O Brasil está em crise ou o mercado mudou?

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Por Rogério Buchala

Basta conversar com comerciantes de cidades pequenas e médias para ouvir uma frase recorrente: “O comércio está parado”. As lojas estão mais vazias, o movimento no centro diminuiu e alguns negócios tradicionais fecharam. A conclusão parece imediata: o país está em crise.

A percepção é compreensível, mas observa apenas a parte mais visível da economia. Durante muito tempo, o movimento das lojas funcionou como um termômetro: ruas cheias significavam prosperidade; lojas vazias, crise. Hoje, essa relação já não funciona da mesma maneira.

O consumidor continua comprando, mas uma parcela crescente dessas compras não passa pelo caixa da loja local. Ela acontece pelo celular, dentro de casa e a qualquer hora. O dinheiro pode seguir para um grande marketplace, uma empresa de outro estado ou até para um vendedor do outro lado do mundo.

A globalização deixou de ser um conceito distante dos livros de economia. Ela está no bolso de qualquer pessoa que tenha um celular. Antes de comprar na loja da esquina, o consumidor compara preços, consulta avaliações, procura cupons e calcula o frete. A loja local já não concorre apenas com o estabelecimento da rua ao lado, mas com praticamente o planeta inteiro.

Isso explica uma contradição comum no interior: o comerciante sente que as vendas diminuíram, enquanto motocicletas, vans e caminhões entregam pacotes o dia todo. A loja parece vazia, mas as casas recebem mercadorias continuamente. O consumo não desapareceu; em boa medida, mudou de endereço.

Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil estimou que cerca de 139 milhões de brasileiros compraram pela internet nos 12 meses anteriores ao levantamento de 2026. A média chegou a 5,1 pedidos mensais por consumidor. O IBGE também mostrou que, em 2024, quase 10% da receita do varejo veio das vendas on-line; nas lojas de departamento, a participação chegou a 49,6%.

Para o pequeno lojista, a crise é concreta

Essa mudança cria dificuldades reais para o comércio tradicional. Quando o dinheiro deixa de circular no município, diminui também seu efeito sobre empregos, salários e outros negócios locais. Para o lojista que perdeu clientes, a crise é concreta. O equívoco está em transformar essa situação particular em prova de que toda a economia brasileira estaria em colapso.

Os indicadores nacionais mostram um cenário diferente. O Brasil cresceu 2,3% em 2025 e avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026. Agropecuária, indústria e serviços apresentaram expansão. Pode-se discutir se esse ritmo é suficiente, mas não é razoável chamar de recessão uma economia que continua crescendo.

O mercado de trabalho também contraria a ideia de crise generalizada. O desemprego caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho, o menor resultado para esse período desde o início da série histórica. O rendimento médio real chegou a R$ 3.738 e mais de 921 mil empregos formais foram criados no primeiro semestre.

A inflação ainda merece cuidado. O IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,64%, ligeiramente acima do teto de 4,5% da meta. Não é um problema resolvido, principalmente para as famílias de menor renda, mas está distante de representar descontrole dos preços. Em junho, a inflação mensal foi de 0,16%.

No setor externo, também não há sinais de fuga de investidores. O país recebeu US$ 89,3 bilhões em investimento direto em 12 meses, valor superior à necessidade de financiamento externo no período. As reservas internacionais somavam US$ 367,6 bilhões, oferecendo proteção importante contrachoques internacionais.

Isso não significa que esteja tudo bem. A dívida bruta chegou a 81,9% do PIB, o déficit público que inclui os juros ficou próximo de 10% e a Selic permaneceu em 14,25% ao ano. O crédito continua caro, e a taxa de investimento, de 16,5% do PIB, ainda é insuficiente para sustentar um crescimento mais forte.

O Brasil possui, portanto, problemas sérios, mas não vive uma crise econômica generalizada. A falácia aparece quando uma dificuldade verdadeira — a loja vazia, o fechamento de um estabelecimento ou a dívida elevada — é apresentada como retrato de toda a economia.

Em muitas cidades, aquilo que chamamos de crise pode ser o efeito de uma transformação profunda na maneira de comprar e vender. O comércio mudou, o consumidor mudou e a concorrência deixou de ter endereço conhecido. Talvez o brasileiro não esteja comprando menos; talvez esteja comprando de outra forma e de empresas que já não ficam em sua própria cidade.

Isso não torna menor o desafio enfrentado pelo comércio local. Apenas muda o diagnóstico: em vez de uma retração geral do consumo, há uma disputa muito mais ampla pelo mesmo consumidor, agora conectado a mercados nacionais e internacionais.

A questão não é esperar que a antiga economia volte. É perceber que ela está sendo reorganizada por um mercado mais amplo, digital e globalizado — e que as lojas vazias contam apenas uma parte dessa história.

Fontes: IBGE; Banco Central do Brasil; Ministério do Trabalho e Emprego; CNDL/SPC Brasil. Dados disponíveis até agosto de 2026.

Rogério Buchala
Quem lojas vazias, pensa imediatamente em crise no País. Mas os indicadores mostram um cenário diferente. O comércio mudou e hoje está mais forte on-line

Economista formado pela UEL, professor, mestre e doutor pela UNESP.

Instagram @rogeriobuchala

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