Por Edmilson Palermo Soares
A Ocupação Alemã na França entre 1940 a 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, teve o vinho francês como um dos seus principais alvos.
Antes da guerra, alguns alemães já trabalhavam como grandes importadores, comerciantes ou negociantes de vinho. Eles conheciam profundamente o mercado francês, falavam o idioma e, muitas vezes, eram amigos dos próprios produtores.
Adolf Hitler escolheu pessoalmente estes especialistas alemães para regiões como Bordeaux, Borgonha e Champagne — com a missão de confiscar e enviar milhões de garrafas das safras mais lendárias para a Alemanha. Eles eram chamados de Weinführer.
Os alemães sabiam que o vinho francês era um ativo econômico valioso, usados para gerar dinheiro para o esforço de guerra, e uma ferramenta de prestígio para banquetes do alto escalão nazista, como Hermann Göring.
Para garantir que o saque fosse organizado e não houvesse depredação desordenada por parte dos soldados, eles dividiram a França em regiões e colocaram um Weinführer no comando de cada uma:
- Em Bordeaux, um grande comerciante de vinhos de Bremen foi enviado para gerenciar a região. Heinz Bömers conhecia perfeitamente os proprietários de castelos famosos como o Château Mouton Rothschild e o Château Lafite.
- Em Champagne, um homem arrogante e cunhado de Joachim von Ribbentrop, que era o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, foi designado. Otto Klaebisch exigia cotas astronômicas de milhões de garrafas de champanhe por semana para enviar ao front e a Berlim.
Resistência Francesa
Os vinicultores franceses, conhecidos por “vignerons“, organizaram uma das formas mais criativas, silenciosas e eficazes de resistência, sabotando os saques econômicos e apoiando ativamente a Resistência Francesa.
Assim que perceberam que os alemães confiscariam os estoques, os produtores começaram a emparedar suas adegas. À noite, famílias inteiras trabalhavam em silêncio para construir paredes de tijolos falsas, cobrindo-as com poeira, teias de aranha e mofo para parecerem antigas.
A Maison Moët & Chandon, em Champagne, quilômetros de galerias subterrâneas de giz foram bloqueados, escondendo centenas de milhares de garrafas de safras históricas.
Em Paris, o famoso restaurante Tour d’Argent, emparedou sua lendária adega, escondendo mais de 20.000 garrafas raras dos olhos do marechal Hermann Göring.
Os franceses rapidamente perceberam que muitos soldados e oficiais alemães queriam o prestígio das marcas, mas não tinham paladar refinado. Os vinicultores começaram a engarrafar vinhos jovens, azedos ou de baixíssima qualidade com rótulos de grandes e caríssimos crus.
A Château Lafite Rothschild, famoso produtor, enviou deliberadamente lotes de vinhos inferiores com suas etiquetas nobres para a Alemanha. Os alemães bebiam achando que estavam degustando o ápice da viticultura mundial.
As vinícolas e seus vastos terrenos subterrâneos transformaram-se em bases logísticas perfeitas para a resistência armada.
Grandes tonéis de vinho eram adaptados com fundos falsos para transportar armas, munições, rádios transmissores e panfletos de propaganda antinazista pelas estradas sem levantar suspeitas nas barreiras alfandegárias.
Pilotos aliados (britânicos e americanos) derrubados em território francês eram frequentemente escondidos nos túneis de Champagne e da Borgonha antes de serem contrabandeados para fora do país pela rede de resistência dos produtores.

Como os vinicultores eram obrigados a carregar trens inteiros com caixas de vinho rumo a Berlim, eles começaram a sabotar os envios por dentro.
Trocavam etiquetas de destino para que os trens com vinhos finos fossem parar em frentes de batalha erradas ou ficassem perdidos em pátios ferroviários por meses até azedar.
Em alguns casos, os produtores colocavam açúcar ou substâncias nos eixos dos vagões de trem para causar superaquecimento e quebra das composições a caminho da Alemanha.
Alemães confiscaram o vinho francês
Durante a ocupação na cidade de Dijon, na Borgonha, os alemães confiscaram quase todo o vinho tinto local. O prefeito da cidade e membro da resistência, Félix Kir, decidiu protestar e contornar a situação. Ele pegou o vinho branco seco local que havia sobrado (o Aligoté, muito ácido) e misturou com licor de groselha preta (Crème de Cassis) para imitar a cor do vinho tinto e torná-lo palatável. A mistura ficou famosa no mundo inteiro e hoje leva o seu nome: o coquetel Kir.
A retirada dos alemães de Bordeaux, que culminou na libertação da cidade em 28 de agosto de 1944, foi um dos episódios mais tensos, estratégicos e dramaticamente cinematográficos do fim da Segunda Guerra Mundial na França.
Diferente de Paris, onde houve intensos combates urbanos, a retirada de Bordeaux foi marcada por uma mistura de negociações secretas, blefes ousados da Resistência e uma corrida desesperada para salvar a cidade e seus preciosos vinhedos da destruição total.
Após o Dia D (junho de 1944) e o avanço aliado, as forças alemãs no sudoeste da França corriam o risco de ficar totalmente isoladas. Em agosto, Berlim ordenou a retirada das tropas. No entanto, seguindo a mesma lógica que tentou aplicar a Paris, Adolf Hitler deu ordens expressas para que as tropas alemãs explodissem toda a infraestrutura de Bordeaux antes de sair.
O alvo principal era o porto de Bordeaux e a gigantesca base de submarinos da Kriegsmarine (marinha alemã). Os alemães espalharam toneladas de explosivos pelos cais, pontes e edifícios históricos da cidade.
A tragédia só foi evitada graças a um soldado alemão chamado Heinz Stahlschmidt (que mais tarde adotou o nome francês de Henri Salmide). Ele trabalhava no controle de munições da marinha alemã e estava horrorizado com a ordem de destruir a cidade e matar milhares de civis inocentes.
Em 22 de agosto de 1944, Stahlschmidt agiu secretamente com a Resistência Francesa. Ele entrou no bunker de munições em bacia subterrânea de Bordeaux, onde estavam guardados os detonadores e explosivos destinados à destruição da cidade, e explodiu o próprio arsenal alemão. A explosão matou alguns soldados alemães, mas desarmou completamente o plano de terra arrasada de Hitler, salvando as pontes e a arquitetura histórica de Bordeaux.
O Weinführer de Bordeaux, Heinz Bömers, desempenhou um papel diplomático sutil na transição. Sendo um homem do vinho que tinha negócios e amigos na região antes da guerra, ele sabia que o Terceiro Reich estava desmoronando. Nos dias que antecederam a retirada, Bömers ajudou a mediar conversas de bastidores.
O principal objetivo era garantir que a retirada ocorresse sem que os soldados alemães, tomados pelo pânico ou pela vingança, passassem a saquear os grandes Châteaux produtores ou incendiar os vinhedos históricos, como o Mouton Rothschild, que havia sido transformado em quartel-general de comunicações nazista. Embora muitas adegas tenham sido reviradas ao longo da ocupação, a integridade das vinhas foi mantida.
Sem os explosivos e sob o risco de serem cercados pelas forças da Resistência e pelas tropas aliadas que subiam pelo Sul, o comandante alemão local, General Albin Nake, negociou um acordo de não agressão mútua com a liderança civil local: os alemães marchariam para fora da cidade sem destruí-la, contanto que a Resistência não os atacasse pelas costas durante a evacuação.
“Vinho da vitória”
Em 28 de agosto, as últimas tropas alemãs cruzaram o rio Garona em retirada. Horas depois, as Forças Francesas do Interior (FFI) e a população tomaram as ruas. Poucos dias depois, em setembro, o General Charles de Gaulle visitou Bordeaux pessoalmente, consagrando o retorno da cidade à República Francesa.
Embora os vinhedos estivessem em condições ruins devido à falta de mão de obra, cavalos e insumos, como o cobre para tratar as videiras, a safra de 1944 foi colhida já em total liberdade. No ano seguinte, viria a lendária safra de 1945, considerada “o vinho da vitória” e uma das maiores do século.
A libertação de Champagne, ocorrida no final de agosto de 1944, teve um ritmo bem diferente da retirada de Bordeaux. Se no Sudoeste a saída alemã foi mais negociada e burocrática, em Champagne, por sua proximidade com Paris e com as rotas que levavam diretamente à fronteira alemã, a retirada foi marcada por combates velozes, pânico nazista e uma corrida frenética dos americanos para salvar o estoque de borbulhas mais famoso do mundo.
A região de Champagne foi libertada pelo lendário Terceiro Exército dos Estados Unidos, comandado pelo General George S. Patton. Conhecido por sua tática de blindados ultravelozes, Patton avançou sobre a região de surpresa.
Os alemães, que usavam as estradas de Champagne como rota de fuga em direção à Alemanha, viram-se atropelados. O pânico foi tão grande que as tropas da Wehrmacht abandonaram comboios inteiros carregados de equipamentos, documentos e, claro, caixas de champanhe roubadas que tentavam enviar de última hora para Berlim.
O Weinführer de Champagne, Otto Klaebisch, era odiado pelos produtores locais devido à sua arrogância e às exigências de cotas sufocantes, ele chegou a exigir 400.000 garrafas de champanhe por semana para o esforço de guerra alemão.
Nos dias que antecederam a chegada dos americanos, Klaebisch tentou organizar uma última pilhagem em massa nas grandes Maisons.
No entanto, os operários das vinícolas e os produtores cruzaram os braços e sabotaram a logística de transporte. Sem trens ou caminhões disponíveis e com os tanques de Patton a poucos quilômetros de distância, Klaebisch teve que fugir às pressas para salvar a própria pele, abandonando os registros burocráticos de suas extorsões.
Durante a retirada alemã, os quilômetros de túneis e adegas subterrâneas de giz de Champagne serviram como o refúgio definitivo.
Famílias de vinicultores, líderes da resistência local e até equipes de hospitais inteiros se esconderam no subsolo para fugir dos bombardeios e dos tiros de retaguarda dos alemães em fuga.
Quando os soldados americanos entraram em Reims e Épernay entre 28 e 30 de agosto de 1944, foram recebidos por uma população que emergia debaixo da terra, trazendo garrafas das safras históricas que haviam passado os últimos quatro anos escondidas atrás de paredes falsas.
Após a retirada e a progressão da guerra, o General Dwight D. Eisenhower instalou o Quartel-General Supremo das Forças Aliadas (SHAEF) exatamente na cidade de Reims, no coração de Champagne, em uma escola técnica perto da estação ferroviária.
Foi exatamente ali, naquela sala de mapas em Reims, que os generais alemães assinaram a rendição incondicional da Alemanha em 7 de maio de 1945, colocando um fim à Segunda Guerra Mundial na Europa.
Consta nos relatos históricos que, minutos após a assinatura do documento, Eisenhower e os comandantes aliados celebraram a vitória estourando garrafas de um legítimo champanhe francês.
Essa história fascinante de coragem e astúcia mostra que, para os franceses, defender seus vinhedos não era apenas proteger um negócio, mas salvaguardar a própria alma e identidade da França.
Um brinde!!!
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
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