O Calçadão

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Por Ana Paula Barcellos

Quem pensa que o Calçadão é só um corredor de gente apressada, de cabeça baixa e passo rápido, nunca vai entender que cidades são feitas de histórias vivas. Londrina já teve seu coração pulsando ali, naquele chão de pedrinhas irregulares onde ninguém simplesmente passava. Era o lugar dos encontros, das risadas coladas no café da manhã, das conversas que as pedras ainda guardam. O Calçadão não era apenas o Centro, era o coração da cidade.

Naquela época boa, os quiosques pareciam viviam cheios de mesa balançando, cheiro de café fresco, casais de mãos dadas e amigos contando piada até a madrugada. O petit pavé, aquele mosaico de pedras, não era só piso — era identidade. Mostrava o rosto de uma cidade que sabia ser plural: artista, trabalhador, vendedor, poeta, tudo junto sob o mesmo sol. De noite, as luzes dos postes desenhavam sombras no chão, e o Calçadão ficava acordado, protegendo os sonhos que a galera deixava por lá até o dia clarear.

O Calçadão já foi o coração de Londrina. Depois apagaram o local e se tornou só um corredor de gente apressada. Agora estão falando em modernizar. Mas modernizar não é jogar cinza em cima do que já foi colorido
Foto: Londrina Histórica

Mas aí veio o tal “progresso” mal entendido. Chegaram com escovas, tiraram as cores, arrancaram os quiosques feito capim ruim, trocaram o chão por uma coisa lisa e sem graça. O Centro virou um fantasma de si mesmo. O que era casa virou passarela. De noite, o silêncio pesa, e o medo — aquele que adora lugar vazio — foi se enfiando nos cantos.

Modernizar o Calçadão

Foto: FourSquare

Agora, olhando pro que sobrou, tem gente falando em modernizar. Mas modernizar não é jogar cinza em cima do que já foi colorido, deixar tudo reto e sem graça. Vanguarda mesmo é escutar o passado. A nova lei que permite mesas nas calçadas pode ter sido o primeiro passo pra recosturar esse tecido. Imagina: quiosques voltando, não como cópias, mas como coisa nova. O chão de pedrinhas, contando de novo suas histórias. Mesas que não são só pra apoiar o copo, mas pra conectar gente.

Refazer o Calçadão não é frescura de saudosista — é respeito. Cidades precisam da memória pra construir amanhã. Não é repetir o passado, é deixar o que sempre viveu ali renascer, de outro jeito. Tem que ter coragem pra admitir que, às vezes, andar pra frente é olhar pra trás. O coração de Londrina ainda bate, mesmo fraquinho, debaixo do asfalto.

Recuperar um lugar é devolver a confiança. E Londrina, essa senhora quase centenária, merece mais que estátua: merece se enxergar de novo no espelho.

Foto principal: Arquivo/Prefeitura de Londrina

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

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