Por Ana Paula Barcellos
Inspirada por um post reflexivo da Carol Lardozza no Instagram (@carollardozza, recomendo muito!) me aprofundei no universo da moda como expressão e, mais profundamente, como espelho das nossas limitações sociais, principalmente em questão de roupas. A Carol, que fala sobre moda consciente, levanta um ponto intrigante: por vezes, nos deparamos com peças que amamos, mas hesitamos em usar, pensando “Onde eu usaria isso?” e, muitas vezes, na sequência, desistimos. E ela propõe olhar mais além para esse ato que parece tão simples, mas na verdade não é.
Um dos posts recentes da @carollardozza explora essa tensão entre desejo e contexto. Ela sugere que estar diante de uma loja, gostar de peças de roupas e ponderar seus usos reflete um dilema comum, mas ampliando o olhar sobre ele: moda também é direito à cidade. Há roupas que ficam guardadas no armário por acharmos que não temos lugar adequado para usá-las – sejam elas de “trabalho sério”, de balada ou de eventos “chiques” em salões de festa. E o cotidiano, esse espaço de vivência real, raramente entra nessa lista. Já reparou? No ônibus, no trem, na calçada, muitas roupas parecem “deslocadas”. Não por não caírem bem no corpo, mas porque a cidade nem sempre legitima ali o que vestimos.

Lembram da “Roupa que Fala”? Subverter os códigos de vestimenta – usar o que se quer, onde se quer – é privilégio de quem tem dinheiro. Dados do IBGE de 2023 apontam que 54% dos brasileiros vivem com até um salário mínimo, o que limita o acesso a peças versáteis ou de melhor qualidade. Para essa maioria, a moda é calculada, pensada, repensada. Vestir-se é um ato de cuidado, mas também de busca por uma ocasião perfeita, muitas vezes a quilômetros de distância, ou de um pertencimento que as roupas, sozinhas, não garante.

A moda, portanto, transcende estética. Ela carrega frustrações guardadas, como diz Carol Lardozza, e revela desigualdades. Algumas roupas ficam em caixinhas simbólicas: a de trabalho, a da balada, a do evento especial. O espaço do cotiano, com sua simplicidade, raramente é contemplado. Isso reflete uma sociedade que ainda hierarquiza o vestir, onde o que é “apropriado” depende de status e localização. Em cidades como o Rio, onde a cultura da rua é muito forte, essa dicotomia é ainda mais evidente. Estudos da FGV de 2024 indicam que 67% dos jovens cariocas sentem pressão para adequar o look ao ambiente, reforçando a ideia de que a cidade dita regras.

E se usássemos nossas roupas sem medo?
Por outro lado, há um movimento crescente de resistência. Influenciadores e artistas locais, como a própria Carol Lardozza, provocam: e se usássemos as roupas que gostamos sem medo? A roupa de festa no mercado, o vestido chique no ônibus. Essa subversão não é apenas estilística; é política. Ela desafia a lógica de consumo que nos faz guardar peças por anos, esperando o momento “certo”. Para quem pode, é libertador. Para quem não pode, é um lembrete de que a moda, como direito, ainda é desigual.
A liberdade de vestir ainda é um luxo. Quem tem recursos financeiros ignora códigos, transforma a rua em passarela. Já para os 46% que, segundo o Datafolha de 2023, enfrentam dificuldade para comprar roupas novas, cada escolha é estratégica. A cidade, então, torna-se um palco de validação ou exclusão. Talvez você também já tenha se perguntado “Pra onde vou com essa roupa?”, mas não tenha pensado sobre todas as camadas que essa pergunta carrega em si. Pois que tal começarmos a legitimar nossas escolhas – e nossas roupas -, dia após dia, sem caixinhas? A moda pode ser, afinal, um ato de pertencimento – não apenas às ocasiões, mas a nós mesmos.
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
Leia todas as colunas Em Alta
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE
