O homem sem nome do São Pedro

image-6

Por Ana Paula Barcellos

Já contei que moro em frente ao Cemitério São Pedro, e também sobre minhas experiências com cemitério na infância e na vida adulta. Gosto de cemitérios, tanto quanto gosto de casas antigas, museus e algumas igrejas. Tem algo de nostálgico e hipnótico em ver a vida pulsar do lado de cá da rua enquanto, do outro, o silêncio dos túmulos guarda segredos que Londrina esqueceu. Um dia, num fim de tarde alaranjado, sem muito porquê, resolvi atravessar a rua. Não por saudade, exatamente (o túmulo da minha família, com meu pai, está ali), mas por algum tipo de impulso. Acabei parando perto do túmulo do “Desconhecido”, aquele homem sem nome que dizem ser o primeiro a fincar os pés — ou melhor, o corpo — na história da cidade.

A placa é simples, quase tímida: “Justa homenagem – Morto, estendido no chão, com seus braços abertos, em forma de cruz, jaz nesse humilde túmulo o número 1 deste cemitério.” Quem era ele? Ninguém sabe. Um pioneiro, talvez, dos tempos em que Londrina era só mato e promessa. Um viajante que caiu morto na trilha, com os braços abertos como quem abraça o destino. Ou, quem sabe, só um sujeito que perdeu a briga com a cachaça e virou lenda. O que me pega é que, sem nome, ele é todos nós — e, ao mesmo tempo, ninguém.

Quem era o homem sem nome no túmulo 1 do cemitério São Pedro? Que histórias trazia? O desconhecido está aqui, quieto, mas presente
Ilustrações criadas por IA/Grok

O São Pedro, com suas árvores antigas, algumas um tanto tortas, e o vento que faz corrente entre as lápides, tem aquele cheiro de terra molhada e cravo murchando. A avenida ali do lado ronca, mas dentro do cemitério o tempo anda devagar. Eu paro na frente do túmulo do Desconhecido, e o sol, já começando a se esconder, joga uma luz dourada que faz a placa parecer mais viva do que o resto. É como se ele, quem quer que tenha sido, ainda tivesse algo a dizer.

A gente adora um causo, né? Eu cresci ouvindo sobre lobisomens no Jardim Tóquio, sobre a ponte do Tibagi que quase explodiu. Mas o Desconhecido é diferente. Ele não tem nome, não tem história, só um par de braços abertos e uma placa que faz pensar: quem lembra de mim? Quem vai lembrar de nós, daqui a cem anos, quando a cidade for só prédios e shoppings? Porque, vamos combinar, Londrina tem mania de apagar o passado. Derruba casarão pra fazer estacionamento, troca café por soja, e o que sobra são essas migalhas de memória, como o túmulo número um.

Quem era o homem sem nome?

Eu fico ali, imaginando o cara. Será que ele veio pro Norte do Paraná sonhando com terra vermelha e riqueza, como todo mundo naquela época? Será que ele tinha mulher, filhos, uma viola pra tocar à noite? Ou era só um pé-rapado, perdido na poeira, que caiu e virou o primeiro endereço do São Pedro? O engraçado é que, sem querer, ele virou eterno. Enquanto os coronéis do café sumiram nos livros de história, o Desconhecido tá aqui, quieto, mas presente. O primeiro. O número um.

Um vento frio sobe da rua, e eu aperto meu casaquinho listrado. Do outro lado da grade, a vida segue: o busão lotado, o cara vendendo trufas perto da Acesf, a buzina de quem não tem paciência. O Desconhecido é o avesso da nossa correria. Quando ele nos para, nem que seja por um segundo, faz lembrar que a cidade não é só o que a gente vê. É o que tá enterrado, o que ninguém conta.

Saio do cemitério com as luzes da avenida começando a piscar. Olho pra trás, pro túmulo, e quase dou risada. O Desconhecido, sem dizer nada, me fez escrever mentalmente metade desta coluna. Talvez ele não seja tão desconhecido assim. Talvez seja só Londrina, nos olhando de volta, com os braços abertos, pedindo pra não ser esquecida.

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

Leia mais colunas Crônicas de Uma Cidade

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Uma resposta

  1. Adorei !!! Está e uma história que eu não conhecia e você fez com maestria a gentileza de conta-la. Parabéns!!! Isso é manter Londrina com a memória viva.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse