Sozinha com o pai doente. Até quando?

consultorio-sentimental

Por Telma Elorza

“Cuido sozinha do meu pai que tem Alzheimer. Tenho cinco irmãos, mas nenhum quer ficar com ele. Estou cansada, esgotada e sem recursos. Como posso convencê-los a me ajudar?”

Cuidar de uma pessoa com Alzheimer, pai, mãe, é uma missão pesada e emocionalmente desgastante. É muito comum que a família relegue os cuidados dessa pessoa a um único membro, principalmente se for mulher. Afinal, nós somos as “cuidadoras”, aquelas que abrem mão da vida para se dedicar a ajudar os outros. Mas é preciso uma rede de apoio para a cuidadora. E se essa rede falha, o esgotamento vem junto com a sensação de injustiça. Cinco irmãos e nenhum disposto a ajudar? Isso não é só falta de empatia, é também uma irresponsabilidade que pode e deve ser questionada até no campo legal.

Você não está errada, seu cansaço é legítimo porque ninguém dá conta sozinho de uma missão dessas por muito tempo, sem ter impactos físicos, emocionais e até financeiros. Não é fraqueza admitir isso. Cuidar de alguém com Alzheimer envolver muitas questões, como vigilância 24 horas, medicações, alimentação, banhos, apoio emocional e, claro, lidar com as confusões e perdas de memória que a doença traz. Não é simples nem rápido.

Por que eles não ajudam? Essa pergunta precisa ser feita. Muitas vezes, os irmãos se acomodam porque sabem que “você dá conta”, “você tem jeito para isso”, “você é forte”. Tem os que acham que mandando mensagem ou aparecendo de vez em quando é suficiente. Não é. Isso não é ajuda real, é ausência pura e simples, mascarada de boa intenção.

Para reverter essa situação, é preciso conversar com clareza. Você precisa se posicionar com firmeza, junto aos irmãos. Marque uma conversa com todos (nem que seja por vídeo-chamada) e exponha tudo, explique que está no seu limite e use palavras claras: “preciso de ajuda, não consigo mais sozinha”; “preciso que cada um se responsabilize”. Seja objetiva. Se puder, leve um profissional (médico, assistente social ou até um advogado) nessa reunião para reforçar a seriedade da situação.

E se, mesmo assim, eles recusarem ajuda?

Aí é que entra o lado jurídico da histório.

A Constituição e o Código Civil brasileiro são claros: os cuidados com os pais idosos é dever de todos os filhos. O artigo 229 da Constituição diz que “os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”.

Ou seja, você pode entrar com uma ação judicial pedindo divisão de responsabilidade entre os irmãos, seja no cuidado presencial ou uma pensão para custear cuidadores profissionais, medicamentos e outras despesas. O Judiciário tem sido cada vez mais receptivo a esses pedidos, principalmente em casos como o seu, onde há uma óbvia sobrecarga para uma única pessoa da família.

Se não tiver dinheiro para pagar um advogado especializado em Direito de Família (mesmo assim, pode até negociar honorários para depois da sentença judicial), procure a Defensoria Pública. Em cidades menores, são advogados da seção local da OAB que atuam como defensores públicos.

Meu pai em uma casa de repouso? Nunca!

Esse é um ponto muito delicado para a maioria das pessoas. Ainda há um forte tabu em famílias, onde se acredita que colocar um pai ou mãe numa casa de repouso é abandono e, portanto, isso torna a pessoa ruim. Mas o que acontece é o contrário. Se você já fez tudo que estava ao seu alcance, procurou alternativas, tentou de tudo para dividir cuidados até o esgotamento, a casa de repouso pode ser uma solução para preservar sua saúde física e mental.

Existem instituições sérias, com equipes especializadas em demências, que oferecem os cuiados adequados e atenção integral aos idosos. Não é preciso alimentar culpa por pensar em oferecer o melhor para ele. Se o bem-estar do seu pai depende da sua capacidade de cuidar e ela chegou ao limite, é preciso garantir que ele esteja sendo cuidado em um lugar seguro e com pessoas especializadas, com suporte contínuo.

E, mais uma vez, os custos dessa casa de repouso não devem ser só sua responsabilidade. Os irmãos têm o dever legal de contribuir.

Sua obrigação, sim, mas não esqueça de você

O que você precisa lembrar, no meio disso tudo, é que você também merece cuidados. Você também tem limites, tem sonhos e uma vida pela frente. Cuidar do seu pai é um ato de amor, mas sua vida não pode parar por isso. Em Londrina, há uma entidade que oferece ajuda, o Instituto Não Me Esqueças, que auxilia cuidadores a lembrar disso. Tente uma conversa com eles, quem sabe não podem indicar outros órgãos que fazem o mesmo, talvez um pertinho da sua cidade.

E lembre-se: você não precisa passar por tudo sozinha com o peso do mundo nas suas costas. Vá atrás do que é justo. Até se for preciso acionar a Justiça.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora está cuidando sozinha do pai com Alzheimer. E quer saber como fazer para convencer os irmãos a ajudá-la
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram

Leia mais colunas do Consultório Sentimental da Tia Telma

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse