Londrina chama de “benemérito” quem fez o básico. Ou nem isso

EizVb

Por Telma Elorza

Londrina não decepciona. Paga vergonha no débito. A última, um problema comum por aqui: a banalização de homenagens públicas. O mais recente exemplo é a concessão do título de “Cidadão Benemérito”, na noite da última quarta-feira (6) ao deputado federal Filipe Barros, proposta pela vereadora Jessicão, aquela que costuma ser motivo de vergonha alheia para a cidade.

Uma homenagem que foi baseada em quê, exatamente? Quando se tira a política do palanque (sim, estamos em ano eleitoral e Barros parece que vai tentar ser senador) e se olha para números – com dados oficiais, públicos e verificáveis como o Portal da Câmara de Deputados e Portal da Transparência do governo federal, além de sites de notícias -, o cenário é bem menos “benemérito” do que o discurso sugere.   

Ao longo dos últimos 4 anos e meio, Londrina deixou de figurar como prioridade clara no envio de recursos do deputado. No recorte mais recente das emendas parlamentares, sobretudo as chamadas “emendas PIX”, o volume de dinheiro destinado à cidade é bem modesto.

Sim, é verdade que houve um pico anterior, entre 2019 e 2021, com valores mais robustos para obras e projetos urbanos. Mas política não é retrospectiva seletiva. Um mandato – com reeleição no meio – deveria ser continuidade. E, no período mais recente, que deveria refletir maturidade política e fortalecimento de articulação em prol de Londrina, o que se viu foi uma redução significativa de protagonismo financeiro em relação à cidade.

O título de Cidadão Benemérito ao deputado Filipe Barros, proposto pela vereadora Jessicão, é mais uma vergonha que Londrina paga no débito
Deputado federal Filipe Barros – foto: Lula Marques/Agência Brasil

As verbas para Londrina

Segundo o levantamento que fiz, há apenas um registro claro de dinheiro encaminhado para Londrina, R$200 mil, datado de 2023 e destinado diretamente à cidade, via Ministério da Agricultura. Para ser justa, é preciso dizer queo deputado conseguiu transferências especiais para o Paraná de R$1,04 milhão, porém sem vinculação exclusiva à cidade. Dinheiro pulverizado, sem destinação clara para Londrina.

Nos outros anos, os dados mostram que continuam seguindo esse padrão:

Em 2022: cerca de R$8 milhões em transferências especiais ao Paraná, novamente sem detalhamento municipal.

Em 2024: R$13,3 milhões autorizados no Estado, também distribuídos de forma bem ampla.

Traduzindo de forma bem didática: dinheiro veio, mas não necessariamente para Londrina.

E basta dar uma xeretada no banco de dados da Prefeitura de Londrina que a gente percebe algo incrível: aparecem milhões em verbas vinculadas à cidade em áreas como desenvolvimento urbano, turismo, esporte. O problema é que esses valores incluem emendas de outros deputados, emendas de bancada e repasses federais sem autoria individual específica. De origem clara, via o “benemérito”, só aqueles duzentinhos mesmo. Ou seja: não é uma limitação do sistema. É escolha política. Não mandou dinheiro porque não quis.  

E aqui entra um ponto que a Jessicão fez questão de esquecer ao homenagear seu padrinho político. Enviar emendas orçamentárias não é um favor. É obrigação de um deputado federal.

Eles são eleitos justamente para representar seus eleitores e direcionar recursos públicos. E são MUITO BEM PAGOS para exercer essa função.

Hoje, um deputado federal no Brasil recebe um salário bruto de cerca de R$42 mil por mês – para trabalhar numa escala 3×4. Além disso, conta com uma verba de gabinete que pode ultrapassar R$120 mil mensais, destinada à contratação de até 25 assessores. Sem contar auxílio-moradia, cota parlamentar para viagens, combustível, propaganda institucional e planos de saúde e odontológicos de alto padrão – para si e para família – , tudo com recursos públicos.

Isso significa uma estrutura robusta, bancada com dinheiro público, para que o parlamentar entregue resultados a quem o elegeu.

Transformar o eventualíssimo envio de recursos, com valores modestos, em motivo para honraria máxima do Município é desproporcional e constrangedor.

O título de Cidadão Benemérito deveria ser reservado para pessoas com trajetórias pessoais excepcionais, com contribuições incontestáveis que trouxeram impactos duradores na cidade. Gente que, geralmente, não recebe salário para toda essa doação. E não para o cumprimento apenas parcial de seus deveres parlamentares.

Projetos vergonhosos sem real interesse por Londrina

A iniciativa da vereadora Jessicão, aliás, levanta outro debate necessário a ser feita sobre a qualidade da produção legislativa municipal. Em vez de focar em projetos estruturantes, que enfrentem problemas reais da cidade e na função básica de um vereador, que é fiscalizar o Executivo, a maior parte do esforço político dessa legislatura é direcionado a propostas de baixo impacto (na sua maioria, besteiras mesmo – como o caso da lei proibindo que esportistas trans e cis disputassem torneios em Londrina que virou piada nacional) ou inconstitucionais, apenas para agitar nas redes sociais.  

Londrina precisa urgentemente reaprender a diferenciar quem faz o básico (mal feito) de quem realmente faz a diferença. Porque, quando se olha friamente para os fatos – e não para o discurso -, o que aparece não é protagonismo nem real interesse pela cidade. É estratégia de mídia social em ano de eleição. Esses políticos querem ser reeleitos ou irem para outros cargos (que pagam mais). Londrina não precisa mais disso, precisa de políticos que entreguem resultados consistentes, que pensem a cidade, que lutem por ela. Estamos cansados de ver a cidade sofrer por falta de comprometimento com a realidade londrinense.

Foto principal: Imagem gerada por IA/Grok

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

Leia mais artigos de Opinião

Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram: @olondrinensejornal

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse