Por Edmilson Palermo Soares
Encerramos a nossa viagem pelas regiões vinícolas da Argentina, mostrando a região de Luján de Cuyo que é conhecida mundialmente como a “Terra do Malbec”.
É uma das regiões vinícolas mais prestigiadas do país vizinho. Localizada na província de Mendoza, a 200 km da cidade de Mendoza, está aos pés da Cordilheira dos Andes, combinando tradição histórica com tecnologia de ponta.
O clima é desértico, com baixa pluviosidade, o que torna o sistema de irrigação por canais, herdado dos povos indígenas Huarpes, vital para a sobrevivência das vinhas.

A grande amplitude térmica (diferença de temperatura entre dia e noite) permite que as uvas amadureçam lentamente, concentrando açúcares e mantendo a acidez natural.
A história vitivinícola de Luján de Cuyo remonta ao século XIX, mas o marco divisório ocorreu em 1989, quando foi criada a primeira Denominação de Origem Controlada (DOC) da Argentina e da América do Sul para o Malbec.
Este reconhecimento foi fundamental para estabelecer padrões de qualidade e proteger a identidade dos vinhos da região, garantindo que vinhos estruturados, com taninos doces e grande potencial de guarda fossem reconhecidos globalmente.
Luján de Cuyo é dividida em distritos que possuem microclimas específicos:
- Agrelo: Famosa pelos solos mais profundos e argilosos, onde o Malbec se torna mais robusto e intenso.
- Vistalba: Localizada em uma zona de transição, produz vinhos com grande elegância e complexidade aromática.
- Las Compuertas: Uma das áreas mais históricas, com vinhedos muito antigos (alguns com mais de 100 anos) situados na parte mais alta de Luján.
- Perdriel: Conhecida por vinhos com excelente estrutura mineral e frescor.
Embora o Malbec seja o protagonista absoluto, o terroir de Luján de Cuyo é versátil devido à sua altitude entre 800 e 1.100 metros e solo aluvial.
As principais uvas da região são:
- Malbec: Aqui, ele atinge uma expressão clássica, com notas de frutas vermelhas maduras (ameixa, cereja), violetas e uma textura aveludada característica;
- Cabernet Sauvignon: Produz vinhos estruturados e elegantes, muitas vezes utilizados em cortes (blends) de alta gama;
- Bonarda: A segunda uva tinta mais plantada, oferecendo frescor e muita cor;
- Chardonnay e Semillón: Entre as brancas, destacam-se pela boa acidez e corpo, especialmente em zonas mais altas como Agrelo.
As características técnicas dos vinhos de Luján de Cuyo, especialmente sob a regulamentação da DOC, seguem padrões rigorosos que garantem a identidade do “estilo clássico” de Mendoza.

Para que um vinho estampe o selo de DOC no rótulo, ele precisa cumprir requisitos específicos estabelecidos pelo Conselho:
- Composição: Deve conter no mínimo 85% de uvas Malbec. Os 15% restantes podem ser de variedades autorizadas (como Cabernet Sauvignon ou Merlot).
- Envelhecimento: Mínimo de 24 meses entre a colheita e a comercialização, sendo, pelo menos, 12 meses em barricas de carvalho (geralmente francês);
- Origem: As uvas devem ser obrigatoriamente cultivadas dentro dos limites geográficos de Luján;
- Rendimento: Existe um limite de produção por hectare para garantir a concentração de nutrientes e sabores na uva (máximo de 10 toneladas por hectare).
A estrutura técnica do vinhedo influencia diretamente o resultado:
- Solo Aluvial: Composto por camadas de argila, areia e pedras redondas (seixos rolados). A argila em áreas como Agrelo retém um pouco mais de umidade, resultando em vinhos mais estruturados;
- Amplitude Térmica: A variação de temperatura entre o dia (30°C) e a noite (10°C a 15°C) preserva a acidez natural da uva, essencial para o equilíbrio do vinho.
- Sistema de Irrigação: Uso intensivo da irrigação superficial (por inundação com água do degelo dos Andes) em vinhedos antigos, ou irrigação por gotejamento em projetos novos, controlando o estresse hídrico da planta.
Tecnicamente, o vinho de Luján de Cuyo se diferencia de outras regiões (como o Vale do Uco) pelos seguintes aspectos:
- Taninos: São reconhecidos como os mais doces e sedosos da Argentina. Isso ocorre devido ao amadurecimento pleno da uva em altitudes moderadas, entre 800m a 1.100m;
- Cor: Rubi profundo com reflexos violáceos intensos;
- Aroma: Predomínio de frutas vermelhas e negras maduras (ameixa, cereja preta) e uma nota floral de violetas muito marcada;
- Corpo: São vinhos de corpo médio a encorpado, com excelente volume de boca e final persistente.
Normalmente os vinhos têm álcool entre 14% e 15%, acidez total moderada a baixa e vinhos mais macios ao paladar.
Compare a região de Luján de Cuyo com a região do Vale do Uco:
- Altitude:
- Luján – 800 a 1100 m
- Uco – 1.100 a 1.500m
- Perfil de fruta:
- Luján: fruta madura, doce, geleia
- Uco: fruta fresca, ácida, mineral
- Taninos:
- Luján: redondos e aveludados
- Uco: firmes e reativos
- Estilo:
- Luján: clássico e estruturado
- Uco: moderno e vibrante
A região abriga desde vinícolas centenárias até projetos modernos e arquitetônicos.
- Vinícola Catena Zapata: Pioneira na pesquisa de solos e altitudes; sua pirâmide em Agrelo é um ícone.
- Bodega Norton: Uma das mais tradicionais, com forte presença histórica e vinhos clássicos.
- Lagarde: Mantém métodos tradicionais e possui vinhedos plantados desde 1906.
- Casarena: Focada na exploração Vinhedos Únicos nos diferentes distritos de Luján.
- Achaval-Ferrer: Conhecida por produzir Malbecs de vinhas velhas com intervenção mínima.
Um brinde a novas experiencias! Mas só vale se for vinhos originais. Ainda vamos falar sobre isso.
Foto principal: WinesofArgentina
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral.
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