Por Ana Paula Barcellos
O documentário Victoria Beckham, lançado pela Netflix na última quarta-feira (9), é mais do que um mergulho na vida de uma ex-Spice Girl – é um registro sobre como as mulheres ainda precisam lutar muito para se impor no mundo da moda – e no mundo, mesmo. Assisti os três episódios em uma sentada (vantagens do meu trabalho). Como fã das Spice Girls na adolescência, acompanhei a transformação da Posh Spice em uma designer de peso. E o documentário Victoria Beckham mostra, com bastante honestidade, como essa jornada não foi apenas um capricho de celebridade, mas fruto de uma trajetória construída com trabalho e em meio a vários percalços.
No doc, Victoria Beckham conta como a influência da mãe, Jackie, moldou seu olhar afiado para o estilo. Desde menina, ela absorvia o glamour das revistas de moda e os armários cheios de peças elegantes da família. Esse movimento, que resultou em seu trabalho como designer, não foi algo aleatório: a Posh, inclusive, já desfilava para grifes como Maria Grachvogel em 2000, na London Fashion Week, e posava para campanhas de Marc Jacobs.

Frequentava desfiles, entendia tecidos, caimentos e silhuetas – mas, ao lançar sua marca em 2008, com a primeira coleção ready-to-wear no New York Fashion Week, foi tratada como uma “pirralha mimada” sem credenciais. O sexismo da indústria também pesou muito: mulher adulta, bem-sucedida, ainda era reduzida a estereótipos por usar shorts curtos e saltos altos em eventos. Me fez lembrar da Clara Averbuck, escritora brasileira, pioneira dos blogs e referência absoluta no seu estilo e na internet, que via seus argumentos desvalorizados só por aparecer de short e saltão em mesas redondas ou postar vídeos de pole dance. É a mesma mecânica patriarcal: a sociedade, comandada por homens que detêm o poder, não tolera mulheres competentes, seguras e donas do próprio corpo.

Victoria expõe seus traumas
O impacto foi devastador, e o documentário deixa isso bastante evidente. Victoria confessa que desenvolveu um transtorno alimentar grave, uma relação tóxica com a comida que perdura até hoje – “Eu era boa em mentir sobre isso”, diz ela. As críticas a deixaram adoecida, insegura, exatamente como o establishment queria: uma mulher “no lugar dela”. Mas Victoria, ainda bem, resistiu. Em vez de recuar, driblou a inexperiência inicial, os erros de novata e até dívidas que quase afundaram sua marca. Lançou linhas de jeans e óculos em 2007, expandiu para acessórios e prêt-à-porter, e hoje sua grife é um império avaliado em milhões, com desfiles em Paris que ditam tendências minimalistas e sofisticadas.

O clímax do documentário Victoria Beckham? A aparição de Anna Wintour, a rainha da Vogue, admitindo que subestimou Victoria no início, mas agora reverencia a “qualidade impecável” de seu trabalho. Não é para qualquer um conquistar o aval de Wintour!
Aos 51 anos, Victoria segue evoluindo: de Posh Spice em 1994, com seus looks icônicos de terninhos e saltos que inspiraram toda uma geração, que vendeu mais de 85 milhões de discos com as Spice e reinventou-se pós-casamento com David Beckham em 1999, e alcançando o status de designer de sucesso. No episódio final, ela e David conversam sobre o futuro: ele pergunta por que Victoria não se contenta com o que já conquistou, e ela responde, firme: “Quero mais”.
E vai conseguir – seu trabalho é bom, consistente, elegante, com foco em cortes precisos e tecidos nobres que transcendem modismos. Uma grife que se valoriza ano após anos, sem fazer alarde, fazendo o básico bem feito. A Posh Spice garantiu seu lugar ao sol!
Onde assistir o documentário Victoria Beckham? Disponível exclusivamente na Netflix, com três episódios de cerca de 45 minutos cada. Dirigido por Gurinder Chadha (de “Noiva em Fuga”), o doc acompanha os bastidores da preparação para a Paris Fashion Week de 2025, com depoimentos de família, amigos e ícones como Eva Longoria, Marc Jacobs e Anna Wintour.
Foto principal: print do trailer/Netflix
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
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Respostas de 3
Fico pensando que uma das maiores lutas dela, apesar das spices, foi não ser conhecida” apenas”, como a mulher do jogador David Beckham! Porque nesse mundo machista, jamais seria suficiente toda uma época que ela e as outras artistas marcaram… E ela querer mais , super apoiado! O triste é sempre mulheres tendo que ser validadas apesar de tudo!
Haha, que review top! Mas eita, Ana Paula, essa Victoria já tá no jaleco, né? Pode até estar bom, consistente e elegante, mas acho que a menina precisa aprender a fazer um básico bem feito na hora do Quero mais, pra não ter que chutar a bunda de Anna Wintour pra depois ficar de pé. E sobre o sexismo? Que tal umas sapatilhas na próxima, Posh? Pode até ser elegante, quem sabe?
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