Quero me emancipar

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Por Telma Elorza

“Tenho 16 anos e queria saber como fazer para me emancipar. Para você entender porque me ajudar, vou resumir minha história. Mas começo garantindo: não sou bem-vinda em minha família imediata. Sempre fui relegada a segundo plano. Meus pais só pensam/ajudam/protegem o meu irmão mais velho, que, com 20 anos, não trabalha, não estuda e só vive em farras. Eu, por minha vez, trabalho em casa desde que me lembro por gente e, com 14 anos, fui obrigada a ser menor aprendiz, tendo que dar todo o valor do meu estágio para meus pais. Não posso fazer nada, nem sair com minhas amigas, porque eles não deixam. Não quero esperar ter 18 anos para sair de casa. Há algo que posso fazer para me emancipar agora?

Poxa, querida, que situação. Só pra você saber: os pais dizem que não têm filhos favoritos, mas têm sim. Eles não querem é ver isso. Eles justificam a preferência como “ah, mas seu(irmã) precisa mais de nós. Você é forte, pode se virar”. E a vida segue, com alguns traumas. Mas até aí estaria tudo bem, desde que isso não prejudique os demais filhos. Não é o seu caso, pelo visto. Mas acho que posso ajudar com seu pedido e você pode tentar se emancipar, sim, mesmo que seus pais não queiram.

Mas, primeiro, vamos falar de algo urgente: denunciar essa negligência aos órgãos certos. Seus pais estão a relegando, a forçando a trabalhar e a isolando das amigas? Isso é violação de direitos, tipo negligência emocional e exploração. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que é a lei que ampara crianças e adolescentes de 0 a 18 anos, proíbe qualquer forma de negligência ou opressão contra adolescentes. No Artigo 5º do ECA, está claro: ninguém pode tratá-la assim e quem faz (por ação ou omissão) leva punição. E o Conselho Tutelar? É tipo o “guarda-costas” das meninas como você. Eles recebem denúncias de maus-tratos, negligência familiar ou qualquer ameaça aos seus direitos, e agem rápido pra protegê-la.

Pode denunciar seus pais, sim! E até de forma anônima, se você quiser, para não dar treta em casa logo de cara. Como faz? Liga pro Disque 100 (é grátis, 24h, todo dia, inclusive feriados) e conta tudo: a preferência pelo irmão, o dinheiro que a obrigam a dar, a proibição de sair. Ou vai direto no Conselho Tutelar da sua cidade – procura o endereço no site da prefeitura ou no Google com “Conselho Tutelar [sua cidade]”. Leva um amigo de confiança ou um parente que já saiba da situação para lhe dar apoio.

O que rola depois? Eles investigam, conversam com a família e podem aplicar medidas de proteção, como orientação aos pais, apoio psicológico pra você ou até acolhimento temporário se a coisa apertar (mas priorizam manter você em casa, desde que haja mudanças). No Artigo 13 do ECA, qualquer suspeita de maus-tratos tem que ir para o Conselho na hora, e profissionais (tipo da escola ou do estágio) são obrigados a denunciar. Não é “traição” à família, é para se salvar. Muita menina na sua situação já virou o jogo assim – vira estatística de sucesso, não de sofrimento.

Aos 16 anos é possível, sim, se emancipar

Agora, o que você mais quer: se emancipar. Aos 16, não é sonho, é real! Pelo Código Civil (Lei 10.406/2002), a menoridade acaba aos 18, mas você pode se emancipar antes por concessão dos pais ou via juiz. O jeito mais simples é seus pais assinarem uma escritura pública em cartório, declarando que a emancipam – você vira “adulta” pros atos civis, tipo assinar contratos sozinha, sair de casa e gerir seu dinheiro. Precisa: certidão de nascimento, RG e CPF seus e dos pais, e comparecerem juntos no cartório. Custa uns R$ 200-500, dependendo do lugar, mas vale cada centavo pela liberdade.

Se os pais negarem (o que pode rolar no seu caso, né? Por isso, a denúncia ao Conselho Tutelar pode ajudar), vai pro judicial. No ECA, o juiz pode conceder emancipação se provar que é para o seu bem, tipo em casos de negligência. Procura a Vara da Infância e Juventude da sua comarca (de novo, site do Tribunal de Justiça do seu estado). Leva provas: mensagens, fotos, datas, testemunhas — tudo que provar exploração, privação de liberdade ou violência – holerites do estágio e comprovante de banco, mostrando que lhe obrigam a dar o salário todo, o que você puder. O Ministério Público entra na jogada para defendê-la de graça. Outras formas de emancipar sem depender tanto deles: casar (mas ó, pensa bem, não é por isso que você vai casar com o primeiro que aparecer, viu?), entrar no serviço militar ou abrir um negócio próprio (tipo vender artesanato on-line, se der). Mas o foco é o cartório ou juiz – em até 3 meses, você pode estar livre.

Enquanto isso, cuida do seu bolso para se preparar para nova vida. Como menor aprendiz, seu salário é seu! A lei (CLT e ECA) diz que adolescentes têm direitos trabalhistas plenos, incluindo bolsa que não pode ser “confiscada” pelos pais (isso tem que ser denunciado ao Conselho Tutelar também e à justiça). Se não for possível, guarde escondido o que puder – abre uma outra conta/poupança no banco com seu CPF (dá pra fazer sozinha aos 16 pra fins específicos). Fala com o RH do estágio sobre isso; eles podem orientá-la. Ah, e conte aos seus professores, orientadores e colegas sua situação. Isso pode ajudá-la a denunciar ao Conselho Tutelar, se virem evasão ou estresse.

Mas observe: emancipar não é fugir sem plano. Começa montando uma rede: junta com amigas confiáveis – inclusive alguém que possa abrigá-la temporariamente, procura ONGs como o Instituto Alana ou o Childhood Brasil (elas dão apoio psicológico e jurídico grátis para casos como o seu). Continua estudando e até incremente seus estudos com cursos EAD grátis (tem vários disponíveis na internet, inclusive no Senac), para ter qualificação e trabalhos melhores. E qual tal fazer terapia também? Peça no SUS via Conselho – Artigo 101 do ECA garante tratamento pra vítimas de negligência.

Você é forte, garota. Trabalhar desde pequena lhe deu garra que o irmão nunca vai ter. Não aguenta mais? Denuncia hoje, planeja amanhã, faça tudo para conseguir se emancipar. Aos 18, você vai olhar pra trás e pensar: “Eu me salvei”. Liga pro 100 agora, vai no cartório semana que vem. Sua vida é sua – pega de volta. Beijo forte e muito sucesso para você.

Se puder, depois, me conta como tudo se desenrolou e se eu pude ajudar.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora de 16 anos não aguenta mais a situação em que vive com a família e quer se emancipar. Tia Telma dá todas as orientações, confira
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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