Por Edmilson Palermo Soares
O Dia do Vinho Brasileiro (ou Dia do Vinho Nacional) é celebrado anualmente no primeiro domingo de junho. É a data oficial para enaltecer a vitivinicultura do país, valorizar a identidade dos terroirs nacionais e reconhecer o trabalho de quem cuida de todo o ciclo: desde o cultivo da videira no campo até o engarrafamento nas cantinas.
A vitivinicultura brasileira passou por um longo processo de adaptação até alcançar o estágio atual, em que combina tradição, inovação e diversidade regional. Embora o Rio Grande do Sul siga como o principal centro produtor, o cultivo de uvas e a elaboração de vinhos avançaram para áreas antes consideradas improváveis, impulsionadas por pesquisa, novas técnicas de manejo e pelo aproveitamento de diferentes terroirs brasileiros.
Formação histórica da vitivinicultura do Brasil
A história da vitivinicultura no Brasil começa no século XVI, com a chegada dos colonizadores portugueses e das primeiras mudas de videira.
As primeiras mudas trazidas pelos portugueses foram de variedades de Vitis vinifera portuguesas, ideais para a produção de vinho de mesa e para os rituais religiosos católicos.
As mudas chegaram em 1532 com a expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa. O plantio inicial ocorreu na Capitania de São Vicente (no atual litoral do estado de São Paulo).
Pouco tempo depois, o fidalgo português Brás Cubas (fundador de Santos) assumiu o papel de primeiro viticultor oficial do país. Ao notar que o vinhedo não prosperava no litoral (na região que hoje compreende Cubatão), ele subiu a Serra do Mar e transferiu o cultivo para o Planalto Atlântico (na região do atual bairro do Tatuapé, na capital paulista). Lá, em 1551, ele conseguiu elaborar o que é considerado o primeiro vinho brasileiro.
Embora Brás Cubas tenha conseguido produzir vinho em solo paulista, a atividade comercial e a expansão da vitivinicultura colonial decairiam drasticamente devido a três fatores principais:
- Incompatibilidade Climática: A Vitis vinifera necessita de um período de dormência hibernal bem definido para produzir com qualidade. No Sudeste brasileiro (litoral e planalto paulista), o clima tropical úmido, as chuvas excessivas no período de maturação e a falta de frio no inverno faziam com que as plantas tivessem ciclos desregulados.
- Ataques de Pragas e Doenças Fúngicas: A alta umidade do clima paulista criava o ambiente perfeito para a proliferação de fungos e doenças que as videiras europeias, muito sensíveis, não conseguiam combater.
- Barreiras Políticas: Para piorar a situação de quem insistia no plantio, no final do século XVIII (em 1789), a Coroa Portuguesa proibiu oficialmente o cultivo de uvas no Brasil. O objetivo era puramente econômico: proteger o mercado de vinhos da metrópole (como o Vinho do Porto) e obrigar a colônia a continuar importando de Portugal.
O ponto de virada do vinho nacional
Quando os imigrantes italianos chegaram ao Rio Grande do Sul, a partir de 1875, eles trouxeram na bagagem e na memória o forte desejo de dar continuidade à cultura do vinho, que já fazia parte de suas vidas nas regiões do Vêneto, Lombardia e Trento.
A atividade ganhou bases mais sólidas. Os imigrantes introduziram técnicas de cultivo, organização produtiva e uma cultura do vinho que seria decisiva para a consolidação do setor.
No entanto, as primeiras tentativas de trazer mudas diretamente da Itália enfrentaram sérios problemas: muitas mudas secaram durante a longa viagem de navio ou definharam rapidamente ao serem plantadas no solo gaúcho devido ao clima úmido e ao ataque de pragas fúngicas.
Por essa razão, nos primeiros anos, os italianos adotaram a uva Isabel, uma casta de vitis americana, trazida anteriormente pelos colonos alemães, que era altamente resistente às doenças da região.
Com o passar do tempo, a insistência em produzir vinhos finos de padrão europeu e o apoio do governo, no final do século XIX e início do século XX, fizeram com que variedades europeias (Vitis vinifera) fossem reintroduzidas com sucesso por meio de técnicas de enxertia.
Entre as principais variedades europeias históricas e tradicionais trazidas ou introduzidas diretamente pela herança dos imigrantes na Serra Gaúcha, destacam-se:
Uvas Brancas Tradicionais

Peverella: Uma das castas europeias mais icônicas da história da imigração. Originária do Trentino, adaptou-se muito bem à Serra Gaúcha e foi amplamente utilizada por décadas para a elaboração de vinhos brancos estruturados e de acidez viva antes do predomínio das uvas internacionais.
Malvasia Branca: Cultivada desde os primórdios para a elaboração de vinhos brancos aromáticos e de mesa, mantendo uma longa tradição italiana ligada ao consumo familiar.
Moscato Branco e Giallo: Embora algumas variantes tenham sido trazidas em fluxos posteriores, a família dos Moscatos finos de origem europeia foi amplamente difundida pelos descendentes de imigrantes, transformando-se na base para a produção de espumantes aromáticos e moscatéis na região.
Uvas Tintas Tradicionais

Teroldego: Uma uva tinta originária da região do Trentino-Alto Ádige. Embora tenha ganhado grande destaque no mercado nacional de vinhos finos em projetos recentes de vinícolas tradicionais, ela possui presença histórica em plantações coloniais da herança imigrante.
Nebbiolo: A célebre uva do Piemonte foi introduzida pelos colonos e centros de pesquisa da época, embora sua exigência climática fizesse com que o cultivo ficasse restrito a pequenas parcelas experimentais.
Refosco e Barbera: Castas tradicionais do norte da Itália que vieram na bagagem dos imigrantes. A Barbera foi muito importante na primeira metade do século XX para dar cor e acidez aos vinhos da região, enquanto a Refosco (trazida pelos friulanos) permaneceu em menor escala.
Bonarda: Outra casta tinta do norte italiano muito comum nas antigas cantinas familiares para o consumo cotidiano da colônia.
Novas áreas de expansão da vitivinicultura
Atualmente, a vitivinicultura brasileira vive uma fase de descentralização. Além das áreas tradicionais da Serra Gaúcha, outras regiões vêm se destacando pela produção de vinhos finos, espumantes e uvas de qualidade.
Entre essas novas frentes estão:
- Campanha Gaúcha e os Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul;
- Planalto Catarinense, em Santa Catarina;
- Vale do São Francisco, entre Bahia e Pernambuco;
- Áreas emergentes em Minas Gerais, São Paulo, Distrito Federal e Chapada Diamantina, na Bahia;
- Em Pernambuco, o Agreste também começa a ganhar visibilidade como nova área produtora, associando vinho, turismo e gastronomia.
Essa expansão recente está ligada a fatores técnicos e econômicos. Um dos mais importantes é a adoção de novas tecnologias de manejo, como a dupla poda, que permite deslocar a colheita para o inverno em regiões de clima mais seco nessa estação, favorecendo a maturação das uvas. Esse sistema foi fundamental para o avanço dos chamados vinhos de inverno em estados como Minas Gerais, São Paulo e no Centro-Oeste.
Além disso, o fortalecimento do enoturismo, a busca por produtos de identidade regional, a diversificação do agronegócio e o investimento em pesquisa por instituições como a Embrapa têm contribuído para consolidar novas fronteiras produtivas. Assim, a vitivinicultura brasileira deixa de ser uma atividade restrita a poucos polos históricos e passa a refletir melhor a diversidade ambiental e cultural do país.
Um brinde ao Vinho Nacional!
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
Leia todas as colunas do Mundo do Vinho
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

