Por Ana Paula Barcellos
Três décadas após lançarem Wannabe — hit que revolucionou os a segunda metade dos 1990 e preparou o cenário pop para o que viria nos 2000 —, as Spice Girls estão novamente nos holofotes. Rumores de uma reunião em comemoração aos 30 anos da canção reacenderam a chama da nostalgia em uma geração que cresceu cantando sobre “amigas antes de namorados”. Em um mundo ainda carente de ícones pop que unam diversão e empoderamento, a possível volta do quinteto não é apenas um evento musical: é um reencontro com as raízes de um fenômeno cultural que, pode-se dizer sem medo de exagero, ajudou a repensar, na época, alguns conceitos como feminilidade, moda e autoestima.

Para quem tinha entre 10 e 20 anos nos idos de 1996 (eu tinha 12), as Spice Girls não eram apenas uma girl band — eram um alívio diante da carência de referências mais diversas. Em meio a discos coloridos e coreografias irreverentes, elas trouxeram o debate sobre individualidade. Hoje, adultos entre 30 e 40 anos inundam as redes sociais com memes de looks icônicos e trechos de entrevistas, enquanto aguardam ansiosos por um anúncio oficial. “Elas me fizeram acreditar que ser diferente era meu superpoder”, comentou Carla Torres, 38, fã desde os 12, em um grupo de discussão no Facebook com milhares de membros.
O burburinho ganhou força após Melanie Brown (Scary Spice) soltar um misterioso “algo está por vir” em seu Instagram, seguido por Victoria Beckham (Posh) postar uma foto dos anos 1990 com a legenda “1996 vibes”. A especulação é suficiente para alimentar a esperança de um tour ou single comemorativo, algo que as próprias Spice Girls já fizeram questão de manter no ar.
Moda como manifesto: cada Spice Girl era um universo

Antes das influencers e da era da “personalidade”, as Spice Girls já eram mestras em usar a moda como extensão da personalidade. Cada integrante encarnava um arquétipo que dialogava com diferentes tribos: a Sporty (Melanie C) com seus agasalhos largos e tênis, desafiando estereótipos de feminilidade; a Ginger (Geri Halliwell) com seu vestido da Union Jack, um símbolo de irreverência patriótica; a Scary e seu visual ousado, misturando látex e dreadlocks; a Baby (Emma Bunton), princesa do glitter e das minissaias; e a Posh, fashionista, com seus vestidos grifados justos e ar blasé, antecipando a estética chic que mais tarde definiria Victoria Beckham como designer.
Essa diversidade visual não era acidental — era um convite para que as fãs se identificassem com alguma daquelas mulheres. “Na escola, todo grupo de amigas tinha uma Sporty, uma Baby… Era como se elas nos dissessem: ‘Você pode ser quem quiser, desde que seja autêntica’”, reflete a estilista Marina Silva, 34, que credita às Spice Girls sua paixão por moda inclusiva. Plataformas, crop tops, trench coats — peças que voltaram com força nas últimas décadas — são até hoje chamadas de “o efeito Spice” por entusiastas.
“Girl Power”
O “Girl Power” das Spice Girls foi um dos primeiros movimentos pop a massificar discussões sobre sororidade e autoaceitação. Enquanto a indústria musical dos anos 1990 privilegiava corpos padronizados, elas celebravam diferenças: Ginger com suas curvas, Sporty com músculos, Baby com sua baixa estatura.
Suas letras, cheias de frases de efeito como “If you wanna be my lover, you gotta get with my friends”, colocavam a amizade feminina acima de relacionamentos românticos — algo radical para a época. Em entrevistas, eram frequentes as defesas de igualdade salarial e direitos LGBTQIA+.
Se confirmado, o retorno das Spice não será apenas uma viagem ao passado, com certeza influenciará modismos e impactará tendências, o que pode ser muito positivo. Num contexto onde discussões estão tão polarizadas, as Spice Girls oferecem um contraponto lúdico e de efeito “suavizador”.
Elas também provam para o mercado que diversidade e autenticidade são marcas que se sustentam, podem e devem permanecer.
Foto principal: Divulgação
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
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