Por Ana Paula Barcellos
O relógio marca 7h10, embarco de muito mal jeito no carro que chamei por aplicativo e passo boa parte do trajeto tentando entender como Londrina, uma cidade com mais de 500 mil habitantes, pode ser tão despreparada para se mover com dignidade. Uma metrópole com quase 4 mil motoristas de aplicativos rodando pelas ruas – entre Uber, 99, e os locais 43Mob e Bora Car – mas que parece esquecer que mobilidade urbana vai além de carros circulando e multas sendo aplicadas pela CMTU. O absurdo que é viver numa cidade onde a demanda por transporte é imensa, mas a infraestrutura e o planejamento urbano são uma piada.
Londrina é um paradoxo ambulante. Com uma frota de motoristas de aplicativos que rivaliza com grandes capitais, a cidade deveria ser um exemplo de mobilidade. Mas, na prática, o que vemos? Ruas estreitas, herança de um passado sem planejamento, onde as vias foram abertas “no facão”, como se o crescimento populacional fosse uma surpresa.
No centro da cidade, o caos é ainda mais evidente. Tente embarcar ou desembarcar de um carro por aplicativo na Avenida Paraná ou na Rua Hugo Cabral. Na Sergipe, então, boa sorte! Não há vagas demarcadas, pontos específicos ou qualquer estrutura que facilite a vida de motoristas e passageiros. O resultado? Motoristas arriscam multas da CMTU – que, aliás, parece mais interessada em arrecadar com infrações do que em resolver o problema – e passageiros precisam caminhar duas, três quadras para encontrar um local “seguro” para chamar ou descer do carro.
A CMTU, aliás, é um capítulo à parte. Responsável pela fiscalização do trânsito e transporte, a companhia municipal parece mais eficiente em aplicar multas do que em criar soluções que atendam os contribuintes. Em 2019, Londrina regulamentou os serviços de aplicativos, exigindo cadastro, MEI e veículos com no máximo 10 anos. Ótimo, a regulamentação trouxe alguma ordem, mas onde está a contrapartida? Cadê os pontos de embarque e desembarque? Cadê a sinalização adequada? A CMTU arrecada R$ 0,08 por quilômetro rodado pelos motoristas, mas onde esse dinheiro é aplicado?
Londrina sem infraestrutura
Certamente não em infraestrutura para mobilidade urbana. Enquanto isso, motoristas enfrentam o ônus de trabalhar numa cidade onde o sistema viário não dá conta da demanda, e passageiros pagam caro – tanto pela corrida quanto pelos impostos – para descer em locais improvisados, muitas vezes inseguros, especialmente para mulheres, que já têm preocupação com a segurança no uso desses serviços.
E não é só o transporte por aplicativo que sofre. O trânsito de Londrina, em geral, é um reflexo de um planejamento urbano que nunca acompanhou o crescimento da cidade. Desde sua fundação, as ruas estreitas e mal traçadas já indicavam que a cidade não estava pronta para o futuro. Congestionamentos, falta de vagas de estacionamento e motoristas mal educados – porque, sim, a educação no trânsito também é deficiente – tornam a experiência de se locomover um exercício de paciência.
E quando o poder público decide agir? As obras públicas, quando acontecem, são lentas, mal executadas e custam os olhos da cara. O Perfil de Londrina, publicado pela Prefeitura, detalha ações e obras, mas basta circular pela cidade para perceber que o impacto é mínimo. Viadutos inacabados, pavimentação que não dura um inverno e praças que demoram anos para sair do papel. Tudo isso enquanto a população cresce e a cidade engasga.

Os motoristas de aplicativo arcam com o pior dessa equação. Além de lidarem com a precariedade das ruas, enfrentam jornadas exaustivas – em média, 46 horas por semana, segundo a PNAD Contínua – e rendimentos que, para muitos, ficam abaixo dos trabalhadores não plataformizados. Os aplicativos locais, que prometem manter os recursos na cidade, são uma tentativa louvável de melhorar as condições dos motoristas, mas sem uma infraestrutura urbana que acompanhe, é como enxugar gelo.
Enquanto isso, passageiros pagam caro por um serviço que, embora essencial, é prejudicado pela falta de planejamento. Quer ir ao centro? Prepare-se para descer a algumas quadras de distância, porque o motorista não vai arriscar parar na porta e levar uma multa. Vai para a Gleba? Só consegue desembarcar em fila dupla, ouvindo buzina. Quer voltar para casa à noite? Boa sorte encontrando um ponto de desembarque que seja seguro e acessível.
Londrina se vende como uma cidade dinâmica, a segunda maior do Paraná, com um sistema de transporte coletivo que tenta se modernizar com tecnologia Euro 6 e acessibilidade. Mas a verdade é que, sem um planejamento urbano eficiente, sem vontade política para investir em infraestrutura e sem uma CMTU que vá além de multar, a cidade continuará patinando. É um ciclo vicioso: a população cresce, a demanda por transporte aumenta, mas a estrutura permanece a mesma, defasada, improvisada. E quem paga o preço? O motorista, que trabalha sob pressão, e o passageiro, que desembarca no meio da rua, torcendo para não ser atropelado.
Que tal um plano de mobilidade que inclua pontos de embarque, sinalização decente e ruas que comportem o tráfego? Que tal uma CMTU que fiscalize com bom senso e invista na cidade, em vez de só arrecadar? Porque, no fim das contas, uma cidade que não facilita a vida de quem se move – por carro particular ou por aplicativo, ônibus – é uma cidade que não funciona.
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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