Por Edmilson Palermo Soares
O Valle de Leyda é uma das mais fascinantes e prestigiadas regiões vinícolas de clima frio do Chile e de toda a América do Sul. Esta região redefiniu a imagem do vinho chileno no mercado internacional, provando que o país vai muito além dos tintos potentes do Vale Central.
Até o final da década de 1990, o Vale de Leyda era uma área árida de pastagem e cultivo de grãos de sequeiro (trigo e cevada). Embora o potencial de proximidade marítima fosse evidente para produtores visionários, havia um obstáculo intransponível: a escassez severa de água potável e para irrigação, com lençóis freáticos escassos e salinos.
Um grupo de viticultores e empresários pioneiros, com destaque para as famílias fundadoras da Viña Leyda e Garces Silva, uniu esforços para financiar uma das maiores obras de engenharia privada da viticultura chilena: um aqueduto com tubulação de cerca de 8 km a 12 km para bombear água do Rio Maipo até as colinas de Leyda.
Com a chegada da água em 2001, os primeiros vinhedos foram plantados. Em maio de 2002, a região recebeu formalmente o estatuto de Denominação de Origem (D.O.) como sub-vale de San Antonio, conquistando aclamação da crítica internacional logo nas primeiras safras.
O Vale de Leyda fica a cerca de 90 km a sudoeste de Santiago e entre 4 a 14 km de distância do Oceano Pacífico.
Fortemente regulado pela fria Corrente de Humboldt, o vale é banhado pela camanchaca (nevoeiro matinal denso que se dissipa no início da tarde) e por ventos marítimos constantes e intensos que sopram do Pacífico. As temperaturas máximas no verão raramente ultrapassam 25 °C.
O frio modera o amadurecimento, permitindo que as uvas alcancem a maturidade fenólica de forma lenta e gradual, retendo índices elevadíssimos de acidez natural e desenvolvendo aromas nuançados sem acúmulo excessivo de açúcar (baixo teor alcoólico potencial).
O relevo é formado por suaves colinas onduladas da Cordilheira da Costa. Os solos são muito antigos (período Cretáceo), predominantemente franco-argilosos sobre um subsolo com decomposição de granito e presença de carbonato de cálcio em camadas profundas, além de depósitos marinhos e calcários.
Principais uvas do Vale de Leyda
Sauvignon Blanc: A grande estrela branca. Produz vinhos elétricos, lineares, extremamente minerais, com notas de lima, toranja, ervas frescas, pedra de giz e um marcante toque salino/marinho no final.
Pinot Noir: A casta tinta que melhor traduz a elegância fria de Leyda. Exibe aromas de cerejas frescas, framboesas, chão de floresta, especiarias e toques terrosos, com corpo leve a médio, taninos delicados e excelente acidez gastronômica.
Chardonnay: Menos untuoso e tropical que no Vale Central. Em Leyda ele é tenso, cítrico, com nuances de maçã verde, avelã crua e viva mineralidade salina.
Syrah (de clima frio): Totalmente oposto ao Syrah encorpado e geleificado de vales quentes. Em Leyda, gera um perfil nórdico (estilo Rhône Setentrional), floral (violetas), com notas pronunciadas de pimenta-preta moída, azeitona preta e grande frescor.
Pinot Gris e Riesling: Cultivadas em menores parcelas, alcançam níveis de precisão aromática e acidez notáveis.
Principais vinícolas e rótulos emblemáticos de Leyda

Viña Leyda: A pioneira absoluta e homônima da região. Sob a condução enológica histórica de nomes como Viviana Navarrete, tornou-se a referência máxima da D.O.
Vinhos de destaque:
- Leyda Lot 4 Sauvignon Blanc: Um dos brancos mais premiados da América do Sul, focado em mineralidade, pureza e tensão;
- Leyda Lot 21 Pinot Noir: Ícone de elegância e finesse com perfil de frutas vermelhas e notas terrosas.
- Leyda Las Brisas Pinot Noir e Garuma Sauvignon Blanc: Rótulos de vinhedo único com excelente relação qualidade/preço.
Garces Silva Family Vineyard: Foi a primeira família a plantar vinhedos em Leyda ao lado da Viña Leyda, criando uma bodega moderna de arquitetura integrada à paisagem.
Vinhos de destaque:
- Amayna Sauvignon Blanc e Amayna Barrel Fermented: Vinhos que romperam paradigmas pela textura e exuberância aliadas à acidez.
- Boya (Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Syrah): Linha vibrante e puramente marítima.
Outros grandes nomes que possuem vinhedos ou linhas consagradas em Leyda:
Montes: Com o renomado Montes Outer Limits Sauvignon Blanc (proveniente do terroir costeiro de Zapallar/Leyda).
Concha y Toro / Marques de Casa Concha: O Marques de Casa Concha Chardonnay migrou parte de sua produção para Leyda para garantir frescor e perfil mineral.
Viña Ventisquero: Com sua linha de alta gama costeira Tara e Grey.
Matetic Vineyards: Localizada na fronteira com o Vale de San Antonio/Rosario, pioneira em biodinâmica de clima frio.

Curiosidades do Vale de Leyna
A influência da brisa salina: Por estar voltado para o mar sem barreiras orográficas intermediárias, o vale recebe uma névoa salina direta que muitas vezes deposita micropartículas salinas sobre a pruína da casca das uvas, conferindo uma sensação gustativa salgada/marina reconhecível na taça.
Vento que engrossa as cascas: As rajadas diárias de vento que sobem do mar funcionam como uma defesa natural contra fungos e umidade, mas também estressam mecanicamente a planta, fazendo com que as uvas desenvolvam bagos menores e películas (cascas) mais grossas, concentrando polifenóis sem perder a acidez.
O contraste com o estilo clássico chileno: Enquanto o Chile tradicionalmente consolidou sua fama com vinhos tintos potentes, alcoólicos e ricos em madeira (como os Cabernet Sauvignon de Maipo), Leyda tornou-se o bastião dos vinhos verticais, com baixo carvalho, pureza frutada e baixa graduação alcoólica natural.
Um brinde!
Foto principal: Viña Garces e Silva
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
Leia todas as colunas do Mundo do Vinho
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE
