Meu filho não é gay, é só uma “fase”

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Por Telma Elorza

“Oi, preciso de uns conselhos. Descobri que meu filho de 15 anos está ‘namorando’ escondido um rapaz de 18 anos. Isso me deixou chocada porque não acredito que ele é gay. Acho que é só uma fase, que ainda está descobrindo sua sexualidade e tenho medo que esse ‘namoro’ prejudique sua vida futura. Por enquanto, ninguém sabe do ‘namoro’, mas assim que mais gente for sabendo, ele terá uma vida difícil e será sempre marcado por esse deslize. Como faço para ajudá-lo a ver que esse caminho não é bom pra ele, sem brigar, de um jeito que ele entenda minha preocupação?”

Ai, amiga. Que situação a sua, né? Analisei toda a situação que você descreveu e queria dar algumas ideias para você pensar. É um papo de coração, de mãe para mãe, mas também baseado no que a ciência mostra. Leia com a mente aberta, porque realmente quero ajudar você a se conectar com seu filho, de um jeito que ele se sinta acolhido, não julgado.

Primeiro de tudo: é super normal se sentir confusa, preocupada com o futuro de um filho, quando recebe uma notícia dessas: o filho criado com tanto carinho namorando um homem. Pode chocar e a vontade é querer proteger. Mas há uma diferença enorme entre amar/se preocupar e negar o fato dele ser gay, impor medos baseados em preconceito. O que mais vai prejudicar seu filho é a homofobia, não o namoro com um homem nem a orientação sexual dele.

Segundo e talvez o mais importe: ser gay não é algo que a gente escolhe. Há muito tempo, pesquisas científicas mostram que a orientação sexual é parte de quem a pessoa é, não uma “fase” que passa com o tempo. Ou seja, a pessoa já nasce gay e não é “convertido” a ser/deixar de ser gay. Ninguém tem esse poder. Colocar como “fase” pode gerar confusão, culpa e vergonha no seu filho. Especialmente se ele já sente que está fazendo “algo errado”, ao esconder o namoro.

Por isso é preciso acolhê-lo, escutá-lo, compreendê-lo e não julga-lo, muito menos impor uma convicção que homossexualidade é errado. Há estudos brasileiros que mostram que adolescentes que se assumem gay ou que se descobrem sob orientação LGBTQIA+, sofrem mais com violência verbal, psicológica, discriminação. Isso prejudica autoestima, qualidade de vida, alimentação, sono, e em casos graves, leva à depressão ou ideação suicida. Pode ler um artigo aqui. A homofobia internalizada (quando a pessoa passa a acreditar no preconceito ao seu redor) pode causar danos profundos na saúde mental do adolescente. Leia esse artigo da Revista Contemporânea, para você ter uma ideia.

Alguns conselhos práticos pra você

Você pode, sim, ajudar seu filho, de uma forma que ele se sinta acolhido. Por isso vou passar algumas dicas que podem ajudar nesse momento

Ouvir mais do que falar: Antes de tentar convencê-lo de algo, escute o que ele sente, o que ele vive, quais são os medos dele. Pergunte: “Como você se sente com isso?”, “Você quer me contar mais?”, “Há algo que o preocupa nesse relacionamento?” Ouvir abre portas, brigar fecha.

Demonstrar amor incondicional: Ele precisa saber que você está do lado dele, que ele não vai perder seu apoio por ser gay. Dizer “eu te amo, seja lá quem você for” importa muito. Esse apoio diminui muito os efeitos da discriminação.

Educar-se sobre sexualidade e orientação sexual: Busque fontes confiáveis, converse com especialistas, leia livros (deixo alguns de exemplo, mais abaixo, com links para aquisição): entender tudo o que ele está passando dá segurança para você também. Principalmente, o conhecimento de que não há “cura gay”, que não é algo errado nem moralmente condenável.

