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O tempo da cidade não é o tempo do Òrun

Por Ana Paula Barcellos

O tempo da cidade já não é o tempo do relógio, que muito menos é o tempo do Òrun. Essa palavra pequena, que guarda dentro de si um universo inteiro, é uma palavra da língua iorubá que define, na mitologia iorubá, o mundo espiritual. E esse mundo dos espíritos é paralelo ao mundo físico, terreno, o Àiyé. Esses dois mundos são complementares, espelhados: tudo o que existe no Orun existe no Aiê através da dupla existência Òrun-Àiyé.

Viver o sagrado nas religiões de matriz africana é viver imerso também ao Òrun, mundos físico e espiritual se coadunam
Cena da animação Òrun-Àiyé, a criação do mundo. Foto: Divulgação

Viver o sagrado nas religiões de matriz africana (nesse caso, mais especificamente, o Candomblé) é viver imerso e muitas vezes submetido ao tempo espiritual. Como os mundos físico e espiritual se coadunam, incorporam, o véu é fino. Diria que os limites entre um e outro são tênues, mas na verdade eles sequer existem. Esse fato fica mais nítido e forte, claro, durante a realização dos trabalhos e dos rituais realizados nas casas.

Cerimônia do Candomblé. Foto: Toda Matéria

Quando a Fran Camilo (33, jornalista e cineasta que ministrou a oficina de poéticas audiovisuais em terreiros de Londrina a convite do Coletivo Luiza Mahin) iniciou os trabalhos com integrantes do Ilè Egbè Oluweri, a casa se preparava para dias de trabalho intenso. Mesmo com toda a alegria e disposição para abrir as portas para esse projeto, havia o desafio de casar as agendas.

O que o tempo do Òrun determina é destino

Representação do Orun. Foto: Universo Iorubá

Mas como programar algo que não parece estar nos planos espirituais para o momento? A oficina teve início, os encontros iniciais aconteceram, mas o trabalho completo não pôde ser realizado. Havia uma fenda temporal, algo que escapava, deslizava. No tempo em que os filhos de santo estiverem no Ilé, serão mergulhados nesse clima de trabalho espiritual e comunhão, ao som de palmas, com guirlandas e folhas espalhadas pelos cantos, quartinhas d’água e cheiro de pau santo. O ritmo dos atabaques vai ficar cada vez mais intenso, a cadência mais rápida. Nesse momento todo o resto vira poeira.

Encontros são preciosos, um encontro como esses também é sagrado. O tempo espiritual dita os encontros. Tempo esse que me lembra da máxima de algumas correntes da Física, que defende (aqui, de maneira bem simplista) que passado, presente e futuro existem e acontecem ao mesmo tempo. E, claro, o tempo do relógio é mesmo construção social, já sabemos.

Essa experiência nos fez lembrar que é preciso não apenas respeitar o tempo das coisas, mas preciso respirar o tempo, viver o tempo como ele se coloca, como ele se propõe, sem condições, limitações. Para então compreendê-lo melhor e aceitá-lo.

Foto: Flickr Renato Alves

Já experimentou sair para uma longa caminhada sem celular (ou relógio), bater perna no calçadão e só parar para um café num cantinho desses do centro? Já experimentou sentar num banco, repassar sua vida toda, revisar todos os planos, as metas, os sonhos, rir e chorar, lembrar que precisa passar no mercado para comprar pão, olhar as horas e perceber que se passaram “apenas 20 minutos?”.

Fran Camilo. Foto: acervo pessoal

O tempo da cidade não é o tempo do relógio, muito menos o tempo do Òrun.

*A Oficina de Poéticas Audiovisuais para mulheres de terreiros londrinenses foi ministrada em 2023 por Fran Camilo com mediação de Fiama Heloisa e Ana Paula Barcellos, e foi uma atividade integrada ao projeto “Àjodún das Pretas: Mulheres, Olhares, Lugares” realizado pelo coletivo londrinense Luiza Mahin – LuMah, com apoio e recursos do PROMIC – Programa Municipal de Incentivo à Cultura.

Os belos registros resultantes dessa oficina estão sendo editados e serão disponibilizados para o público em breve

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

Foto principal: Freepik

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

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