O rapaz impecável e feliz da Rua Mato Grosso

novo-semaforo-rua-Mato-Grosso-CMTU-2

Por Ana Paula Barcellos

As manhãs por aqui costumam começar bastante tranquilas, mas ontem o tempo tropeçou e quase deu um nó na gente. Foi só depois de sentar no carro de aplicativo e o motorista arrancar que me senti aliviada. Cheguei a dar uma desligada, uma viajada enquanto olhava o movimento agitado das 7h45 no Centro. E foi ali, na aproximação da rua Mato Grosso, que ele surgiu: o rapaz impecável.

Não era nem um modelo saído de revista, era um tipo comum, daqueles que a gente costuma cruzar na calçada sem notar. O que me pegou? Talvez o sorriso sereno, tão sereno, que ele levava. Talvez fossem as roupas que ele vestia. Uma camiseta branca que desafiava a lei da entropia urbana: branca de um branco cegante, imaculada, sem uma ruga que fosse. Lisíssima, como se tivesse sido passada por um exército de fadas madrugadoras. E os jeans? Impecáveis, novinhos, ajustados na medida certa – skinny, com aquela sobra na canela dobrada em sanfona meticulosa.

O rapaz esperava o sinal fechar, distraído, coçando uma canela com o pé oposto, os tênis limpos e perfeitos, depois invertendo o gesto, num movimento humano que só realçava sua perfeição casual. No ombro direito, uma mochila pendurada por uma única alça, também sem mácula, como se nada no mundo pudesse sujá-la. A outra mão no bolso, o olhar perdido em algum horizonte particular. Feliz? Sereno? Leve como quem sabe que o dia vai dar certo, sem pressa para provar.

O rapaz, na esquina da Mato Grosso, chamou minha atenção. Roupas impecáveis e olhar em paz. O que será que ele come?
Foto: Imagem gerada por IA/Grok

Rapaz em paz

O carro parado no sinal, eu não conseguia parar de olhar. Será que tem uma fada madrinha que cuida de tudo? Ou o rapaz acorda às 5h15, planeja o outfit no dia anterior, lava a camiseta com percarbonato e água quente para manter aquele branco nuclear? E a leveza, de onde vem? Estaria indo para o trabalho, para a faculdade? Olhos em paz, tão em paz, quase me fizeram acreditar que o mundo pode ser um lugar amigável.

O sinal abriu. O rapaz atravessou reto, eu virei à esquerda no carro, ele sumiu rua abaixo. Mas ficou a inspiração dessa perfeição tão peculiar. Moço impecável da rua Mato Grosso, se por acaso estas linhas chegarem até você, me conta o segredo. E o que você come no café da manhã? Aveia com frutas zen? Algum shot? Quem sabe eu tente? Camiseta branca, jeans sanfonado e um sorriso distraído. Vai que cola.

Foto principal: CMTU

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

Leia mais colunas Crônicas de Uma Cidade

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse