Por Edmilson Palermo Soares
Sempre me perguntam, em minha loja, a origem da uva Tannat. E eu respondo que, o mais provável berço da uva Tannat é o território entre o sul da França e o País Basco (nordeste da Espanha), conhecido como Pireneus. O fruto vem de uma família de uvas que está presente na região desde a Roma Antiga. Porém, ficou mais conhecida no Uruguai, onde é um símbolo nacional.
O nome “Tannat” deriva do dialeto da região de Béarn e significa “tostada, bronzeada”, uma provável referência à coloração escura da uva ou ao seu alto teor de taninos.
As primeiras menções a esta uva foram na região de Madiran, no sudoeste da França, por volta de 1780.
Foi trazida para o Uruguai, por volta de 1870, por um imigrante basco (Don Pascual Harriague), sendo plantadas as primeiras mudas em Salto, no norte do país. Devido ao seu introdutor no Uruguai, a uva também foi chamada de Harriague.
A uva se adaptou perfeitamente ao terroir uruguaio, tornando-se a variedade mais plantada do Uruguai.
O Instituto Nacional de Viticultura declarou o dia 14 de abril como Dia do Tannat, em homenagem a Harriague, que faleceu nessa data em 1894.
Brasil, Argentina, Itália, Estado Unidos, Bolívia, Peru e Austrália também cultivam a Tannat.
A aparência das uvas Tannat diz muito sobre o seu vinho: a coloração é roxo escura, levemente azulada, às vezes até se assemelhando a jabuticabas, e as cascas são bastante grossas e resistentes.
Devido sua alta concentração de taninos, é amplamente utilizada em cortes, geralmente com as famosas Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, onde geralmente resulta em exemplares ricos em aromas e sabores, buscando sempre deixá-la mais delicada.
Lembre-se, os taninos dão estrutura ao vinho tinto, fazendo parte do que chamamos de corpo da bebida, porém, o excesso dessa substância pode conferir uma sensação adstringente exacerbada, podendo tornar-se desagradável. Por isso, a constante presença de acidez e álcool na medida certa farão do produto um sucesso no momento da degustação.
Outra forma de suavizar seus taninos é a clássica passagem por barricas de carvalho, onde diversas reações ocorrerão para que o resultado possa ser o mais equilibrado possível.
Foi na região de Madiran que foi desenvolvida a técnica de micro oxigenação, que consiste na injeção de volumes microscópicos de oxigênio no vinho durante sua maturação, estimulando o “arredondamento” dos taninos, para que tenhamos um vinho mais macio já em sua juventude.
O grande destaque é a concentração de cor em sua casca e na polpa da fruta, justificando a intensa coloração violácea que caracteriza os vinhos elaborados com ela. Em relação ao tempo necessário para sua maturação, possui um ciclo médio, podendo adaptar-se a diversas regiões e ser colhida no ponto ideal de maturação.

Outra característica são os seus acentuados aromas, apresentando muitas frutas negras maduras, mas sempre com um toque que remete a couro ou especiarias, complementando o produto e aumentando sua complexidade. Quando estagia em barricas de carvalho, possui uma tendência voltada as notas de café, cacau, tabaco, entre outros aromas.
Tannat, rica em polifenóis e ótima para saúde
Essa é uma das variedades mais ricas em polifenóis — uma categoria de compostos bioativos encontrados em alguns vegetais. Eles apresentam importantes propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.
O resveratrol é mais importante polifenol encontrado nas cascas e nas sementes das uvas, principalmente das tintas. A substância reduz a ação dos radicais livres no organismo e impede a atividade de enzimas que podem prejudicar células saudáveis. Por isso, o vinho é uma bebida que faz muito bem para a saúde.
Para degustar um exemplar desta casta, sempre espere um vinho com boa estrutura e que muitas vezes pede um alimento mais gorduroso para acompanhar.
Diferenças entre as Tannat francesas e uruguaias
A região francesa onde a Tannat se originou é completamente diferente do Uruguai, o que resulta em características distintas nos vinhos.
Na França, graças ao clima mais frio, as uvas não desenvolvem tantas características frutadas, gerando vinhos muito adstringentes e secos. Por essa razão, muitas vezes são feitos blends com Cabernet Sauvignon ou Cabernet Franc, suavizando a bebida.
No Uruguai, o clima é temperado e com temperaturas mais baixas durante a noite. O motivo para isso é a influência dos rios Uruguai e da Prata, além do Oceano Atlântico.
Os taninos são mais macios e as nuances de frutas negras são mais abundantes. Os blends uruguaios também são comuns, para acrescentar características às bebidas. Geralmente, são feitos com Pinot Noir, Merlot ou Syrah.
No Brasil, a região da Campanha Gaúcha localiza-se a sudoeste do estado do Rio Grande do Sul e faz fronteira com o Uruguai. A combinação dos verões quentes com dias ensolarados, do solo sedimentar e do relevo em forma de coxilhas resulta em vinhos de grande complexidade e notável equilíbrio.
Os rótulos produzidos com a Tannat são conhecidos por sua cor intensa, com bordas violáceas. O vinho chega a ser tão escuro que, muitas vezes, não apresenta nenhuma translucidez.
Quando for apreciar um Tannat, espere por uma bebida intensa, com taninos bem presentes e graduação alcoólica um pouco acima do comum. O nível de acidez costuma ser equilibrado.
Os aromas e sabores mais comuns relacionados a esses vinhos são de frutas negras (groselhas e ameixas) e especiarias (canela e cardamomo). Também pode conter notas de chocolate amargo e fumaça.
Para a harmonização, um Tannat, que é um vinho robusto, pede pratos igualmente robustos ou seu sabor pode predominar sobre o do alimento.
Com carnes vermelhas, é possível escolher pratos com bastante intensidade de sabor e gordura, como hambúrgueres, picanha ou costela bovina, linguiça suína e carnes de caça. O preparo na churrasqueira pode melhorar ainda mais graças às notas defumadas, presentes tanto na bebida quanto na comida. Ou seja, é um vinho que vai muito bem com o churrasco do final de semana.

Pratos à base de defumados e miúdos suínos, como o cassoulet francês e a tradicional feijoada brasileira, também são uma ótima pedida para acompanhar uma taça de Tannat.
Tannat também permite uma ótima combinação com queijos.Neste caso, prefira os de pasta dura, como parmesão e pecorino, ou os de pasta mole azuis, como roquefort e gorgonzola.
Também pode ser harmonizado com chocolate amargo. O ideal é que o doce tenha pelo menos 60% de cacau ou o dulçor pode gerar uma sensação adstringente no paladar.
Agora que você sabe mais sobre a uva Tannat, experimente o vinho uruguaio já no próximo churrasco ou feijoada. Saúde!
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
Leia todas as colunas do Mundo do Vinho
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE


Uma resposta
Gratificante amigo Edmilson, ler assunto tão esclarecedor sobre vinhos e acompanhamentos para determinada ocasião. Abraço, Prof. Carlos