Do Batuque na Caixa para a vida: três ex-alunos que descobriram uma vida no projeto

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Conheça a história de três profissionais reconhecidos que descobriram seu caminho e carreira pela arte-educação

O LONDRINE̅NSE com assessoria

Eles chegaram no projeto Batuque na Caixa ainda crianças ou adolescentes, quando o projeto dava seus primeiros passos, em Londrina, no final da década de 1990. Aprenderam música, percussão, teatro, poesia e, principalmente, descobriram possibilidades de vida que nunca haviam sonhado, pois era “coisa de rico”. Quase três décadas depois, três ex-alunos do projeto continuam ligados ao Batuque na Caixa. Dois deles como instrutor de percussão e professor de teatro. Um, como profissional que se dedicou à música e fez sua tese de doutorado baseada no projeto. Três pessoas que fizeram da arte uma parte importante de suas vidas.

As histórias e Luiz Carlos dos Santos Júnior, o Luizinho, Valdir Rodrigues e Tiago Mayer mostram um das marcas mais importantes do Batuque na Caixa: a capacidade formar não apenas artistas, mas pessoas que encontram na arte um caminho para ampliar seus horizontes.

“Sou filho do Batuque”

Luizinho, hoje com 40 anos, fez parte de uma das primeiras turmas do projeto, em 1999, quando tinha apenas 13 anos. Ele fazia um curso de marcenaria na Escola Profissional e Social do Menor de Londrina (Epesmel) e se interessou pela fanfarra que estava sendo formada. Foi ali que encontrou o Batuque na Caixa. Sua infância e adolescência não forma fáceis, marcadas por problemas familiares depois da separação dos pais, ele vivia praticamente nas ruas, numa região que, na época, era muito perigosa.  “Eu morava no Farid Libos, que ficava depois do Novo Amparo. Para ir a Epesmel, tinha que passar pelo meio dele, que era dominado pelo tráfico. Havia uma guerra entre os dois bairros, que na verdade, eram favelas.  A gente tinha que pedir autorização para passar”, lembra.

Para Luizinho, foi o Batuque que o ajudou a construir outro caminho para si mesmo, longe da marginalidade. No projeto, fez cursos de percussão, integração musical, manutenção de instrumentos e especialização para cuidar de adolescentes, entre outros. Foram várias formações. Começou como aluno – participou, inclusive, da apresentação com o Olodum, em Salvador, em 2001-  passou a auxiliar do professor e, por volta de 2005, assumiu as aulas. Hoje, são cerca de 21 anos como instrutor de percussão no Batuque.

“Eu costumo dizer que sou filho do projeto porque foi pelo projeto que eu conheci a fazer o caminho certo, a trabalhar, a ver como funciona a música. Foi o projeto que me tirou da rua, porque a minha família era bem complicada”, diz.

Luizinho e sua turma de percussão – Foto: Acervo pessoal

A relação com o projeto também ultrapassou as oficinas. Luizinho continua ligado à música, participa de atividade do Festival Internacional de Música de Londrina e, em 2024, recebeu um prêmio da Fundação Palmares. Entre 400 participantes, ficou em terceiro lugar e foi receber o prêmio em Brasília, para contar sua história e trajetória construída a partir do Batuque.

Mas talvez o reconhecimento mais importante, para ele, esteja nas histórias dos alunos que passaram por suas mãos. “A gente acaba encontrando ex-alunos e eles sempre me falam: ‘Nossa, professor, obrigado, se não fosse o que a gente aprendia lá, estaria tudo mais complicado. Hoje, tenho uma vida tranquila, trabalho, estou com minha família’. Então, da mesma forma que foi feito na minha vida, o projeto faz na vida de todos que passam por ele”, diz.

De aluno a professor e dramaturgo

A história de Valdir Rodrigues, 48 anos, também começou praticamente jundo com o Batuque. Ele participou da primeira edição, quando o Instituto Artes Brasil era apenas uma ONG. Ele tinha 20 anos e começou fazendo cursos de literatura e percussão. O teatro, que já fazia parte da sua vida, ajudou-o a se tornar professor do projeto. “O Aldo Moraes (idealizador do Batuque e presidente do Instituto Artes Brasil) quis aproveitar meu conhecimento e o Batuque passou oferecer também oficinas de Teatro e, depois, por muito tempo, também fui professor nas oficinas de Literatura e Poesia”, conta. E, segundo ele, isso representa quem ele se tornou hoje.

A partir do Batuque na Caixa, Valdir desenvolveu sua carreira como ator, diretor, dramaturgo e professor. Escreveu 22 peças de teatro, algumas apresentadas no Brasil e no exterior. Também viveu uma experiência profissional em Portugal, onde trabalhou como ator e dramaturgo, além de participar de festivais e atividades voltadas à arte brasileira.  Ele faz questão, porém, atribuir parte fundamental dessa trajetória ao projeto.

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Valdir e sua turma de teatro – Foto: Divulgação

“Se não fosse o Aldo ter me dado a oportunidade de trabalhar com o teatro no projeto, eu não seria quem eu sou hoje. Toda a minha sensibilidade artística, toda a minha sensibilidade como ser humano, a forma como eu vejo o mundo e, principalmente, a oportunidade de estar fazendo aquilo que eu gosto. Porque o projeto Batuque na Caixa, foi uma oportunidade para que eu pudesse viver da cultura, do teatro”, afirma. 

