Lisboa, a região vinícola mais diversificada de Portugal

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Por Edmilson Palermo Soares

Continuando com nossa série sobre os vinhos e regiões vinícolas de Portugal, vamos falar sobre a região de Lisboa, que está localizada nas colinas ondulantes que se estendem ao longo da costa atlântica situada a norte da capital, uma das mais tradicionais do país.

Essa região vitivinícola pode ser definida em duas palavras:

  • Diversidade: abrange tradicionais regiões próximas à capital, mas com grande variedade nos aspectos geológicos e climáticos. Essa diversidade reflete-se nos vinhos, criando uma pluralidade de tipicidades, que fazem a região ser vista como terra de paradoxos e dispersão;
  • Complexidade: está presente nos aspectos humanos, com a metrópole de Lisboa influenciando mudanças, mas coexistindo com localidades rurais a poucos minutos de distância. É possível observar essa dualidade ao cruzar a região: antigos moinhos de vento lado a lado com modernos geradores de energia elétrica.

Os vinhedos que estão plantados junto à linha da costa sofrem de uma forte e decisiva influência atlântica, gerando vinhos de graduações alcoólicas muito baixas, com uma leveza comparável aos vinhos do Minho.

Já os vinhedos plantados no interior, protegidos da influência marítima pelos diversos sistemas montanhosos, beneficiam de um clima mediterrânico de transição.

A região vinícola de Lisboa é uma das mais diversificadas de Portugal, porque são abrange regiões próximas à capital, mas com aspectos geológicos climáticos diversos
Foto: Site da Casa Santos Lima

Os solos dividem-se entre zonas argilo-calcários e argilo-arenosas.

A região possui uma longa e rica história na produção de vinho remonta aos fenícios, passando pelos romanos com registros das antigas prensas de varas romanas.

Durante a ocupação moura, a viticultura declinou, mas renasceu com a Reconquista Cristã (século XII), sendo incentivada pelos monges da Ordem de Cister, especialmente na produção de vinho para fins religiosos.

Na segunda metade do século XVI, o vinho de Bucelas já era conhecido na Inglaterra. Os ingleses chamavam de Lisbon Hock (vinho branco seco).

Teve uma enorme popularidade na época das Invasões Francesas (1808-1810). Wellington apreciava muito este vinho e o levou para Inglaterra com o objetivo de o oferecer a Jorge III de Inglaterra.

Já as tropas de Wellington bebiam o vinho de Carcavelos com frequência e acabaram levando esse hábito para Inglaterra, o que levou a ser exportado para Inglaterra em grandes quantidades e durante vários anos.

A demarcação de regiões de Carcavelos, Colares e Bucelas, em 1908, consolidou a reputação dos vinhos locais, abrindo caminho para novas denominações.

De Estremadura para Lisboa

Até 2008, a região era conhecida como Estremadura, porém o termo causava confusão com a região vinícola de mesmo nome situada na Espanha. Por isso, a partir do ano seguinte, foi nomeada em homenagem à capital.

Estremadura foi um nome criada em 909 para identificar a linha de fronteira durante a Reconquista das terras portuguesas cristãs aos mouros. Vem do termo extrema Durii (extremos do Douro).

Outra interpretação diz que o nome pode também derivar de extremada, que, em latim, significa “escolhida”.

Através da portaria nº 426/2009 de 23 de Abril de 2009, o Governo cria a Indicação Geográfica “Lisboa”, agregando nesta denominação todos os vinhos produzidos e certificados na região, substituindo desta forma a designação Vinho Regional Estremadura.

A Região de Lisboa é composta por nove denominações de origem, agrupadas em três áreas geográficas de características distintas:

  • No Sul: bem perto de Lisboa, encontram-se as denominações de Bucelas, Colares e Carcavelos;
  • No Centro: as denominações de Alenquer, Arruda, Lourinhã, Óbidos e Torres Vedras;
  • No Norte: a denominação de Encostas d’Aire.

Vale registrar os seguintes destaques:

Bucelas: É conhecida por sua excelente produção de vinhos brancos e espumantes. Entre as técnicas utilizadas, é possível citar o processo de fermentação fria, a colheita tardia das uvas e o método champenoise. A principal característica que aparece nos vinhos é a acidez, originada tanto das uvas Arinto e Esgana Cão, quanto do clima sub-Mediterrâneo;

Colares: uma das denominações mais originais e alternativas de Portugal, tendo um dos seus principais vinhos produzidos feitos com a uva Ramisco (típica da região), tintos delicados, com corpo leve e taninos intensos;

Carcavelos: hoje uma região arrasada, quase sem vinhas e sem produtores, vítima da voracidade da pressão imobiliária urbana de Lisboa, produz vinhos fortificados e envelhecidos, com cor de topázio e sabores e aromas amendoados;

Arruda: Entre os vinhos cultivados na região estão tintos intensos e envelhecidos e brancos leves e aromáticos, ambos de altíssima qualidade.

Temos a classificação também dos Vinhos Regional Lisboa (IGP), e por último, os Vinhos de Mesa, que são diferentes do conceito brasileiro, sendo produzidos com uvas Vitis vinifera.

Para entender o rigor e a busca pela qualidade na região, em 2000, apenas 4,4% da colheita declarada obteve o status de denominação de origem, enquanto 29,3% foram classificados como vinhos regionais. O restante foi enquadrado como vinho de mesa.

Torres Vedras, uma dos distritos da região de Lisboa -Foto: TripAdvisor

As castas de Lisboa

As principais castas brancas da região de Lisboa são: Alicante Branco, Alvarinho, Antão Vaz, Arinto (Pedernã), Chardonnay, Fernão Pires (Maria Gomes), Jampal, Malvasia Rei, Rabo de Ovelha, Ratinho, Sauvignon Blanc, Seara Nova, Viosinho, Vital.

Ja as castas tintas são: Alicante Bouschet, Amostrinha, Aragonez (Tinta Roriz, chamada na Espanha de Tempranillo), Baga, Cabernet Sauvignon, Caladoc, Camarate, Castelão (Periquita), Jaen, Syrah, Tinta Barroca, Tinta Miúda, Touriga Franca, Touriga Nacional, Trincadeira (Tinta Amarela).

A região expandiu-se e diversificou-se, produzindo uma variedade de vinhos de qualidade, incluindo os vinhos regionais que são muito populares em Portugal.

Atualmente os vinhos são exportados principalmente para: Angola, Bélgica, Reino Unido, Escandinávia, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Noruega, Alemanha e Brasil.

Entre os principais produtores da região reconhecidos nacional e internacionalmente podemos citar: Quinta da Cortezia, Chocapalha, Casa Santos Lima, Quinta do Gradil, Quinta do Monte D’Oiro, Quinta de Pancas, Fundação Oriente (Colares), Adega do Cadaval.

Com uma história que se estende por séculos e uma produção que combina tradição e inovação oferece uma experiência rica e diversificada para os amantes do vinho.

Um brinde!

Foto principal: Quinta do Gradil

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin

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