Por Ana Paula Barcellos
A Câmara Municipal de Londrina aprovou recentemente a criação da Frente Parlamentar Cristã, proposta por vereadores que alegam querer “garantir liberdade religiosa” e “defender princípios cristãos”. À primeira vista, parece nobre. Mas basta um olhar crítico para perceber o que está por trás: mais uma tentativa de institucionalizar privilégios a um grupo que já domina espaços de poder, violando o Estado laico e ignorando a pluralidade religiosa do Brasil.
Criar frentes parlamentares custa caro. Cada projeto de lei proposto envolve despesas com assessoria, divulgação e votação — recursos que deveriam servir a todos, não a um grupo específico. Além disso, a própria existência dessa Frente é inconstitucional. O Estado não pode financiar ações que privilegiem uma religião, ou grupos religiosos, sob o risco de ferir o Artigo 19 da Constituição, que veta “alianças” com cultos religiosos.
Liberdade religiosa já existe — mas só para alguns?
A Constituição Federal, em seu Artigo 5º, garante a liberdade de crença e assegura que nenhuma religião terá preferência estatal. Por que, então, criar uma frente parlamentar exclusiva para uma única fé? A resposta é óbvia: não se trata de proteger direitos, mas de consolidar hegemonias. Cristianismo, especialmente o catolicismo e o neopentecostalismo, já goza de inúmeros privilégios: isenções fiscais, horário nobre na mídia, influência em políticas públicas e até currículos escolares com viés religioso. Enquanto isso, religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, enfrentam perseguição estrutural.

Os proponentes da Frente falam em “perseguição”. Mas onde estão os dados? E eu digo dados do Brasil, qualquer coisa além disso é mau caratismo e desonestidade intelectual. Quantas igrejas cristãs foram depredadas no último ano? Quantos fiéis foram mortos por sua fé? Não há registros sistemáticos de violência anticristã no Brasil. Em contraste, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) registrou 1.159 denúncias de intolerância religiosa em 2022 — 90% delas contra religiões afro-brasileiras.
Terreiros são invadidos, imagens sagradas destruídas, mães e pais de santo agredidos. Temos um exemplo aqui mesmo: o congá Cantinho do Pai João, referência umbandista de Londrina e região, foi alvo de vandalismo na madrugada do último dia 26. Na fachada do terreiro foram pichados textos bíblicos dos livros de Levítico e Apocalipse.
Enquanto cristãos ostentam crucifixos sem medo, umbandistas como eu sofrem discriminação por levar suas guias no pescoço – inclusive já cancelaram minha corrida de aplicativo ao ver meu colar de contas. Isso é perseguição. E não é teórica: é diária, visceral. Cristãos não sabem — e muitos não querem saber — o que é ter sua espiritualidade reduzida a “coisa do demônio”.

Fui cristã por 25 anos. Líder, professora, conselheira. Limpei banheiros de igreja, fiz proselitismo. Minha vida espiritual era fácil, socialmente aceita. Há sete anos, descobri meu caminho nos Orixás. A facilidade desapareceu. Virou luta. Luta para não ser chamada de “bruxa”, para não ser discriminada. Se cristãos sofressem 1% do que sofremos, já haveria comoção nacional.
E uma Frente para garantir a liberdade e zelar pelos símbolos de todas as religiões?
Mais assertivo? Pode parecer, mas ainda sem propósito e redundante, uma vez que, como dito, a Constituição já garante isso. E a lei maior do nosso país é soberana! Ou seja, desperdício de dinheiro do contribuinte, mais uma vez.
Lenir de Assis, vereadora que deixa seu cargo para assumir uma cadeira como deputada pelo nosso estado, chegou a protocolar um pedido de emenda para que a Frente represente e proteja os interesses de todas as religiões. Como gesto simbólico, tem seu valor, mas fica assim: criaram uma Frente inconstitucional, o projeto dessa Frente foi aprovado; para deixar a situação “menos pior”, gastou-se mais dinheiro para tentar remendar essa iniciativa absurda.
Ainda que a Frente se torne ampla, esse projeto segue não sendo sobre religião, mas sobre usar o poder público para fortalecer quem já tem força. E enquanto vereadores gastam tempo e dinheiro em projetos sectários, inúteis e em desacordo com a lei, aqueles que realmente precisam de proteção seguem desamparados, terreiros fecham as portas por medo, e crianças aprendem na escola que sua cultura é “folclore”, não espiritualidade.
Eu estou cansada. Cansada como cidadã que paga impostos para ver seu dinheiro sustentar palanque religioso. Cansada como mulher de fé que precisa justificar sua existência. E com apoio jurídico, eu também, como cidadã, buscarei medidas contra esse absurdo total e injustificável — não por revanche, mas por justiça. Porque religião não é moeda de troca política.
Saravá, Axé! Que os Orixás nos lembrem: uma cidade e um país justos só existem quando nenhuma voz é silenciada.
Foto principal: Cantinho do Pai João pichado com versículos bíblicos/crédito: @cantinhodopaijoao

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab
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