Por Telma Elorza
O agronegócio faz parte de Londrina desde sua criação. Fortaleceu e fez crescer a cidade. É uma das áreas que trazem grandes dividendos para a cidade, que é um polo de produção de tecnologia voltada para o setor. Com a Embrapa Soja e os hubs de inovação, como o Cocriagro, um dos maiores polos agtech do país, Londrina se destaca.
Mas basta sair do asfalto urbano e pegar o rumo dos distritos, que a gente vê que a realidade é bem outra. Toda inovação e tecnologias para melhoria de produtividade do agro se perde nos cerca de 900 km de estradas rurais do Município. Ali, num estado de abandono crônico, remendado às pressas sempre que a chuva escancara o problema, vemos que a inovação passa longe.
Em janeiro de 2025, a administração municipal declarou situação de emergência e admitiu, sem rodeios que, pelo menos, metade dessa malha rural estava em situação calamitosa. Em fevereiro de 2026, anunciou um pacote de R$ 77 milhões para pavimentar cerca de 70 km de cinco estradas rurais/distritais que ainda são de cascalhos; mais R$4,9 milhões para recuperação de vias nos assentamentos Eli Vive I e II; e outros R$8,5 milhões em maquinário para manutenção de toda a zona rural (tá lá, no Blog Londrina, o blog da prefeitura). Em junho de 2026, continua tudo igual ao que estava em 2025. Parece que compraram algumas máquinas. E só. Nenhuma notícia de início de obras.
No entanto, as notícias dos últimos meses continuam mostrando o mesmo roteiro: moradores, produtores e lideranças rurais denunciando buracos, afundamentos, trechos intransitáveis, riscos de acidentes e promessas que se arrastam. Em plena colheita do milho safrinha, nada, necas de pitibiriba, em termos de melhorais nas estradas rurais.
Londrina já está cansada de viver nesse lógica do “agora vai”. Vai para onde? Porque, o que se se vê, é uma zona rural forte e produtiva obrigada a conviver com estradas em péssimas condições de tráfego eternamente.
Nem o reparo dos 70 km anunciados – apenas 8% da malha total – começou. Ou você acha que o Blog Londrina não anunciaria com pompa e circunstância se as máquinas compradas já estivessem trabalhando nos 17 trechos prioritários – segundo a definição da própria Prefeitura?
O agro londrinense está atolado (literalmente) nos problemas de infraestrutura e logística. A precariedade das estradas rurais afeta diretamente o escoamento da produção agrícola – com perdas consideráveis para o produtor – e para a economia da cidade. Mas também afeta quem precisa de transporte escolar e o acesso a serviços de saúde. Imagina uma ambulância precisando chegar a um sítio em a estrada está péssima?
As queixas se repetem ano a ano. O prejuízo geral é óbvio. Mas vale insistir nesse ponto porque Londrina trata a manutenção de suas estradas rurais como um favor que faz, de vez em quando. Mas não é. Deveria ser uma infraestrutura básica da cidade, como a manutenção do asfalto na área urbana. Deveria estar no planejamento e no orçamento anual a recuperação de vários trechos rurais.

Estrada ruim = prejuízos
Estrada ruim significa caminhão quebrado, aumento no custo de produção, atraso na entrega da safra, dificuldade para transportar insumos para a nova safra (plantio de soja começa daqui a pouco – aqui, no Norte do Estado, a partir de 1 de setembro), encarecimento do frete e até dos produtos hortifrutigranjeiros para o consumidor.
No fim da cadeia, temos menos competitividade para a produção local. E isso atinge Londrina como um todo, não apenas quem mora e trabalha na área rural. O agro não vira riqueza por milagre. Ele depende da logística, assim como todos os outros setores. A logística começa e acaba no pó ou barro da estrada.
Ah, e só pra lembrar, há ainda um outro prejuízo, o turístico. Londrina tem muitas áreas rurais com potencial para o turismo de experiência, gastronômico, histórico, religioso e de ecoturismo. há ainda um prejuízo de que se fala pouco: o turístico. Há várias regiões, dentro do município, que guardam paisagens deslumbrantes, tradições, festas, produções artesanais e memória cultural que poderiam ser melhor aproveitadas. Mas o turismo não floresce onde o acesso espanta. Não adianta falar em valorizar essas áreas fomentar roteiros, fortalecer o pequeno produtor e atrair visitantes se a estrada vira um desafio e teste de sorte. O turista de fim de semana deixa de aproveitar as maravilhas que Londrina tem e o empreendedor rural não consegue consolidar pousada, café colonial, pesqueiro ou evento se o caminhio até lá é uma aventura radical.
Eu acho que essa discussão sobre estradas rurais é uma discussão mais profunda. Porque se discute o modelo de cidade que queremos. Uma cidade que se orgulha do seu agro – uma força econômica real –, mas que deixa quase metade de suas vias rurais em estado calamitoso. Isso, para mim, significa que Londrina está dizendo com todas as letras que a área rural não é prioritária. Afinal, não dá para fazer selfie e colocar placa de inauguração, né? Mas estrada rural bem cuidada é desenvolvimento, dignidade, segurança e permanência no campo, além de saúde, educação e geração de renda com turismo.
Se Londrina quer mesmo honrar a sua potência regional no agronegócio, precisa ver além da tecnologia e inovação. Precisa garantir o básico para quem produz, mora, estuda e visita o campo.
Foto principal: Imagem gerada por IA
Telma Elorza
É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
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