Falar sobre futuro sem julgar: Se quiser falar sobre consequências (sociais, emocionais, de segurança), pode sim, mas sem insinuar que ser gay é algo ruim. Por exemplo, conversar sobre possíveis dificuldades que ele pode enfrentar por causa dos outros e, principalmente, como lidar com isso. Ensinar resiliência, apoio, autoconfiança.

Cuidado legal / idade de consentimento: Como ele tem 15 anos e o outro tem 18, merece atenção: no Brasil, a idade de consentimento sexual é 14 anos. Mas há muitas variáveis e um relacionamento entre menor e maior pode ter implicações legais ou éticas, dependendo do que acontece, da maturidade, da coerção, do abuso de poder. Vale observar isso, sim, mas esse ponto não justifica preconceito apenas por ser um relacionamento gay.

Buscar apoio externo: Procurar psicólogos ou grupos de pais que passaram por situações semelhantes pode ajudar. Não precisa enfrentar isso sozinha. Conversar com outros que entendem pode trazer perspectiva. Sugiro que conheça o site Mães pela Diversidade. Com certeza, vai esclarecer muitas coisas para você.

Evitar impor crenças baseadas no medo ou no que “os outros vão pensar”: O medo do “e se” muitas vezes faz a gente agir por pressão social, por vergonha, por estigma. Mas isso, justamente, pode criar distância entre você e o filho. Ele vai se retrair, esconder, mentir, sentir culpa por ser quem é. O melhor é deixar “os outros” para lá e cuidar de manter um relacionamento saudável e acolhedor com seu filho.

O problema não é relacionamento gay

Eu acho que esse relacionamento gay em si não é o problema. O problema é o que pode vir dele, se vocês dois, mãe e filho, não tiverem uma relação de confiança, se ele sentir culpa ou vergonha, se você rejeitá-lo ou deixar que a sociedade o reprima por ser quem ele é. O que vai marcar pra sempre não é a orientação sexual, é como ele foi tratado pela mãe (de quem ele mais quer aceitação/entendimento) e pela família. Apoio familiar faz toda diferença numa sociedade onde a homofobia ainda se faz presente.

Então, meu conselho é: busque amar mais que julgar, acolher mais que impor. É difícil, traz dor, insegurança, mas cultivar esse espaço de diálogo, respeito e apoio é o que provavelmente vai fazer diferença na vida dele e na sua também.

Com já disse, você pode entender melhor tudo o que você e seu filho estão sentindo, ao se informar. Por isso deixo aqui algumas sugestões de livros para você ler. É só clicar no título que será direcionada para o site de vendas, ok? Por favor, por favor MESMO, pelo bem do seu filho e da sua relação com ele, leia.

Socorro, meu filho(a) é LGBTQI+! — Joan Pont Galmés. É um guia focado para pais que estão com dúvidas, confusos ou com medo, explicando orientações sexuais e identidade de gênero, adolescência, saúde mental. Serve muito pra quem quer acolher e entender sem julgamento.

Mães Fora do Armário – Aceitação e Apoio às Famílias LGBTQIA+ — várias autoras (Adriana Valadares Sampaio, Dirce Meire, Eveny Teixeira, Angela Moysés). São relatos de mães/pais sobre como foi descobrir, aceitar, conviver, amar filhos LGBTQIA+. Histórias que ajudam muito pelo impacto emocional, ao ver como outras pessoas passaram por isso.

Orientação Sexual — Ênio Brito Pinto. Este livro discute orientação sexual a partir de trabalhos escolares, relatos, atividades de educação sexual, gente que trabalha com isso. É útil pra entender além da visão de “este ou aquele modelo”, ao ver as nuances, os medos, os valores, as pressões.

Sexualidade para Adolescentes — Flávia Mazoni & Aluciália Braga. Uma caixinha de cartas/perguntas para adolescentes expressarem seus sentimentos, dúvidas, valores, abrir diálogo. Ótimo pra usar em momentos de conversa, pra criar um espaço mais confortável de comunicação.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora quer conselhos sobre como fazer o filho entender que não é gay, mesmo ele estando em um namoro com um homem
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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