Por Telma Elorza
“Estou triste e infeliz com meu casamento, de 10 anos, e penso em me separar. Mas tenho dois filhos, de sete e cinco anos, e meu marido diz que, se nos divorciarmos, ele nunca vai pagar pensão e não vai querer saber dos filhos. Mas não consigo mais viver assim, ele me ignora (não temos relações há pelo menos um ano) e deixa todo o serviço de casa e cuidados com os meninos nas minhas costas, mesmo eu trabalhando o tanto quanto ele fora de casa. Não tenho rede de apoio perto, minha família inteira mora no Nordeste e não sei o que fazer. O que você acha? Devo me arriscar sozinha ou suporto tudo isso até meus filhos serem maiores?”
Bom, vamos lá amiga. Pelo que você contou, não é “só” uma crise no casamento, é uma situação de abandona afetivo e sobrecarga emocional que já vem de muito tempo. E vou ser bem direta: separa já, não fica esperando os filhos crescerem (calma, já explico o que você pode fazer). Ninguém merece viver ignorada, sobrecarregada, ameaçada e infeliz.
Você não está pedindo luxo ou romance de filme, apenas o básico: respeito, parceria e presença. Isso está obviamente faltando faz tempo. Ele que apenas uma empregada que satisfaça suas necessidades básicas: casa limpa, roupa lavada, comida pronta, sem contribuir com nada e com as despesas divididas. O melhor dos mundos para um homem folgado e canalha.
Agora vou falar da parte prática, porque tem muito homem que acha que pode falar o que quer e que a gente vai engolir. Essa história de “não vou pagar pensão” não existe. Não é um favor que ele faz, é um direito dos seus filhos garantido por lei. Não é ele que decide se paga ou não. Quem decide é a Justiça!
Então, o primeiro passo é procurar um advogado. Se não puder pagar, vá para a Defensoria Pública da sua cidade. Se não houver uma Defensoria Pública estruturada, busque a OAB da sua cidade (onde tem advogados, deve ter uma OAB), que eles fazem esse papel. Eles vão orientar sobre o processo de separação, guarda e pensão alimentícia.
A Defensoria Pública existe exatamente para casos como o seu: quando há desigualdade de força na relação e a mulher não tem rede de apoio ou condições financeiras para bancar advogado particular. E vou reforçar: não é porque ele “disse” que não vai pagar que você tem que aceitar. Pensão é obrigação legal e quem não paga pode ser até preso.
Outra coisa: ele também não pode simplesmente “decidir” que não vai ver os filhos. A convivência é um direito das crianças. Se ele resolver sumir, é problema dele, mas isso não diminui o valor da pensão nem tira os deveres dele como pai. Ah, e saiba que o abandono afetivo de um pai por seus filhos por gerar até indenização por danos morais.
Veja esse artigo da Defensoria Pública do Ceará, por exemplo. Além disso, quando os filhos forem maiores, podem romper judicialmente os vínculos com o pai que os abandonou. Aliás, essa é uma medida interessante para evitar, depois, que um pai safado venha cobrar que os filhos o ampare financeiramente na velhice, como a gente vê muitos casos por aí. Melhor deixar esse infeliz sem essa possibilidade também.
Infeliz, mas ainda pode ter esperanças
Agora, vamos para o emocional. Você está infeliz, vivendo há um ano sem intimidade com seu marido, como se fosse invisível dentro de casa, acumulando jornada dupla (ou tripla) e ainda ouvindo ameaça velada. Isso não é casamento, é prisão. E pior: é uma prisão emocional que mina a autoestima e deixa a gente achando que “talvez seja melhor aguentar” para não mexer com a vida dos filhos.
Eu entendo que você pense nos meninos primeiro – quase toda mãe faz isso. Mas vou dizer: crescer num ambiente em que a mãe está infeliz, triste e sendo maltratada também afeta as crianças. Eles percebem, mesmo que ninguém fale. Eles aprendem pelo exemplo. E se o exemplo que veem é o de uma mãe que se anula e aceita tudo, é isso que eles podem levar para os relacionamentos deles no futuro.
Sair não vai ser fácil. Você mesma já falou que não tem rede de apoio por perto e que trabalha tanto quanto ele. Então, é importante planejar. Não é sair amanhã com a mala na mão, mas começar a se preparar. Então comece com isso:
- Procure orientação jurídica o quanto antes.
- Veja se consegue juntar algum dinheiro, mesmo que seja pouquinho, para emergências.
- Converse com amigas ou colegas de confiança, porque às vezes o apoio vem de onde a gente menos espera.
- Pesquise benefícios sociais, programas de auxílio e creches públicas que possam facilitar sua vida no começo.
- Analise a possibilidade de voltar a morar perto da sua família. Logicamente, veja se há oportunidades de trabalho por lá, estude prós e contras.
Se o medo é “ficar sozinha”, saiba que sozinha você já está: ele não divide nada com você e não lhe dá suporte nem no básico. A diferença é que, separada, pelo menos você para de carregar o peso emocional de sustentar um casamento morto.
Outra dica: não entre em discussões com ele sobre separação sem ter o respaldo de um advogado. Quanto menos ele souber dos seus planos, melhor. Tem muito homem que, quando percebe que a mulher está decidida, começa a manipular ou ameaçar ainda mais. Então, jogue na estratégia: enquanto você se informa, mantém a calma e continua sua vida, como se nada estivesse acontecendo.
Mas tome algumas providências, como criar uma nova conta em banco, mudar suas senhas das redes sociais, e-mails e tudo mais que puder, organizar seus documentos – certidão de casamento e de nascimento dos filhos, documentos pessoais seus e das crianças-, tirar cópias digitais de registro de imóveis, veículos e contas em conjunto; extratos bancários, holerites e qualquer prova de renda dele e sua. Salve tudo em e-mail que ele não tenha acesso. Tudo isso vai ajudar mais para frente.
E não caia na armadilha do “vou esperar os filhos crescerem”. Dez anos é muito tempo para viver infeliz, e não existe garantia nenhuma de que, lá na frente, as coisas estarão mais fáceis. Pelo contrário, quanto mais tempo você deixar passar, mais infeliz você estará e mais difícil pode ficar reconstruir sua vida. E não, principalmente, não se culpe por querer sair de um relacionamento assim. Você não está destruindo a família, você está tentando salvar a si mesma e dar um ambiente mais saudável para seus meninos crescerem forte.
Seu maior desafio agora não é “ficar sozinha”, é dar os primeiros passos para sair de uma vida em que você já é deixada sozinha todos os dias. E pode acreditar: depois da tempestade, vem a calmaria. Deixe de ser infeliz e aja!
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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