Por Marcelo Minka
Há algo profundamente revelador no fato de um dos filmes mais perturbadores do ano ter nascido de um vídeo de internet criado por um adolescente. Hollywood continua reciclando super-heróis exaustos e franquias que já perderam qualquer impulso criativo. Backrooms: Um Não-Lugar surge de um medo genuinamente contemporâneo: o medo do espaço vazio. Não do vazio cósmico. Do vazio arquitetônico.
Os corredores infinitos de Backrooms não representam apenas uma dimensão paralela. Representam um mundo que perdeu completamente a capacidade de produzir pertencimento. São escritórios sem função, salas sem memória, corredores sem destino. Ambientes que existem, mas não significam nada.
O diretor Kane Parsons compreende algo que muitos cineastas veteranos ignoram: o terror moderno não nasce mais da floresta, do castelo ou da casa assombrada. Nasce dos lugares que frequentamos todos os dias. O verdadeiro horror contemporâneo é perceber que estamos cercados por espaços cada vez mais impecáveis e cada vez mais desumanos.

A estética amarelada e sufocante dos Backrooms não procura beleza. Procura desgaste psicológico. Cada parede parece absorver identidade. Cada corredor parece apagar uma lembrança. O filme transforma arquitetura em mecanismo de dissolução mental.
Backrooms nasceram na internet
Existe também algo simbolicamente poderoso na origem dessa obra. Os Backrooms nasceram na internet como uma espécie de lenda coletiva, construída por usuários anônimos. É um mito produzido por uma geração que cresceu cercada por shoppings, aeroportos, estacionamentos, hotéis, escritórios e plataformas digitais. Uma geração que conhece intimamente a sensação de estar em todos os lugares e, ao mesmo tempo, não pertencer a lugar nenhum.
A produção da A24 teve inteligência ao preservar essa estranheza em vez de convertê-la num blockbuster convencional. Backrooms: Um Não-Lugar não oferece conforto. Não oferece explicações excessivas. Não organiza o caos para tranquilizar o espectador. Mantém a sensação de deslocamento até o fim.
Backrooms: Um Não-Lugar não assusta porque mostra monstros. Assusta porque reconhecemos aqueles corredores. Reconhecemos aquelas luzes fluorescentes. Reconhecemos aquele vazio. O filme entende que o labirinto já não está escondido em outra dimensão.
O labirinto é o mundo que construímos.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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