Coração de Lutador – The Smashing Machine: longe das biopics celebratórias

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Por Marcelo Minka

Coração de Lutador – The Smashing Machine, é uma cinebiografia ambiciosa que tenta pôr sob os holofotes o homem por trás do mito do MMA, Mark Kerr.

A escolha do subtítulo Coração de Lutador para o lançamento no Brasil não é mera tradução: o filme busca disputar espaço entre épico esportivo e estudo de personagem. Dirigido, roteirizado, coproduzido e editado por Benny Safdie (Jóias Brutas – 2019), o longa é fortemente inspirado no documentário homônimo de 2002 dirigido por John Hyams — referência que permeia toda a narrativa, convicta em seu tom quase etnográfico.

Dwayne “The Rock” Johnson (Adão Negro – 2022) encarna Kerr com uma transformação que chama atenção desde o primeiro frame de Coração de Lutador: não apenas pela musculatura acrescida, mas pelo uso deliberado de próteses, maquiagem pesada e maneirismos contidos que tentam dissimular seu carisma habitual e revelar uma figura à beira da fissura interna. A intenção de Safdie, já conhecida no coletivo cinematográfico por filmes que mergulham no colapso psicológico, é evidente: evitar o patriotismo vazio, recusar a fórmula do biopic celebratório (aquele tipo de cinebiografia que objetiva exaltar ou glorificar a figura retratada) em favor de gestos visuais contidos e uma atmosfera de observar, mais que glorificar.

The Rock chama a atenção desde o primeiro frame de Coração de Lutador, um filme que foge das biopics celebratórias
Fotos: Divulgação

Coração de Lutar: da consagração ao declínio

A narrativa percorre os anos 1997 a 2000, da consagração nas lutas de MMA e nos torneios japoneses do Pride até o declínio emocional marcado pelo vício em analgésicos, pelos erros íntimos e pela tensão entre ambição e fragilidade humana. Emily Blunt (Oppenheimer – 2023) interpreta Dawn Staples, parceira amorosa e coadjuvante no drama interno de Kerr, trazendo uma vulnerabilidade que contrasta com o implacável mundo do ringue. Ryan Bader (The Ultimate Fighter – 2008) assume o papel de Mark Coleman, amigo e rival, conferindo peso à tensão entre lealdade e competição.

No entanto, apesar das escolhas visuais e da ambição autoral, Coração de Lutador não escapa de deslizes. O filme tende a recuar quando poderia mergulhar mais fundo nos abismos do vício e dos conflitos íntimos. Embora o filme pareça prenhe de escuridão e angústia, ele acaba sendo convencional em seu mergulho na dor íntima. Outro escorregão é que, no decorrer da trama, o filme resvala para o previsível.

Coração de Lutador é um convite à reflexão sobre os preços invisíveis da glória. Até que ponto um ídolo resiste ao tempo e à própria dor?

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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