Faz sentido ter Londrina como município turístico?

Propostas do PDUI para a Região Metropolitana de Londrina serão conhecidas dia 29 de novembro -

Por Ana Paula Barcellos

Nossa querida Londrina, há alguns dias, foi crismada como “Município Turístico” pelo Ministério do Turismo. Sim, você leu direito. Agora somos oficiais, com selo e tudo, parte de uma rede prioritária que promete rios de recursos públicos e políticas que, quem sabe, um dia cheguem a molhar as margens do nosso Igapó. É como se o governo dissesse: “Parabéns, vocês existem no mapa do turismo!”. E eu, coitada, fico me perguntando: mapa? Que mapa é esse, se nem no Waze a gente acha um calçadão decente para passear?

Não me entenda mal. Eu aplaudo o esforço. Afinal, em um estado como o Paraná, onde Foz do Iguaçu e Curitiba reinam como rainhas do turismo, Londrina sempre foi aquela prima quietinha, a que serve café forte mas não sabe dançar forró. Ser reconhecida assim é também um passo, um empurrãozinho para o desenvolvimento econômico e social, como bem pontuou Samara Headley, presidente da Adetur (Agência de Desenvolvimento Turístico da Região Norte do Paraná). Ela explica que essa entrada no Mapa do Turismo para 2025, regulamentada pela Portaria 9/2025, abre portas para investimentos, fortalece a economia local e organiza o setor. É um instrumento estratégico, não só um selinho de aprovação. E, olha, em tempos de crise, qualquer porta que se abra é bem-vinda – especialmente se for para captar verbas que elevem a qualidade da experiência do visitante.

Mas aí vem a parte estranha. Como assim, Londrina turística? Quando foi que viramos ponto de parada obrigatória no roteiro do turista médio? Minhas pequenas férias, por aqui, são sempre um suplício. Já falei da saga de encontrar um lazer que não envolvesse shopping ou um piquenique improvisado no gramado seco do lago. A cidade tem potencial, mas não cuidam nem do cartão-postal que é justamente o Lago Igapó. Esse espelho d’água que poderia ser mesmo um atrativo, mas que, na real, parece mais um quadro de Monet em dia de ressaca. Água turva, lixo boiando como relíquias esquecidas, e uma manutenção que é mais fantasma do que presente. Turista que chega e vê aquilo pensa: “É aqui que eu tiro selfie ou chamo os bombeiros?”

Londrina foi crismada como Município Turístico, com selo e tudo. A cidade pode ter potencial, mas como atrair turistas se não cuidam nem do seu cartão-postal?
Bosque de Londrina há algum tempo atrás – Foto: Vivan Honorato/N.COM

Londrina e seu falta de estrutura turística

Estrutura turística? Falta de tudo em Londrina: desde um site com informações turísticas, hotéis boutique que não parecem motel disfarçado, uma terma com pousada, parques realmente atrativos e em boas condições e com atrações, roteiros guiados que vão além do “olha a casa do influencer tal, olha o bosque ali”, e opções de comida que não sejam rodízio e restaurante pseudo-gourmet. É como convidar alguém pra jantar e servir miojo requentado.

E não para por aí. Enquanto o selo turístico brilha no horizonte, o Aeroporto Governador José Richa – que já foi até orgulho local, agora sinônimo de “voo cancelado de novo?” – afunda em números. Apesar dos R$ 500 milhões investidos em infraestrutura, o terminal enfrenta uma queda de quase 12% no número de passageiros e mais de 60% na movimentação de aeronaves entre janeiro e julho de 2025, segundo a Motiva, a concessionária responsável.

O que isso significa pro turismo? Simples: menos voos regionais, menos gente chegando pra gastar no nosso “potencial turístico”. Líderes políticos e representantes do setor produtivo de Londrina cobram soluções urgentes das companhias aéreas – ampliar a oferta de voos, evitar prejuízos ao desenvolvimento econômico da cidade. Porque, convenhamos, de que adianta ser “Município Turístico” se o turista não consegue pousar aqui sem rezar três Ave-Marias pro santo da aviação?

O selo do Ministério é um começo, mas precisamos de mais que papéis – precisamos de ação. Limpar o Igapó até que ele reflita o sol poente sem culpa, atrair voos, e criar lazer que faça o morador se sentir turista na própria casa. Quem sabe, assim, um dia o visitante chegue, olhe ao redor e diga: “Uau, que lugar que é Londrina!”. E nós, os londrinenses, possamos usufruir também.

Foto principal: Rafael Bastos/Arquivo O LONDRINE̅NSE

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

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Uma resposta

  1. Londrina nasceu para ser polo artístico! Se fizessem direito! Dái simm..mas do jeito que estamos , logo teremos uma fogueira aonde as pessoas jogarão seus livros e farão o sinal do terceiro Reich, então não! Não tem lógica esse selo!

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