage (LBV): Um vinho tinto de um único ano, engarrafado entre quatro e seis anos após a vindima, com características próximas ao Vintage;

Colheita: Um Tawny de um único ano, que estagia em madeira por um período mínimo de 7 anos, sendo engarrafado apenas quando o produtor achar que atingiu o ponto ideal;

Tawny com Indicação de Idade (10, 20, 30, 40 anos): Vinhos Tawny envelhecidos em madeira por um período específico, que influencia suas características organolépticas (cor, aroma e sabor);

Branco: Elaborado com uvas brancas, pode ser seco, meio-seco ou doce, e passa por um período em madeira;

Rosé: Uma categoria mais recente, geralmente mais fresca e frutado, produzida com uvas tintas, que passam por um processo de maceração mais curto para obter a cor rosada.

O Vinho do Porto mais caro e mais raro do mundo é produzido pela Quinta do Noval. O seu Porto Vintage Nacional é produzido poucas vezes e sempre em número limitado (200 a 250 caixas). Uma das suas particularidades é o fato das uvas serem provenientes de videiras plantadas sem porta-enxertos, muito antigas e raras na região.

Que tal procurarmos uma garrafa desta região para uma experiência nova?

Um brinde a Douro!

Foto principal: Serge Chapuis/Quinta do Noval

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin

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