Por Edra Moraes
Depois de tantos anos atuando nas entranhas da comunicação, da produção cultural e do marketing, aprendi a desconfiar de discursos institucionais que vestem velhas estruturas com vocabulário corporativo de ocasião. Quando uma gestão pública se autoproclama “capital da inovação” ou Smart City, a primeira pergunta que o chão de fábrica precisa fazer não é quanto o setor arrecada, mas sim: quem, de fato, se beneficia dessa riqueza?
Um levantamento recente do jornal Plural, assinado pela jornalista Rosiane Correia de Freitas e baseado nos microdados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/MTE 2025), trouxe à tona estatísticas incômodas sobre o mercado de trabalho formal na capital paranaense — e expôs um abismo entre o marketing urbano e a realidade do trabalho criativo na cidade.
Quando Smart City e Economia Criativa viram sinônimos
Para entender como Curitiba chegou a esse diagnóstico, é preciso entender o momento em que os conceitos de Smart City e Economia Criativa passaram a ser tratados como sinônimos no discurso oficial.
Essa fusão acontece quando o poder público abandona a dimensão artística, comunitária e humana do setor criativo para submetê-lo à régua do instrumentalismo econômico. Na urgência de vender a cidade como hub de atração de capital, a gestão urbana passa a tratar a criatividade não como expressão cultural, mas como “capital humano” — insumo de inovação tecnológica.
O resultado é uma ilusão estatística perigosa: a prefeitura usa os números massivos do setor de Tecnologia da Informação para inflar a “Economia Criativa”, e ao mesmo tempo usa o rótulo “Economia Criativa” para afirmar que sua Smart City é moderna, humana e vibrante. Um termo mascara a fragilidade do outro.
A queda no ranking e a realidade dos números
Apesar da imagem oficial vender liderança e inúmeros títulos de incontestável em inovação, os dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram um cenário modesto e estagnado:
- Discreta 5ª posição entre as capitais: com 25.331 empregos formais criativos (2,47% do mercado de trabalho formal local), Curitiba fica atrás de Florianópolis (4,75%), São Paulo (4,15%), Porto Alegre (3,64%) e Vitória (2,80%).
- Abaixo do interior paranaense: entre os municípios do Estado com mais de 5 mil vínculos formais, a capital ocupa apenas a 6ª colocação proporcional, superada por Pato Branco (3,49%) e Dois Vizinhos (3,03%).
- Remuneração defasada: o salário médio do trabalhador criativo em Curitiba (R$ 8.754) é inferior ao de São José dos Pinhais (R$ 9.847) e distante de Brasília (R$ 11.702) e Florianópolis (R$ 10.696).
- Estagnação histórica: um levantamento posterior do próprio Plural mostra que, em 2026, a economia criativa curitibana chegou a perder 807 vínculos — a maior queda proporcional entre as cidades do Paraná —, enquanto o emprego que mais cresce na capital é o de serviços terceirizados de baixa remuneração.
A monocultura de software e o abandono das artes
O dado mais alarmante não é o tamanho do setor, mas sua concentração extrema. No Brasil, as ocupações de TIC respondem por 63,8% do emprego criativo do país — e em Curitiba essa concentração é ainda maior: 71,7% de todo o emprego criativo formal se resume a Tecnologia da Informação e Software (18.155 postos, salário médio de R$ 9.791).
Enquanto programadores e engenheiros de sistemas lideram as estatísticas formais, a cultura viva da cidade — artes de palco, música, patrimônio, artesanato — aparece nos registros do Ministério do Trabalho como nota de rodapé:
| Ocupação Criativa (RAIS 2025) | % do Setor | Vínculos Formais | Salário Médio |
| TIC / Software | 71,7% | 18.155 | R$ 9.791 |
| Design e Artes Visuais | 6,1% | 1.542 | R$ 4.529 |
| Audiovisual, Rádio e TV | 5,7% | 1.436 | R$ 4.472 |
| Jornalismo e Editorial | 4,6% | 1.172 | R$ 7.040 |
| Publicidade e Marketing | 3,9% | 997 | R$ 5.020 |
| Bibliotecas, Arquivos e Museus | 3,4% | 854 | R$ 7.242 |
| Arquitetura e Urbanismo | 2,4% | 598 | R$ 11.216 |
| Fotografia e Cinegrafia | 0,6% | 161 | R$ 3.630 |
| Música | 0,6% | 160 | R$ 8.456 |
| Artes Cênicas e Dança | 0,6% | 154 | R$ 5.015 |
| Artesanato de Arte | 0,4% | 102 | R$ 3.273 |
O chão de fábrica invisível sob o discurso tecnológico
Ter uma indústria de tecnologia forte é um ativo fundamental para qualquer município. O erro da gestão pública está em usar a força do software para inflar dados, vender a marca de “Smart City” e disfarçar a atrofia das políticas culturais de base.
Curitiba tem centenas de músicos, atores, bailarinos e técnicos em atividade contínua. Contudo, quando a prefeitura e os relatórios oficiais aplicam a régua da RAIS/MTE, apenas 154 profissionais de teatro e 160 de música aparecem com vínculo formal contratado em uma metrópole de 1,8 milhão de habitantes. Enquanto a TI opera sob a formalidade das empresas corporativas, o próprio IBGE, no Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC), mostra que 44,6% dos trabalhadores da cultura no país atuam na informalidade — contra 40,6% no total dos ocupados. No setor de eventos, especificamente, um levantamento da Abrafesta aponta que até 80% da força de trabalho opera sem carteira assinada ou proteção previdenciária.
Substituir o ecossistema cultural por uma monocultura de software é esvaziar o próprio conceito de economia criativa. Uma cidade que não garante formalidade, infraestrutura e remuneração digna para os bastidores das artes — seus técnicos, produtores e criadores — pode ser um grande polo de serviços de tecnologia, mas jamais será uma verdadeira capital criativa.
E você, que trabalha ou vive da cultura em Curitiba — reconhece essa realidade nos bastidores? Conta aqui nos comentários (ou manda um Direct) como é sustentar um trabalho criativo numa cidade que só enxerga software. Sua experiência é o dado que nenhuma RAIS capta.
Fontes:
- Emprego criativo paga 89% acima da média no Brasil — Plural, RAIS 2025/MTE
- Curitiba cria vagas, mas cresce menos que o Brasil — Plural, RAIS/Novo CAGED
- Setor cultural emprega 5,9 milhões de pessoas no Brasil — Agência Brasil / IBGE (SNIIC 2013-2024)
- Estudo aponta que 80% dos trabalhadores no setor de evento são informais — CNN Brasil / Abrafesta
Foto principal: Imagem gerada por IA/ChatGpt
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes e @londrinacriativamovimento, YouTube @edra-moraes27 Contatos: e-mail edra.moraes27@gmail.com e fone/whatsapp: (41) 997722447.
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