Por Ana Paula Barcellos
Em um país onde o Carnaval é sinônimo de identidade cultural, Londrina se destaca por uma ausência gritante. Enquanto cidades vizinhas preparam-se para receber foliões com bloquinhos de rua e trios elétricos, a filha de Londres assiste, pela enésima vez, ao esvaziamento de suas ruas. O que deveria ser uma celebração coletiva transformou-se em símbolo de um retrocesso que ultrapassa a festividade: é o retrato de uma cidade que insiste em virar as costas para sua própria cultura.
Do sonho multicultural ao “fazendão iluminado”
Fundada sob o mito da terra prometida, Londrina nasceu da mistura de culturas: italianos, japoneses, alemães, migrantes nordestinos e tantos outros trouxeram na bagagem não apenas ferramentas de trabalho, mas tambores, danças e tradições. Nos anos 1980 e 1990, a cidade pulsava com festivais de música, teatros lotados e um Carnaval de rua que contagiava até os mais céticos. Hoje, o cenário é desolador: espaços culturais públicos fecham as portas, projetos artísticos são engavetados e o investimento em Cultura não passa de uma linha mal traçada no orçamento municipal.

O Parque Ney Braga, palco perfeito para grandes eventos, ainda vai virar um monumento ao abandono. Em 2025, a ironia chegou ao ápice: o Carnaval que seria realizado ali precisou ser “exportado” para Ibiporã para não deixar de acontecer. Enquanto isso, Londrina se contenta em ser um “fazendão iluminado”, dominado pela mentalidade interiorana de parte de sua pseudo-elite.
E não se trata apenas de falta de verba. Há uma narrativa perversa que associa Carnaval a “bagunça” e “improdutividade”, como se a alegria fosse incompatível com o desenvolvimento. Setores conservadores da cidade, muitos deles enraizados em uma visão ruralista do mundo, tratam a Cultura como acessório — quando não como ameaça. Basta lembrar os sucessivos vetos a projetos artísticos que abordam diversidade ou criticam estruturas de poder.
O resultado é uma Londres brasileira que sonha se passar por europeia, mas não consegue sustentar sequer uma festa popular. Curioso: na Europa que tanto inspira certos discursos locais, as festividades pagãs e carnavalescas são patrimônio nacional. Em Londrina, porém, até o Rei Momo foi exilado.
Carnaval como resistência
O Carnaval não é apenas uma festa. É um ato político de ocupação do espaço público, uma rebelião contra a mesmice. Suas origens remontam a celebrações que invertiam hierarquias sociais, como os antigos festejos romanos de Saturnália. Negar esse direito à cidade é reforçar uma lógica de controle sobre os corpos e as expressões. É sintomático que, em um período de ascensão de discursos autoritários, Londrina veja sua cultura minguar.
Enquanto Ibiporã abraça o Carnaval alheio, Londrina se enclausura em uma falsa moralidade. Resta perguntar: quem ganha com isso? Certamente não são os artistas locais, os trabalhadores do turismo ou os cidadãos que buscam um respiro de leveza. A resposta parece estar em um projeto de cidade que privilegia interesses privados em detrimento do coletivo — onde o progresso se mede por metros quadrados de concreto, não por experiências humanas.
Pois sem Cultura, não há futuro — só um passado que se repete, cada vez mais cinza. Em Londrina esse ano, mais uma vez, o samba, vai virar saudade.
Foto principal: folkriy/Freepik

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab
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