Por Marcelo Minka
Em 1988, Akira não chegou às telas para confirmar o que o público já sabia sobre animação, chegou para destruir certezas. O longa de Katsuhiro Otomo apresentou uma obra violenta, politicamente inquieta e visualmente monumental, na qual a animação deixava de ser percebida como território exclusivo da infância e assumia plenamente sua capacidade de construir um cinema adulto. Quando o filme chegou ao Brasil, em 1991, eu tinha pouco mais de 20 anos. Ainda me lembro de sair do Cine Ouro Verde atordoado, meio surdo e meio cego diante dos sons apocalípticos e do excesso de cores e movimentos. Foi uma experiência estética inesquecível.
Katsuhiro Otomo, autor do mangá original e diretor do filme, adaptou sua própria obra para o cinema ao lado do corroteirista Izo Hashimoto. A história se passa em Neo-Tóquio, uma metrópole reconstruída após uma explosão devastadora e dominada por corrupção política, repressão militar, conflitos sociais e gangues de motociclistas. Kaneda lidera uma dessas gangues. Seu amigo Tetsuo, inseguro e ressentido, adquire poderes psíquicos depois de um encontro com uma criança submetida a experiências científicas pelo governo.
A partir dessa premissa, Akira constrói uma narrativa sobre poder sem maturidade, tecnologia sem responsabilidade e instituições que tentam controlar forças que elas próprias desencadearam. Tetsuo não é apenas um jovem transformado em ameaça, ele representa o indivíduo humilhado que, ao conquistar poder, reproduz em escala monstruosa a violência que sofreu. Seu corpo torna-se o campo em que ressentimento, desejo e descontrole entram em conflito.
O lançamento ocorreu em um Japão que vivia o auge de sua expansão econômica e tecnológica. A imagem internacional do país era marcada por prosperidade, inovação industrial e confiança no futuro. Otomo observou essa euforia pelo avesso. Sua Neo-Tóquio é tecnológica, luminosa e monumental, mas também está apodrecida pela desigualdade, pela burocracia e pelo autoritarismo. Quanto mais avançada a cidade, mais abandonados estão seus jovens.
Akira também carregava a memória das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. A destruição de Tóquio, as experiências realizadas em crianças e o medo de uma energia impossível de controlar inscrevem o trauma nuclear japonês dentro de uma ficção científica urbana. A catástrofe não aparece como lembrança encerrada no passado, ela permanece dentro da sociedade, pronta para retornar sob novas formas.
Akira estabeleceu novo padrão para a animação japonesa

Visualmente, o filme estabeleceu um novo padrão para a animação japonesa. As perseguições noturnas, os reflexos sobre o asfalto, a arquitetura sufocante, a velocidade das motocicletas e as transformações corporais foram desenhados com uma precisão que ainda impressiona. A cidade não funciona como pano de fundo, Neo-Tóquio respira, produz ruído, oprime seus habitantes e participa diretamente da narrativa.
A trilha composta por Shōji Yamashiro e interpretada pelo coletivo musical Geinoh Yamashirogumi combina percussões, vozes, referências ao teatro Nô e sonoridades do gamelão indonésio. O resultado não acompanha passivamente as imagens, mas concede às cenas uma dimensão ritualística e transforma a violência urbana em uma experiência quase religiosa.
Quando chegou ao Brasil em 1991, Akira encontrou um público que ainda possuía acesso limitado à animação japonesa adulta. Seu impacto ajudou a demonstrar que o anime não era um gênero único, mas um modo de produção capaz de abrigar ficção científica, horror corporal, drama político e reflexão filosófica.
No Ocidente, o filme abriu caminho para uma recepção mais ampla da cultura visual japonesa e marcou obras posteriores como Ghost in the Shell, dirigido pelo cineasta Mamoru Oshii, e Matrix, criado pelas cineastas Lana e Lilly Wachowski. A famosa derrapagem da motocicleta de Kaneda atravessou décadas de cinema, séries, animações e videogames.
Entretanto, reduzir Akira à sua influência estética é insuficiente. Sua força não está somente no desenho das motos, nas luzes de néon ou na violência espetacular. Está na compreensão de que o progresso técnico não produz automaticamente progresso humano. Uma sociedade tecnologicamente avançada continua capaz de explorar crianças, militarizar a ciência e abandonar uma geração inteira.
O filme adaptado também possui fragilidades, comprimindo uma narrativa muito mais extensa e transformando parte de seus conflitos em uma experiência deliberadamente vertiginosa. Os personagens femininos recebem um desenvolvimento menor do que os protagonistas masculinos. Ainda assim, essas limitações não anulam sua potência. Akira permanece maior do que sua trama porque converte suas ideias em matéria visual, ritmo, som e movimento.
Retorno aos cinemas
O retorno aos cinemas brasileiros em versão remasterizada em 4K, 35 anos após a estreia no país, mobiliza inevitavelmente a nostalgia. Para quem encontrou o filme no cinema, em fitas VHS ou nas primeiras edições em mídia digital, rever Akira significa reencontrar uma obra que ajudou a formar um imaginário. A motocicleta vermelha de Kaneda, as avenidas iluminadas e a silhueta de Neo-Tóquio pertencem à memória visual de uma geração.
Mas a nostalgia também oferece um risco. Ela transforma obras incômodas em objetos confortáveis de consumo. Akira resiste a essa domesticação. A restauração em 4K não serve apenas para recuperar cores, detalhes e movimentos. Ela devolve ao filme a escala para a qual foi concebido e recoloca seu desconforto diante do público.
Em 1988, Akira imaginava o ano de 2019 como um futuro de vigilância, convulsão política, experimentação científica e jovens sem horizonte. Em 2026, esse futuro já ficou para trás no calendário, mas continua diante de nós como diagnóstico. Vivemos cercados por tecnologias mais poderosas, instituições desacreditadas, conflitos urbanos e indivíduos transformados em laboratórios de forças que não compreendem completamente. Por isso, o relançamento não representa somente uma celebração do passado, mas o reencontro com uma obra que envelheceu tecnicamente muito menos do que a sociedade gostaria de admitir. Akira retorna às telas não como uma relíquia da década de 1980, e sim como um aviso que continuamos incapazes de escutar.
Assistir ao filme em uma sala de cinema, com a imagem restaurada e a trilha sonora reverberando nas paredes, confirma sua condição de obra cinematográfica. O filme não é apenas um clássico da animação japonesa, é um dos grandes filmes de ficção científica do século XX e continua sendo uma das visões mais contundentes sobre o que acontece quando uma civilização aprende a ampliar seu poder antes de aprender a dominá-lo.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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