Por Edmilson Palermo Soares
O Vale do Maipo é o berço histórico e a região mais prestigiada da vitivinicultura chilena, frequentemente chamado de a “Bordeaux da América do Sul” pela excelência dos seus vinhos à base de Cabernet Sauvignon.
Como a maioria da vinicultura chilena, aqui a atividade também começou no século XVI com os colonizadores espanhóis e padres jesuítas, que introduziram a uva País para o vinho de missa.
A grande transformação, contudo, ocorreu em meados do século XIX.
Famílias abastadas enriquecidas pela mineração (como Silvestre Ochagavía, Melchor de Concha y Toro e Maximiano Errázuriz) viajaram à França e trouxeram enólogos, barricas e mudas nobres de Bordeaux (Cabernet Sauvignon, Carmenère, Merlot e Malbec) antes da praga da filoxera atingir a Europa.
Protegido pela barreira natural da Cordilheira dos Andes e pelo Oceano Pacífico, o Chile permaneceu imune à filoxera. Até hoje, os vinhedos do Maipo são plantados em pé-franco (raízes originais, sem necessidade de enxertia).
Características do terroir do Valle do Maipo
- Clima: Mediterrâneo semiárido, com verões quentes e secos e invernos com chuvas moderadas concentradas. A baixa umidade previne doenças fúngicas quase por completo.
- Amplitude térmica: Dias ensolarados e noites frescas, proporcionadas pelas brisas frias que descem dos Andes, permitem maturação fenólica completa preservando a acidez natural.
- Solos: Predominantemente aluviais e coluviais, compostos por cascalho, argila, areia e pedras redondas de boa drenagem, formados pelo degelo do Rio Maipo.
- Perfil de estilo: O Cabernet Sauvignon do Maipo é mundialmente reconhecido pela assinatura de cassis maduro, cereja preta, taninos finos e elegantes, além de uma nota herbácea nobre e refrescante de eucalipto e hortelã.
Sub-regiões
Alto Maipo (Maipo Alto):
Localizado aos pés dos Andes (400 a 800+ metros de altitude), compreende comunas históricas como Pirque, Puente Alto e Buin. É a faixa mais nobre, de noites frias e solos pedregosos, de onde saem os vinhos ícones de taninos mais lapidados e grande potencial de guarda.
Maipo Médio (Maipo Central):
Situado nas planícies ao redor de Isla de Maipo e Talagante. Área ligeiramente mais quente, de solos com maior presença de argila, produzindo vinhos tintos mais redondos, encorpados e frutados.
Maipo Baixo (Maipo Costa):
Estende-se para oeste em direção à Cordilheira da Costa. Recebe influência marítima do Pacífico e névoas matinais, o que alonga o ciclo de maturação e favorece vinhos tintos mais frescos e algumas castas brancas.
Curiosidades históricas do Vale do Maipo
O Mito do Casillero del Diablo
No final do século XIX, Don Melchor de Concha y Toro percebeu que garrafas de suas melhores reservas pessoais desapareciam misteriosamente da adega subterrânea em Pirque. Para conter os furtos cometidos pelos próprios trabalhadores, ele espalhou o boato de que o Diabo habitava aquelas galerias. A superstição local funcionou de imediato: os roubos cessaram e a história deu origem a uma das marcas de vinho mais conhecidas e distribuídas do planeta.
A Redescoberta da Carmenère (1994)
Durante mais de um século, os produtores chilenos acreditaram que cultivavam uma variante tardia de Merlot, chamada localmente de Merlot Peullenc. Em novembro de 1994, o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot visitou os vinhedos da vinícola De Martino, em Isla de Maipo, e identificou que aquelas plantas eram, na verdade, Carmenère — casta bordalesa dada como praticamente extinta na Europa desde a crise da filoxera no século XIX. A De Martino foi a primeira vinícola a engarrafar e comercializar oficialmente a uva com seu verdadeiro nome na safra 1996.
Os 120 Patriotas de Santa Rita
Durante a Guerra da Independência do Chile, em 1814, após a desastrosa derrota na Batalha de Rancagua frente às tropas da coroa espanhola, o general patriota Bernardo O’Higgins e seus homens buscaram refúgio. Paula Jaraquemada, dona da fazenda que hoje abriga a Viña Santa Rita, em Buin, abrigou e alimentou 120 soldados feridos nas caves subterrâneas da propriedade, desafiando as tropas realistas. O episódio deu origem à linha “120”, um dos vinhos mais populares do Chile.
O Julgamento de Berlim (2004)
Inspirado no histórico Julgamento de Paris de 1976, Eduardo Chadwick organizou uma degustação às cegas em Berlim, em 23 de janeiro de 2004, reunindo 36 dos mais conceituados críticos de vinho da Europa para avaliar rótulos chilenos contra ícones mundiais de Bordeaux e da Toscana (como Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Château Latour e Sassicaia). O grande vencedor em 1º lugar foi o Viñedo Chadwick 2000 (de Puente Alto, Alto Maipo), e o 2º lugar ficou com o Sena 2001, consolidando em definitivo o terroir do Maipo na elite mundial dos grandes tintos.

O campo de polo que virou vinhedo lendário
A área que hoje dá origem ao cultuado Viñedo Chadwick não foi desenhada originalmente para a viticultura. O local, situado em Puente Alto, era o campo de polo particular de Don Alfonso Chadwick Errázuriz, capitão da equipe chilena e campeão do esporte nas décadas de 1940 e 1950. Apenas no final dos anos 1980, seu filho Eduardo Chadwick o convenceu a converter o gramado esportivo em um vinhedo de Cabernet Sauvignon de alta densidade, aproveitando o solo aluvial pedregoso do leito do rio Maipo.
A batalha urbana contra o concreto
O Vale do Maipo é uma das poucas regiões vitivinícolas de prestígio global coladas a uma metrópole de quase 7 milhões de habitantes (Santiago). Historicamente, propriedades lendárias como Cousiño Macul (fundada em Macul/Peñalolén em 1856) viram os vinhedos originais serem cercados pelo avanço imobiliário da cidade ao longo do século XX. Para preservar suas vinhas velhas e manter a produção, as famílias proprietárias tiveram que se defender de sucessivos planos diretores urbanos e adquirir novas terras mais profundas em direção à cordilheira (como Buin e Paine).
Principais Uvas Tintas:
Cabernet Sauvignon: A rainha incontestável do vale (ocupa a grande maioria dos vinhedos).
Carmenère: Adapta-se muito bem no Maipo Médio, entregando notas de especiarias e pimentão doce assado.
Merlot: Presente em zonas com solos de maior retenção hídrica.
Syrah, Cabernet Franc e Petit Verdot: Usadas tanto em varietais quanto na composição de grandes cortes bordaleses.
Principais Uvas Brancas:
Sauvignon Blanc e Chardonnay: Cultivadas em menor escala, principalmente em parcelas mais frescas do Maipo Baixo ou altitudes elevadas.
Principais vinícolas do Vale do Maipo
Concha y Toro – Puente Alto / Pirque.
Rótulos de destaque:
- Don Melchor (ícone histórico de Puente Alto);
- Marqués de Casa Concha.


Viña Almaviva – Puente Alto (joint-venture Concha y Toro & Baron Philippe de Rothschild).
Rótulos de destaque:
- Almaviva (um dos maiores vinhos ícones da América do Sul).
Viñedo Chadwick – Puente Alto (propriedade da família Chadwick/Errázuriz)
Rótulos de destaque:
- Viñedo Chadwick (primeiro vinho chileno a obter 100 pontos internacionais).
Santa Rita – Buin
Rótulos de destaque:
- Casa Real Reserva Especial (Cabernet Sauvignon de guarda clássico);
- Medalla Real
Cousiño Macul – Peñalolén / Macul
Rótulos de destaque:
- Lota;
- Finis Terrae;
- Antiguas Reservas (vinícola familiar mais antiga do país).
Perez Cruz – Liguai de Huelquén (Alto Maipo)
Rótulos de destaque:
- Quelen;
- Pircas;
- Liguai.
De Martino – Isla de Maipo
Rótulos deddestaque:
- Cuvee;
- Legado;
- Single Vineyard La Cancha (pioneira na redescoberta moderna da Carmenère).
Antiyal – Alta Maipo
Rótulos de destaque:
- Antiyal;
- Kuyen (referência absoluta em viticultura biodinâmica no Chile).
Um brinde!
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
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