Por Ana Paula Barcellos
Londrina, 2025, população em situação de rua: Quatro mil, cento e quinze pessoas. Era o que a Secretaria de Assistência Social dizia: 4.115 pessoas em situação de rua contabilizadas até 30 de outubro de 2024. Mulheres, homens, 42 pessoas trans, vidas contadas como quem faz inventário de um armazém. A notícia veio em relatório oficial, após solicitação de informe por uma vereadora.
Mas eis que, na quinta-feira, 12 de junho, a mesma Secretaria mudou o resultado da contagem. Em coletiva à imprensa, anunciou que Londrina teria, de fato, 932 pessoas em situação de rua. Um salto para trás, um alívio forçado, como se 3.000 almas tivessem evaporado das calçadas. Confusão armada: Será que os abrigos, com suas 300 vagas, fizeram milagre, mágica? Ou será que as políticas públicas, insuficientes, de repente foram multiplicadas e beneficiaram geral?
No balcão da padaria, Seu Alair, que passa os dias contando histórias e atualizando sobre as notícias, riu com desdém. “Contagem de gente não é como contar café em grão, minha filha. Uma hora somam, outra hora tiram, mas a rua continua aí, cheia de gente pedindo um pão, um trocado.” Ele tem razão. Andar pela ruas de Londrina é dar de cara com rostos que não somem com relatórios alterados. A realidade é mais dura que os números: menos de 300 vagas e as escassas políticas vigentes não explicam o sumiço de 3.000 pessoas em poucos meses.

Assistência mágica?
Londrina carrega nas ruas a marca do descaso. E ainda querem proibir distribuição de alimentos para pessoas em situação de rua! O poder público não toma as rédeas da situação e querem bater o pé que ninguém mais pode ajudar. Que comam do lixo! Dia desses passei na praça Tomi Nakagawa, onde crianças brincavam enquanto, a poucos metros, uma pessoa buscava sobras no lixo. Esse é um contraste que não se resolve com planilhas manipuladas. A Secretaria pode ter mentido para a Câmara, para a imprensa? A gente quer saber.
Fiquei pensando nas noites mais frias das últimas semanas, das noites em que eu, em casa, no quentinho, precisei me cobrir com mais uma coberta. 932, 4.115, não estamos falando apenas sobre números. São pessoas, são histórias de vida. E, claro, essa crônica não resolve a questão, apenas registra. E deixa no ar a questão: a vereadora Paula Vicente (ela mais uma vez) trouxe essa disparidade no cálculo à tona, com uma pergunta pertinente: pra quem a Secretaria faz mágica, e por quem?

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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