Por Telma Elorza
A política londrinense tem dessas ironias: elegemos um vice-prefeito e, quando vamos procurar sua atuação, ele parece ter sumido do mapa. Júnior Santos Rosa, o atual vice-prefeito de Londrina, é quase um personagem de enredo surrealista: oficialmente existe, mas na prática poucos conseguem apontar qual é o seu papel concreto na administração. É como se ocupasse uma cadeira fantasma, paga com dinheiro público – e um gordo salário – , claro, mas sem retorno palpável para a cidade. Será que era mesmo necessário ter aumentado em 139,87% seu salário, passando de R$ 9.130,33 para R$ 21.900,00?
Para começo de conversa, é bom lembrar qual a função de um vice-prefeito. A Constituição e a Lei Orgânica dos municípios deixam claro que ele tem o papel de substituto legal do prefeito em caso de ausência, impedimento ou vacância do cargo. Até aí é quase uma figura de “seguro administrativo”, só aparece de verdade quando o prefeito sai de cena. No entanto, nem isso Júnior Santos Rosa fez, quando o prefeito viajou duas vezes para o exterior no primeiro semestre. Pelo menos, não foi divulgado pela mídia. Se assumiu a prefeitura, foi na surdina. Ninguém ficou sabendo.
Mas, mesmo com a prerrogativa legal de ser o “substituto”, não significa que o vice deva passar quatro anos em um hiato de relevância, apenas esperando uma eventualidade. Pelo contrário, nada impede que ele assuma missões estratégicas (quais, nesse governo?), coordene projetos, assuma uma secretaria, represente a cidade em pautas relevantes e ajude a dividir o peso da gestão. No entanto, Júnior Santos Rosa apena “flutua” por aí. Suas mídias sociais mostram poucas reuniões, muitas comemorações e muita igreja. Só eu acho que ele deveria trabalhar mais no físico e deixar o espiritual um pouco de lado? Jesus disse: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Londrina precisa de menos orações e mais trabalho prático para conseguir resolver seus problemas. Se não, para que se candidatar a vice, né? Poderia ter continuado como pastor.
O vice como secretário

Historicamente, Londrina já teve vices que, pelo menos, eram “ocupados” com secretarias municipais. Foi assim nos oito anos da administração Belinati e na gestão Kireeff. Era quase um acordo tácito: para não deixar o vice às moscas, colocava-se a figura no comando de alguma pasta. Fazia bem para a imagem do político e, de quebra, dava uma justificativa sólida para sua renumeração. Hoje, nem isso. O vice nem sequer cobra uma maior relevância, parece ter adotado a tática da invisibilidade administrativa. Para que buscar trabalho, né? Os R$ 21 mil estão caindo na conta do mesmo jeito, todo mês.
E aí fica a pergunta que não quer calar: o que, exatemante, o vice-prefeito de Londrina está fazendo de bom pela cidade? Porque, se for para ser apenas um figurante em cultos e festas, a população poderia muito bem economizar esse salário gordo e canalizar os recursos para onde realmente faz falta: saúde, educação, infraestrutura.
Quero deixar claro que aqui não se trata de desrespeitar a fé ou compromissos pessoais de ninguém, mas sim de cobrar uma responsabilidade pública. O cargo de vice-prefeito não é honorífico, não é título de cortesia. É função política, com renumeração paga pelos contribuinte, que deveria ser acompanhada de trabalho real, projetos e presença ativa na vida pública. Até o vice do presidente Lula, Geraldo Alckmin, trabalha para caramba.
Londrina não precisa de um vice decorativo, que só aparece em algumas fotos de trabalho e o resto, de caráter pessoal. Precisa de alguém que compreenda que a cidade tem problemas, que ouça a população e que, compreenda que ser vice é, sim, uma oportunidade de fazer a diferença. E se ele está neste limbo, será que não é caso do prefeito colocá-lo para trabalhar? Há várias secretarias acumuladas, que estão sendo geridas por um único gestor. Por que não aproveitá-lo em uma delas?
Do jeito que está, a ausência de Júnior Santos Rosa soa mais como descaso. E isso, meus amigos, Londrina não merece.
Foto principal: imagem gerada por IA/Grok
Telma Elorza
Jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD. Integra o Conselho da Mulher Empresária da ACIL.
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