Por professor Renato Munhoz
Há uma pergunta que parece simples, mas talvez seja uma das mais difíceis do nosso tempo: quando falamos em preservar o meio ambiente, o que estamos realmente tentando preservar?
A água? As florestas? Os animais? O clima? A biodiversidade?
Ou estamos tentando preservar a possibilidade de continuar vivendo?
Talvez a diferença pareça apenas semântica. Não é.
A maneira como enxergamos o meio ambiente determina a maneira como nos relacionamos com ele. E, neste momento histórico, estamos diante de uma espécie de disputa de paradigmas: continuaremos tratando a natureza como um conjunto de recursos a serem administrados ou conseguiremos reconhecê-la como parte de nós?
É aqui que aparecem pelo menos três formas de olhar para a questão ambiental: a visão tecnicista, a visão pessimista e a visão holística.
A visão tecnicista: a tecnologia vai nos salvar?
A visão tecnicista parte de uma ideia bastante presente na sociedade moderna: se existe um problema, encontraremos uma tecnologia capaz de resolvê-lo.
Poluímos o rio? Criamos uma tecnologia para descontaminar.
Desmatamos? Desenvolvemos técnicas de reflorestamento.
Emitimos carbono demais? Inventamos tecnologias para capturar carbono.
Consumimos recursos em excesso? Criamos processos mais eficientes.
E é preciso reconhecer: a ciência e a tecnologia são fundamentais para enfrentar a crise ambiental. Não se trata de demonizar a tecnologia. Precisamos dela.
O problema começa quando acreditamos que toda crise ambiental pode ser resolvida sem modificar o modo de vida que produziu a própria crise.
É como alguém que continua acelerando o carro enquanto aperta o freio cada vez mais.
O problema não é ter freios. É não perceber que talvez seja necessário diminuir a velocidade.
Os dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente são incômodos: a extração de recursos naturais do planeta triplicou nas últimas cinco décadas, enquanto o mundo enfrenta aquilo que a ONU chama de tripla crise planetária: mudança climática, perda da biodiversidade e poluição e resíduos.
Portanto, talvez a pergunta não seja somente:
“Que tecnologia teremos para salvar o planeta?”
Mas:
“Que sociedade estamos construindo que precisa ser salva de suas próprias escolhas?”

A visão pessimista: já perdemos?
Do outro lado aparece uma visão quase apocalíptica.
É a visão de quem olha para as queimadas, secas, enchentes, desaparecimento de espécies, contaminação das águas e mudanças climáticas e conclui:
“Não há mais jeito.”
Essa perspectiva tem uma força importante: ela nos obriga a encarar a gravidade do problema.
Não podemos transformar a sustentabilidade em uma coleção de frases bonitas sobre plantar árvores enquanto ignoramos o tamanho da crise.
O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) mostra que os impactos das mudanças climáticas já estão atingindo sistemas naturais e humanos e que as escolhas feitas agora produzem consequências que se estendem para as próximas décadas.
Mas existe um perigo no pessimismo.
Quando acreditamos que tudo está perdido, podemos chegar à conclusão de que não vale mais a pena fazer nada para recuperar o meio ambiente.
E aí o pessimismo, que começou como consciência, termina como acomodação.
É aquela velha armadilha:
— O planeta está acabando.
— Então não há nada que eu possa fazer.
— Justamente por isso precisamos fazer alguma coisa.
— Mas já é tarde demais.
E pronto. A conversa termina.
Talvez precisemos de uma terceira possibilidade
É aqui que entra a VISÃO HOLÍSTICA.
Holístico vem da ideia de totalidade. Significa compreender que as partes estão relacionadas e que não podemos compreender adequadamente um problema isolando seus elementos.
A floresta não é apenas madeira.
O rio não é apenas água.
O solo não é apenas espaço para produzir.
O animal não é apenas recurso.
E o ser humano não está fora da natureza.
Nós somos natureza.
Essa talvez seja uma das mudanças mais profundas que precisamos fazer.
O filósofo Edgar Morin há décadas chama nossa atenção para a necessidade de superar um pensamento fragmentado, capaz de dividir aquilo que, na realidade, está profundamente conectado.
Fritjof Capra, por sua vez, ajudou a popularizar uma compreensão sistêmica da vida: os organismos não existem isoladamente, mas em redes de relações.
E Ailton Krenak leva essa discussão para um lugar ainda mais provocador: Para ele, o problema começa quando construímos uma ideia de humanidade separada da Terra. Em sua reflexão sobre os povos originários, Krenak questiona justamente essa ruptura entre humanidade e natureza. Em outras palavras:
Talvez nosso maior problema ambiental seja também um problema cultural.
Nós aprendemos a chamar a natureza de “recurso”: recurso hídrico,recurso mineral, recurso florestal, recurso energético.
E quando algo vira recurso, quase automaticamente perguntamos: Quanto podemos retirar?
A visão holística faz outra pergunta: Qual é a relação que estamos estabelecendo?
A ancestralidade talvez tenha algo a nos ensinar
É interessante perceber que essa mudança de paradigma não significa necessariamente inventar uma novidade.
Talvez seja, em parte, lembrar aquilo que esquecemos.
Muitos povos originários e comunidades tradicionais não construíram historicamente a mesma separação entre humanidade e meio ambiente que caracteriza boa parte do pensamento moderno ocidental.
Em muitas dessas cosmologias, território, comunidade, espiritualidade, memória, animais, águas, plantas e ancestrais estão relacionados.
O conhecimento não está apenas no livro. Está também na experiência. Na observação do tempo. Na memória dos mais velhos. Na relação com a terra. Na oralidade. Na comunidade.
O pensamento de Ailton Krenak é extremamente provocador nesse sentido: “pisar mais suavemente sobre a Terra” não é simplesmente uma metáfora bonita; significa repensar nossas formas de produção, consumo e convivência.
E pensadores quilombolas, como Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, ajudam a ampliar essa discussão ao valorizar ancestralidade, oralidade, território e os saberes produzidos pelas comunidades tradicionais como formas legítimas de conhecimento. O próprio Programa Nego Bispo, do IFBA, destaca essa dimensão dos saberes ancestrais e das chamadas cosmociências.
Isso não significa rejeitar a ciência. Significa ampliar aquilo que entendemos por conhecimento. Talvez a ciência precise conversar mais com a experiência. A universidade com a comunidade. O laboratório com a floresta. O pesquisador com o agricultor. O engenheiro com o ancião. O conhecimento acadêmico com a memória ancestral.
E é aqui que entra a educação
Se queremos realmente mudar nossa relação com o planeta, precisamos admitir uma coisa: não existe transição ecológica sem transformação educativa.
Não adianta ensinar uma criança a separar o lixo se ela não consegue compreender por que produzimos tanto lixo. Não adianta falar de economia circular enquanto continuamos educando para o consumo ilimitado.
Não adianta colocar uma árvore no pátio da escola se a natureza continua sendo tratada como um conteúdo de prova. A educação ambiental não pode ser apenas uma aula sobre meio ambiente.
Ela precisa ser uma maneira diferente de compreender a vida. A UNESCO vem defendendo justamente uma Educação para o Desenvolvimento Sustentável baseada não apenas em conhecimento, mas também em valores, atitudes, competências e capacidade de ação. Sua Parceria para uma Educação Verde já reúne 99 países e mais de 2 mil organizações, defendendo uma abordagem que transforme escolas, currículos, formação docente e comunidades. Isso é significativo.
Porque educação ambiental não pode formar apenas pessoas que sabem que o planeta está em crise. Precisamos formar pessoas que se sintam responsáveis pela vida.
Durante muito tempo, perguntamos: “Como podemos proteger a natureza?”
A visão holística nos convida a inverter a pergunta: “Como podemos mudar nossa maneira de viver para que a natureza não precise ser protegida de nós?”
É uma provocação. Mas talvez seja exatamente disso que precisamos. Porque preservar a água não é somente preservar um recurso hídrico. É preservar comunidades. Preservar florestas não é somente conservar árvores. É proteger culturas, ciclos da vida, alimentos, territórios e futuros possíveis.
Cuidar do ambiente não é apenas uma questão ecológica. É uma questão social, econômica, cultural, política e profundamente humana. Estamos vivendo uma alternância de paradigma. De um lado, a velha ideia de que podemos dominar, controlar, extrair e depois consertar.
Do outro, começa a ganhar força uma compreensão mais relacional: somos parte de uma rede de vida. Talvez a grande revolução ambiental do nosso tempo não esteja apenas em desenvolver máquinas mais eficientes.
Talvez esteja em formar seres humanos menos arrogantes diante da vida. Porque, no fim das contas, talvez a Terra não esteja precisando de nós para continuar existindo. Somos nós que precisamos reaprender a existir dentro dela.
E essa aprendizagem começa onde toda transformação profunda deveria começar: na educação.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

