Por Ana Paula Barcellos
O inverno ainda nem acabou mas a umidade e o frescor já eram. A primavera deve chegar mantendo o clima seco – para meu desespero. Tá difícil respirar. Segundo o IDR-PR, na tarde de quarta-feira (10), a umidade atingiu o patamar crítico de 11%, um dos menores registros da história local.
Esse número não é só uma estatística; ele se traduz em narizes sangrando, olhos irritados e um cansaço que se instala no corpo inteiro. A estação não mudou, mas a seca já nos castiga. As vias respiratórias ressecam, e doenças como rinite, sinusite e faringite ganham terreno, agravadas por um ar que parece rasgar a garganta a cada inspiração.
O que torna essa situação ainda mais difícil e sufocante é a contribuição humana. Enquanto a natureza já nos pune com a falta de chuva, muitos moradores insistem em queimar mato e lixo, como se o céu precisasse de mais fumaça para se confundir com as nuvens. Nos dias mais nublados, é possível ver a linha divisória entre a brisa úmida e o véu cinzento que sobe das queimadas.
A fumaça paira, densa, misturando-se ao ar seco e transformando cada saída de casa – e apenas respirar – em um teste de resistência. Entre 10h e 17h, o sol castiga, e o ideal, pasmem, é ficar dentro de casa! Mas nem isso basta quando o ambiente interno também sofre com a aridez.
Respirar para quê, né?

A fiscalização que deveria nos permitir respirar em paz? Uma miragem. Nunca houve um controle efetivo para coibir essas queimadas, e a sensação de abandono só aumenta. Já vimos isso em outros anos. Ficamos à mercê de um governo invisível e de uma chuva que teima em não chegar. O que resta é a autodefesa: umidificadores de ar, panos úmidos pendurados em cadeiras e cabeceiras, e litros de água são engolidos na esperança de hidratar o corpo.
Eu mesma sigo essa rotina. Bebo uns bons litros por dia, lavo o nariz com soro, mas sempre encontro um ponto vermelho, um traço de sangue que me lembra o quanto esse clima é hostil. O umidificador ajuda um pouco, mas não resolve. É um paliativo diante de um problema que exige soluções coletivas.
Esse cansaço vai além do físico. É um cansaço existencial, uma frustração de saber que não podemos contar com ninguém nem para respirar um ar mais ou menos puro. As autoridades parecem alheias e a população, dividida entre os que sofrem e os que agravam o problema, não se une. Resta rezar ou inventar danças da chuva, como um ritual ancestral em busca de misericórdia climática.
Enquanto isso, o nariz sangra, a fumaça sobe, e Londrina segue seu curso seco, quase como um aviso de que o futuro pode ser ainda mais árido se não mudarmos. Talvez a chuva venha, talvez não. Por ora, sobrevivemos entre goles d’água e um respirar pesado, cheio de pó e fuligem.
Foto principal: Freepik
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
Leia mais colunas Crônicas de Uma Cidade
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE
