Ser mulher na cidade é não relaxar um segundo

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Por Ana Paula Barcellos

Tem algumas semanas que venho tentando reclamar menos e me permitir celebrar o que há de bom nesta cidade que acolhe e desafia. No último sábado, decidi bater perna pelo centro, programa que já foi dos meus passatempos favoritos, era quase um ritual.

Comecei pelo calçadão, onde o movimento já estava animado desde cedo. O som foi me levando: um pagode animado de um lado, música ao vivo de outro, e no meio do caminho rolava Michael Jackson. Uma trilha sonora improvisada que me fez esquecer, por instantes, os problemas ao redor.

Andar a pé pelo centro tem sido uma redescoberta. Gosto de observar as pessoas, os detalhes nas vitrines e até o caos organizado das ruas. Mesmo com a sujeira acumulada em alguns cantos, a feiura de prédios malconservados e o abandono que a prefeitura parece fingir não ver, há uma vitalidade que me atrai.

Me dá o mesmo tipo de barato quando vou à feira e encontro novidades que me animam: frutas frescas, artesanato e aquele cheiro de comida que me faz desacelerar por um instante. Isso sem contar os fins de semana em Londrina, que estão cada vez mais culturalmente agitados, com eventos, shows e feiras que enchem a cidade.

Nunca mais reclamei de um fim de semana morto, pode reparar, agora só lamento não conseguir acompanhar tudo. Mas, por mais que eu queira me perder na leveza desses momentos, não dá pra ignorar a dura realidade que me atinge como mulher nesta cidade.

Ser mulher em Londrina, assim como em qualquer outra cidade, é carregar um peso invisível, uma mistura de medo e resiliência. Notícias como a do assédio no ônibus 505, me trazem de volta à terra rapidinho. Pois um homem de 46 anos foi preso em flagrante, por importunar sexualmente uma passageira de 27 anos.

Ser mulher em Londrina, assim como em qualquer outra cidade, é carregar um peso invisível, uma mistura de medo e resiliência.

Segundo a Polícia Civil (PC), ele se encostou por trás da vítima e tocou suas nádegas por cima da roupa. Testemunhas contaram que, ao ser repreendido, o suspeito recolheu o órgão genital para dentro da bermuda.

Ele foi cercado por outros passageiros, para impedir a fuga. A ação rápida da população foi um alento, e ele foi detido. Ainda assim, essa não foi a primeira vez dele, e tantos outros abusadores continuam soltos, agindo livremente enquanto nós, mulheres, nos movemos pelas ruas com medo e desconfiança.

Os números reforçam essa sensação de insegurança. Dados recentes de 2024 apontam que as denúncias de assédio em transportes públicos no Paraná subiram 15% em relação a 2023, com muitos casos ainda subnotificados por medo ou falta de apoio. Em Londrina, os relatos de assédio em ônibus e terminais são frequentes, e a sensação de vulnerabilidade só aumenta.

Hostilidade estrutural da cidade

Essa violência não é um acidente – ela é estrutural. A hostilidade da cidade para com as mulheres é, na verdade, a hostilidade dos homens. Se os tirássemos da equação, o que restaria pra temer? As rachaduras nas calçadas? A sujeira das ruas? Sem a violência masculina, as cidades poderiam ser apenas um lugar imperfeito, mas não ameaçador.

Ser mulher na cidade é muito difícil. É ter que calcular com cuidado cada caminho, não poder se distrair num simples passeio, no trajeto que faz pro trabalho. É pedir um carro por aplicativo para não andar a pé duas quadras, de madrugada, de repente trocando um risco por outro. É carregar o peso de saber que, a qualquer momento, pode se deparar com uma situação como a do ônibus 505.

Até aqui, a cidade ainda é inimiga das mulheres. É um reflexo dos que a habitam, e enquanto os homens não mudarem, o medo continuará a fazer parte da nossa caminhada. Que chegue logo o dia em que eu possa andar sem olhar por cima do ombro – até lá, sigo revezando: celebrando o que dá pra salvar e, sim, reclamando e denunciando o que precisa mudar.

Fotos: Freepik

Ana Paula Barcellos

A segunda-feira impõe, em Londrina, um ritmo totalmente diferente dos outros dias. Um ritmo estranho, quase em câmera lenta

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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