Por Edmilson Palermo Soares
O mercado formal de vinho no Brasil é um ecossistema complexo que une a tradição agrícola do Sul com a inovação tecnológica do Sudeste e do Nordeste.
As vinícolas no Brasil e suas características
O Brasil possui aproximadamente 1.100 vinícolas registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). No entanto, há uma distinção clara entre os perfis:
Grande Indústria (Cooperativas e Gigantes): Cerca de 10 a 15 empresas detêm a maior fatia do volume de produção (como Aurora, Salton e Miolo). Elas são fundamentais para o faturamento total do setor.
Vinícolas Boutique e Familiares: É o segmento que mais cresce em termos de prestígio. São cerca de 700 a 800 pequenas propriedades que focam em vinhos finos e experiências de enoturismo.
Vinícolas de Inverno: Um novo grupo de cerca de 50 a 80 produtores (principalmente em SP e MG, mas avançando para o PR) que utilizam a técnica da dupla poda.

Empregos e pessoas no setor
A cadeia produtiva do vinho é uma das que mais gera empregos por hectare na agricultura, devido à necessidade de mão de obra especializada para a poda e colheita manual (essencial para vinhos finos).
Empregos Diretos e Indiretos: Estima-se que o setor sustente cerca de 150 mil a 200 mil famílias no Brasil. Isso inclui desde o viticultor no campo até o sommelier no restaurante.
Distribuição: A maior concentração está no Rio Grande do Sul (cerca de 90% da produção nacional), mas o setor de serviços e eventos é o que mais expande em polos urbanos como Londrina, Curitiba e São Paulo.
A formação da cadeia de valor
O mercado se organiza em quatro grandes elos.
Produção (O Campo): Aproximadamente 15 mil a 18 mil famílias de produtores de uva (muitos integrados a cooperativas).
Transformação (A Indústria): As vinícolas que processam a uva, controlam a fermentação e o estágio em barricas.
Distribuição (O Canal): Importadoras, distribuidores regionais e representantes comerciais.
Ponto de Dose/Consumo: Wine bars, lojas especializadas e confrarias de educação, que são o elo final que entrega a experiência ao consumidor.
O mercado de trabalho especializado
Com a “premiumização” que discutimos, o mercado formal passou a exigir novas profissões que antes eram raras no Brasil:
Wine Educators: Profissionais que, como eu, transformam o consumo em conhecimento.
Turismólogos de Vinho: Focados em criar roteiros de visitação.
Analistas de Dados de Consumo: Para entender o comportamento de compra no e-commerce e clubes de vinho.

O impacto do setor de vinho na geração de empregos e renda no Brasil é profundo, especialmente por ser uma cadeia que distribui valor em áreas rurais onde outras indústrias não chegam.
Em 2026, os números mostram que o setor não apenas cresceu em faturamento, mas se tornou um pilar de estabilidade social em várias regiões.
O faturamento total do setor vitivinícola brasileiro atingiu a marca de R$ 21,1 bilhões ao encerrar 2025, com uma projeção de chegar a R$ 22 bilhões até o final de 2026.
O setor cresceu cerca de 9% a 10% no último ano.
O destaque não está no volume, mas no valor. O brasileiro está gastando mais por garrafa.
Diferente da soja ou do milho, que são altamente mecanizados, a produção de vinhos finos é extremamente dependente de mão de obra humana qualificada.
Só na cultura da uva (viticultura), o Brasil mantém um estoque de quase 30.000 empregos diretos (dados do CAGED de fev/2026), com destaque para o Vale do São Francisco e a Serra Gaúcha.
Durante a colheita (vindima) de 2026, estima-se que houve a contratação de 9.000 vagas temporárias apenas no Rio Grande do Sul. Muitos desses trabalhadores acabam sendo efetivados devido à expansão das vinícolas.
Quando somamos logística, varejo, sommelieria e educação, o setor sustenta indiretamente mais de 200.000 famílias.
O grande “trunfo” social do vinho no Brasil é a sua estrutura fundiária.
A vitivinicultura brasileira é majoritariamente baseada na agricultura familiar. No Rio Grande do Sul, cerca de 90% dos produtores de uva possuem propriedades com menos de 10 a 15 hectares.
O Enoturismo é o maior motor de distribuição de renda hoje. Ele leva o dinheiro do centro urbano (como Londrina) diretamente para o produtor rural. O turista gasta com hospedagem, alimentação e compra direta na vinícola, eliminando atravessadores e mantendo a renda na comunidade local.
Responsabilidade social
Muito se fala de responsabilidade social e aqui está uma oportunidade real de praticar este conceito.
Ao comprar um vinho nacional você está ajudando na preservação de famílias de viticultores no Sul ou no Sudeste.
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
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