Para ele, o projeto não ofereceu apenas formação artística. O contato cotidiano com crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade também o levou a desenvolver uma maneira própria de trabalhar o teatro como instrumento de desenvolvimento humano, autoestima, autoconfiança e expressão de sentimentos. “Nós tivemos uma experiência num colégio, certa vez, que foi muito positiva. À época saiu reportagens sobre isso, porque todo os alunos que faziam parte das aulas de teatro e poesia, pelo projeto, melhoraram as notas na escola e o comportamento, tanto na escola quanto em casa”, conta.

Ao longo dos anos, Valdir também encontrou ex-alunos e a maioria fez faculdade, conseguiram bons empregos e constituíram suas famílias. “Muitos me procuram para dizer como o projeto mudou suas vidas”, afirma.

O aluno que virou pesquisador do próprio projeto

A trajetória de Tiago Mayer, 41 anos, talvez seja a que mais simboliza a dimensão que uma experiência iniciada ainda na adolescência pode alcançar.

Antes de conhecer o Batuque na Caixa, ele já tinha contato com o violão. Começou a aprender por volta dos 9 anos, observando a irmã que fazia aulas. Mas tocava sozinho. A entrada no Batuque, aos 14 anos, mudou essa relação com a música.

Fazendo aulas de informática na Epesmel, Tiago conheceu o Batuque quando oficineiros do projeto foram lá, convidar quem quisesse participar, mesmo não sabendo tocar nenhum instrumento. Ele se interessou e pensou em aperfeiçoar sua música.  “O Batuque me abriu a possibilidade de fazer parte de um grupo, apresentar-me com e para outras pessoas, e perceber que poderia fazer da música uma possibilidade profissional. O Batuque me abriu essa janela para a arte e para o mundo”, afirma.

Segundo ele, o trabalho ampliou suas percepções e o abriu para novas possibilidades de seguir a música profissionalmente. “Se eu não tivesse aceitado o convite para participar da oficina, eu não teria seguido com a música. Foi pelo Batuque que decidi fazer a faculdade de música”, conta.

De aluno a doutor: Tiago Mayer foi um dos primeiros participantes do Batuque da Caixa – Foto: Divulgação

 Ele nunca esquece a apresentação que o grupo de alunos fez com o Olodum, em Salvador. “Foi uma das coisas mais fantásticas da minha vida. Ali eu vi o que queria fazer. Eu não estava só tocando o meu violão. Eu estava contribuindo para um grupo que se apresentava”, explica.

Voltou ao Batuque como professor e, depois, foi fazer mestrado e doutorado. Hoje é coordenador pedagógico da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Nesse tempo todo, o projeto o amparou.

E foi justamente no doutorado que Tiago voltou ao lugar onde havia começado: escolheu o projeto Batuque na Caixa como objeto de pesquisa.

A tese dele buscou sistematizar e divulgar academicamente a experiência educacional do projeto e sua metodologia de educação pela arte. E a experiência do pertencimento é um dos aspectos que ele considera fundamentais no projeto, que “cria raízes”. “Essa vivência permite que crianças e adolescentes da periferia se percebam como sujeitos capazes de criar, produzir arte e serem reconhecidos pelo que fazem”, explica.

Para os alunos do Batuque, meninas e meninos da periferia, a maioria em situação de vulnerabilidade, com pouco acesso a bens simbólicos, isso é, segundo ele, transformador. “É o que começa a mudar o jogo, onde descobrem que que querem saber mais, querem caminhar mais. Isso é a educação para a arte e pela arte porque aprende pela música, teatro e outras artes integradas, que permite o acesso à educação e ao mundo”, afirma.

Hoje, Tiago está pensando em transformar a tese em livro, para que mais pessoas tenham oportunidade de conhecer a experiência do Batuque e sua metodologia humanizada.

Formação que continua

As histórias de Luizinho, Valdir e Tiago são diferentes, mas têm uma característica em comum: nenhum dos três ficou apenas com aquilo que aprendeu como aluno das oficinas do Batuque na Caixa. Todos levaram a experiência para a vida profissional e, de maneira diferentes, retornaram ao projeto para ensinar novas gerações.

Sobre o Batuque na Caixa

O projeto Batuque na Caixa teve sua primeira edição em 1999, em Londrina (PR), inicialmente voltado à percussão e desenvolvido em parceria com instituições que atendiam crianças e adolescentes. Criado e conduzido até hoje pelo escritor, músico e compositor Aldo Moraes, o projeto foi ampliando suas linguagens e passou a trabalhar com música, teatro, poesia, literatura, dança, culinária, artes visuais e outras expressões artísticas. Mais que ensinar artes, a proposta sempre buscou utilizá-la como instrumento de educação, formação, autoestima e cidadania.  

O Instituto Artes Brasil, realizador do projeto, surgiu para levar o projeto para as regiões periféricas e dar oportunidades de acesso à cultura de para comunidades em situações de vulnerabilidade. Ao longo de 27 anos e 25 edições, o Batuque na Caixa chegou a 12 cidades em seis estados brasileiros e atende 2.700 crianças e adolescentes e comunidades rurais, indígenas, quilombolas, de pescadores e marisqueiras.  

ASSINATURA: A 25ª. edição do Projeto Batuque na Caixa é uma promoção do Instituto Cultural Arte Brasil com realização do Ministério da Cultura através da Lei Nacional de Incentivo à Cultura. Patrocinio: J Macedo

Parcerias: Instituto Conhecimento Liberta, Sesc Cadeião Cultural, Instituto GRPCom, Lupa do Bem, Sindicato Bancários de Curitiba, Revista D’arte, Podcast podechefe, Empresa Empoderamente e Syngara Cultural.

Foto principal: Uma das primeiras turmas de música do Batuque na Caixa, com a participação de Tiago Mayer – Foto: Acervo pessoal de Tiago Mayer

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