Como começou a vinicultura comercial no Brasil

banner-1915-desktop-1920x500-fmpu7

Por Edmilson Palermo Soares

A história da vinícola comercial do Brasil está ligada à chegada dos imigrantes italianos na região da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul.

Embora as Vinícolas Gaúchas tenham dado o pontapé inicial na indústria como a conhecemos hoje, o cultivo de uvas e a produção de vinho no Brasil começaram muito antes:

O fidalgo português Brás Cubas plantou as primeiras videiras Vitis vinífera (uvas europeias) no Brasil, na região de Cubatão e na Vila de São Vicente (litoral de São Paulo). No entanto, o clima úmido da costa não ajudou e a produção não prosperou comercialmente.

No Rio Grande do Sul, no Século XVII, os padres jesuítas espanhóis introduziram o cultivo de videiras para produzir o “vinho de missa” (usado nas celebrações religiosas), muito antes da chegada oficial dos imigrantes italianos.

A vinicultura comercial está ligada à chega dos imigrantes no Sul do Brasil. Hoje, vinícolas tradicionais e centenárias produzem um vinho de excelente qualidade
Foto: Vinícola Salton

Antes da fundação das grandes vinícolas, o imigrante e produtor Manoel da Silva Pais teve grande sucesso ao introduzir a uva americana Isabel no Rio Grande do Sul, por volta de 1840. Essa uva, mais resistente a doenças do que as europeias, foi a base para que os colonos italianos que chegaram a partir de 1875 pudessem estruturar e prosperar na produção caseira de vinho, o que ficou conhecido como Vinho Colonial, abrindo as portas para o surgimento das primeiras empresas do setor décadas depois.

A Vinícola Salton, localizada em Bento Gonçalves (RS), é oficialmente reconhecida como a empresa vinícola mais antiga do Brasil em atividade contínua. Foi fundada formalmente em 1910 pelos irmãos Salton, que decidiram profissionalizar a produção artesanal que o pai, o imigrante Antonio Domenico Salton, já realizava na colônia desde 1878.

A Vinícola Peterlongo, também situada na Serra Gaúcha, em Garibaldi (RS), foi fundada por Manoel Peterlongo em 1915. A vinícola é historicamente famosa por ter elaborado o primeiro espumante do Brasil. Curiosamente, a Peterlongo é a única vinícola fora da região de Champagne, na França, que possui o direito legal de utilizar o termo “Champagne” em seus rótulos, devido a uma decisão do Supremo Tribunal Federal de 1974, baseada em direito de anterioridade.

A Vinícola Aliança foi fundada em Caxias do Sul (RS), em 1931. Nasceu da união de um grupo de famílias de imigrantes italianos que decidiram cooperar para ganhar força no mercado. Hoje, ela faz parte da Nova Aliança (resultado da fusão de várias cooperativas tradicionais da região) e continua sendo um dos pilares históricos da viticultura gaúcha.

Também em 1931, foi fundada a Cooperativa Vinícola Aurora, em Bento Gonçalves, (RS) por um grupo de 16 famílias de produtores de uvas, transformando-se na maior cooperativa vinícola do Brasil. Ela foi fundamental para a consolidação e escoamento da produção dos pequenos viticultores da Serra Gaúcha ao longo do século XX.

Outro marco do cooperativismo que surgiu no início da década de 1931, na cidade de Garibaldi (RS), foi a Vinícola Garibaldi. Começou com a união de dezenas de produtores que buscavam alternativas para superar as crises econômicas da época. Hoje, é amplamente premiada, especialmente pela qualidade de seus espumantes.

O vinho do Brasil merece ser comemorado

Da persistência dos jesuítas e o pioneirismo de Brás Cubas à força do cooperativismo dos imigrantes italianos, a história do vinho no Brasil é moldada pela superação e pelo respeito à terra.

Conhecer as origens de rótulos centenários que ainda hoje habitam nossas taças é mais do que entender de viticultura; é celebrar a identidade e a evolução de um patrimônio nacional que continua colhendo o seu futuro a cada nova safra.

O sucesso atual da vitivinicultura brasileira não nasceu do acaso, mas sim da resiliência de famílias e cooperativas que transformaram o solo da Serra Gaúcha em referência mundial. Provar um vinho brasileiro hoje é honrar o esforço dos pioneiros que, há mais de um século, ousaram transformar o sonho da videira em realidade comercial.

Um brinde!

Foto principal: Vinícola Peterlongo

Edmilson Palermo Soares

Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.

Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin

Leia todas as colunas do Mundo do Vinho

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse