A roupa que fala

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Por Ana Paula Barcellos

A moda é mais do que tecido, corte e costura; é uma linguagem universal que fala de quem somos, de onde viemos e o que queremos dizer. Cada peça que vestimos carrega camadas de significado, comunicando nossa cultura, o pulso da sociedade e o momento histórico e político em que estamos inseridos.

Das saias rodadas dos anos 1950, que incentivavam a feminilidade no pós-guerra, aos ternos desconstruídos e peças genderless de hoje, que desafiam normas de gênero, a roupa é um espelho do tempo. No Brasil, o uso de estampas tropicais costumam celebrar nossa identidade “extrovertida”, “de boa”, enquanto o terno impecável de um político em campanha grita “confiança” — ou, às vezes, encobre intenções. A moda não apenas reflete, mas molda narrativas.

Mais do que isso, a roupa pode ser uma arma. Escolhida com propósito, ela protesta, persuade ou manipula. Pense nos coletes amarelos na França, que transformaram uma peça utilitária em símbolo de revolta contra desigualdades. Ou nas camisetas com slogans, que divulgam ideologias. A roupa também é usada para enganar ou conquistar.

Criminosos em julgamentos, por exemplo, trocam o estereótipo de “vilão” por óculos de armação fina e suéteres ou moletons discretos, buscando despertar empatia no júri ou na opinião pública. Um visual cuidadosamente “inofensivo” durante um depoimento pode ser tão estratégico quanto qualquer argumento de defesa. Políticos, por sua vez, podem vestir jeans e camiseta em comícios para parecerem “do povo”, enquanto a mesma figura em um terno Armani em outro contexto reforça sua aura de poder.

O que a roupa diz?

Essa dualidade da roupa como ferramenta de comunicação fica evidente na frase: “Quem tem dinheiro usa roupa formal em ambientes informais e roupas informais em eventos formais”. Essa prática é um código de poder, uma forma de dizer “estou acima das regras”. Quando um bilionário como Elon Musk aparece de camiseta e tênis em uma reunião de negócios, ele não está sendo descuidado — está afirmando que não precisa se provar.

Foto: X Elon Musk

O mesmo vale para alguém que usa um smoking impecável em um churrasco de domingo: é uma exibição de status, uma ruptura deliberada com as expectativas. Essa liberdade é, em si, um privilégio. Quem se esforça para usar look com “cara de rica” é justamente quem precisa “parecer alguém”. E enquanto a maioria se preocupa em “se encaixar” no dress code, os poderosos usam a roupa para mostrar que o código não se aplica a eles.

A roupa fala e é um reflexo de si quanto uma arma. Ela carrega o peso da história e o calor dos debates contemporâneos. Ela pode ser um escudo ou uma bandeira, como o arco-íris. E você, o que está dizendo com a sua roupa hoje?
Quem precisa de look com cara de rica? Foto: Look Chic

A roupa que fala, portanto, é tanto um reflexo quanto uma arma. Ela carrega o peso da história — das túnicas da Roma Antiga aos uniformes militares que inspiram coleções atuais — e o calor dos debates contemporâneos. Ela pode ser um escudo, como o tailleur de uma executiva que entra em uma sala de reuniões dominada por homens, ou uma bandeira, como o arco-íris nas roupas de quem marcha pela diversidade. No fim, cada escolha de vestimenta é uma frase em um discurso maior, a roupa está sempre falando algo. E você, o que está dizendo com a sua roupa hoje?

Foto principal: Freepik

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram Me siga no Instagram @experienciasdecabide @yopaulab

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