Sou gay, mas não consigo me relacionar com ninguém

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Tenho 49 anos, sou gay assumido e sempre me considerei uma pessoa sem preconceitos. Mas não consigo me relacionar livremente com outros homens. Já não tenho relações há muito tempo, nunca fui passivo (não sinto tesão) e dispenso oportunidades incríveis porque me fecho. Uma amiga disse que não estou me permitindo ser feliz, que estou travado em alguma coisa que não me deixa ser livre. Fui criado em uma família conservadora, mas que nunca me desrespeitou. Será que isso influencia?”

Meu querido, vou contar uma coisa que talvez ninguém tenha lhe dito com todas as letras: existe muita gente que sai do armário, mas nunca sai completamente da própria prisão.

E acho que você pode estar morando justamente aí.

O mais curioso no seu relato é que você não fala de preconceito escancarado contra o fato de ser gay. Não apanhou da família, não foi expulso de casa, não viveu drama que muitos gays sofrem simplesmente por se assumirem. Pelo contrário. Você diz que foi criado numa família “conservadora”, mas respeitosa. Mas, olha, família pode amar muito e, ainda assim, ensinar a gente a se podar sem perceber.

Tem famílias que nunca dizem “não seja gay”, mas ensinam algo mais sutil tipo “não incomode”, “não exagere”, “não se exponha demais”, “seja discreto”. E o problema é que muitos homens crescem tão preocupados em serem aceitáveis que desaprendem a ser espontâneos.

Você me parece exatamente esse homem.

Educado. Inteligente. Resolvido na aparência. Mas emocionalmente andando com o freio de mão puxado há décadas.

E sabe o que mais me chamou atenção? Você diz que dispensa oportunidades incríveis porque se fecha. Isso é muito significativo. Porque quem não quer viver algo simplesmente não sente vontade. No seu caso, vontade existe. O que existe também é um segurança interno na porta barrando a entrada de qualquer possibilidade de felicidade.

E vou falar outra coisa sem rodeio: homem que controla demais a própria emoção acaba virando gerente da própria solidão.

Você criou uma vida tão organizada emocionalmente que ninguém entra, ninguém bagunça, ninguém decepciona, mas também ninguém aquece.

Sobre a questão sexual, quero dizer algo importante: você não precisa fazer nada que não queira. Não sentir tesão em ser passivo não faz você menos gay, menos moderno ou menos evoluído. Sexualidade não é prova do Enem. Não existe gabarito.

Mas vale uma perguntinha honesta, daquelas que a gente responde olhando pro teto às duas da manhã: isso vem realmente do seu desejo ou da necessidade de continuar se sentindo “no controle”?

Porque muitos homens da sua geração cresceram ouvindo que, mesmo sendo gays, ainda precisavam preservar uma certa imagem de masculinidade. E isso cria umas travas silenciosas. O corpo até quer. Mas a cabeça abre uma reunião de condomínio antes de deixar acontecer.

Mas a vida passa.

E passa rápido, meu bem.

Principalmente porque a próstata é o “Ponto G” masculino. Para muitos homens, ela pode gerar um prazer incrível quando estimulada, já que fica a alguns centímetros dentro do reto e tem muitas terminações nervosas. Tem homem que descreve a sensação como um prazer mais profundo, intenso e diferente da estimulação peniana comum.

Só que, claro, existe muito tabu porque muitos homens – principalmente os heteros – associam qualquer prazer anal a uma ameaça à própria identidade masculina. Onde já se viu? Isso é coisa de gay. Mas não é. O corpo não tem ideologia. Terminação nervosa responde a estímulo, não a discurso moral.

Talvez você esteja fechado à essa estimulação por essa necessidade de controlar sua sexualidade. Me parece que você está recusando tesão igual a gente recusa ligação de banco, no automático, como uma coisa inconveniente.

E sinceramente? Que desperdício.

Gay ou não, todo mundo deveria experimentar o prazer livremente.

Você parece ser um homem interessante, consciente, sensível. Mas talvez tenha passado tempo demais tentando ser equilibrado e pouco tempo se permitindo ser feliz. Existe diferença.

Felicidade afetiva exige uma coisa que assusta muita gente inteligente: vulnerabilidade. Exige perder um pouco da pose. Exige correr o risco de gostar de alguém. Exige admitir carência sem transformar isso numa tese acadêmica.

E vou contar um segredo que a maturidade ensina. Depois de certa idade, a gente para de precisar de perfeição. O que faz falta mesmo é conexão. É ter alguém pra rir junto, dormir abraçado, mandar meme idiota, reclamar da coluna e dividir a sobremesa sem precisar fingir independência emocional o tempo inteiro.

Talvez sua amiga tenha enxergado algo importante. Não parece que falta oportunidade na sua vida. Parece que falta permissão.

Permissão para desejar sem culpa sendo gay. Para se envolver sem tanto controle. Para baixar a guarda. Para viver sem ficar tentando administrar cada emoção como se fosse planilha de Excel.

Porque ninguém encontra amor verdadeiro – ou apenas uma boa transa – usando armadura até no banho.

E quer saber? Aos 49 anos, você não está atrasado pra felicidade. Mas talvez esteja atrasado para parar de fugir dela.

Então mande o segurança embora e abra a porta. Nem que seja uma frestinha primeiro.

E se permita.

Quem é Tia Telma?

Sou gay e há anos não me relaciono com ninguém, dispensando oportunidades incríveis
Tia Telma versão IA

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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