Algarve: tradição e renovação no sul de Portugal

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Por Edmilson Palermo Soares

O Algarve, situado no extremo sul de Portugal, encontra-se separado da planície alentejana por uma cadeia montanhosa quase ininterrupta que percorre a região desde a fronteira espanhola até à costa atlântica.

É uma região conhecida mundialmente por suas belas praias e clima ameno, mas também possui uma rica tradição na produção de vinhos. A história vinícola do Algarve remonta à Antiguidade, marcada por períodos de florescimento e declínio, até conquistar, nos últimos anos, uma posição de destaque no cenário vitivinícola português.

Algarve, além de ser uma região belíssima, que atrai muitos turistas, tem  tradição de produzir vinhos de excelente qualidade
Praia em Faro, no Algarve – Foto: Pexels

A viticultura no Algarve tem raízes que remontam ao período fenício e, posteriormente, à ocupação romana. Os romanos trouxeram técnicas avançadas de cultivo da vinha e produção de vinho, promovendo o consumo local e exportação para outras regiões do Império. Vestígios arqueológicos e documentos históricos comprovam que a produção de vinho já era uma atividade relevante na região há mais de dois mil anos.

Durante a Idade Média, a produção de vinho do Algarve sofreu com a ocupação mourisca (séculos VIII a XIII), pois o consumo de álcool era proibido pela religião islâmica. No entanto, a cultura da vinha não foi totalmente abandonada, permanecendo em algumas áreas e sendo retomada após a Reconquista Cristã. A partir daí, o vinho voltou a ganhar importância, tanto no consumo local como no comércio com outros territórios.

Entre os séculos XV e XVIII, com o florescimento das cidades costeiras e o aumento do comércio marítimo, os vinhos do Algarve começaram a ser valorizados novamente. A região exportava vinhos para Inglaterra, França e para as colônias portuguesas, aproveitando o intenso movimento dos portos da região.

No final do século XIX, a viticultura enfrentou graves desafios, como a filoxera (praga devastadora das vinhas), além das mudanças de hábitos de consumo e a concorrência de outras regiões. Muitas vinhas foram abandonadas, e a produção caiu drasticamente durante o século XX.

A partir das últimas décadas do século XX, houve uma revitalização do setor vinícola no Algarve. Novos produtores investiram em tecnologia, castas autóctones e internacionais, e métodos modernos de vinificação. Atualmente, o Algarve conta com quatro Denominações de Origem Controlada (DOC): Lagos, Portimão, Lagoa e Tavira, que garantem a qualidade e autenticidade dos vinhos locais.

O terroir de Algarve

O terroir da região é marcado pelo clima mediterrâneo, solos variados e influência do oceano Atlântico, confere características únicas aos seus vinhos. Os vinhos tintos são, em geral, encorpados e frutados, enquanto os brancos possuem frescor e aromas delicados.

Destacam-se castas como Negra Mole, Castelão e Syrah nos tintos, e Arinto, Malvasia Fina, Manteúdo e Síria nos brancos.

A Negra Mole é a casta emblemática do Algarve, sendo considerada a “casta principal” da região. Esta uva, de grande diversidade e antiga, pode dar origem a vinhos brancos, rosés e tintos. Os vinhos tintos feitos com Negra Mole tendem a ser mais leves e frutados, com notas florais e de frutos vermelhos, ideais para harmonizar com a gastronomia local.

Diversas quintas e produtores têm-se destacado na produção de vinhos de qualidade no Algarve. Entre eles, podemos mencionar:

  • Quinta do Francês: Conhecida pelos seus vinhos elegantes e bem estruturados.
Foto: Quinta do Francês
  • Morgado do Quintão: Destaca-se pela produção de vinhos com grande carácter e complexidade, incluindo opções em ânfora e de vinhas velhas.
  • Quinta dos Vales: Produtora do premiado “Dialog”.
  • Adega do Cantor: Outra referência na região.
  • Cabrita Wines: Com foco em projetos familiares e castas tradicionais.
  • Herdade Barranco do Vale: Apresenta vinhos com boa estrutura e potencial de guarda.

A história vinícola do Algarve é um testemunho de resiliência e renovação. Após séculos de desafios, a região soube reinventar-se e hoje oferece vinhos de alta qualidade, que refletem a tradição, o clima e a modernidade do sul de Portugal. O vinho do Algarve é, assim, mais um atrativo para quem deseja explorar as riquezas culturais e gastronômicas portuguesas.

Foto principal: Quinta dos Vales

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin

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