Por Telma Elorza
“Sou uma microempresária de 33 anos, solteira e sem filhos. Trabalho muito e há 8 anos, venho juntando dinheiro, com muitos sacrifícios pessoais, para fazer uma viagem de um mês à Europa que é meu sonho de infância. Nunca falei para ninguém – nem amigos, nem família – sobre esse dinheiro por medo de acontecer alguma coisa e eu ser obrigada a abrir mão dele. Pois o que eu temia aconteceu agora, quando estava quase pronta para realizá-los. Meus pais estão passando por uma situação financeira séria e eu sei que esse dinheiro ajudaria muito. Mas estou dividida. Abro mão dos meus sonhos e ajudo ou simplesmente continuo sem me preocupar? Tenho mais dois irmãos que ganham bem e que poderiam ajudá-los. Sou egoísta demais por simplesmente ficar em dúvida?”
Amiga, vamos com calma. Primeiro, você não é egoísta por simplesmente ter dúvidas sobre uma questão que é tão importante para você. Sinceramente, você está se cobrando uma culpa que não é sua.
Você trabalhou duro, fez sacrifícios, abriu mão de coisas que provavelmente gostaria de ter comprado ou vivido e, certamente, guardou todos os centavos possíveis para realizar um sonho. Isso não veio de graça e teve custos pessoais altíssimos, que, provavelmente, nunca serão recuperados. Construiu, com esforço e muito suor, uma reserva para um projeto específico. E agora que chegou a hora de realizá-lo, surge essa emergência familiar. É claro que você está dividida. Se não estivesse, talvez eu ficaria preocupada.
Mas se atente que existe uma coisa importante nessa história: seus pais têm três filhos. Não uma única filha como responsável por resolver sozinha os problemas financeiros deles. Seus dois irmãos ganham bem e podem ajudar. Assim, antes de decidir sacrificar seu sonho que custou oito anos de sua vida, eu convocaria uma reunião familiar para saber exatamente qual o tamanho do problema.
Você precisa saber algumas coisas como quanto é necessário, como o dinheiro seria usado, por quanto tempo? Além disso, é preciso definir se o problema é uma emergência pontual ou uma dificuldade que vai continuar por tempo indeterminado. Porque existe uma diferença enorme entre ajudar em algo imediato ou assumir financeiramente a vida deles.
Além disso, tem outra coisa importante. Você não precisa escolher entre não dar um centavo e entregar todo o dinheiro do sonho. Há alternativas que podem ser construídas com ajuda dos irmãos. Você talvez possa contribuir sem destruir suas reservas. Mas é preciso estabelecer limites que não prejudiquem você. Ajuda não deve significar que vai ter que abandonar seus próprios sonhos, mesmo que seja uma viagem.
E, por favor, não transforme seu sonho em moeda de troca para provar que ama seus pais. Amá-los não significa renunciar a tudo quando eles enfrentarem uma dificuldade. Por isso é importante conversar com os pais e também com seus irmãos. Talvez consigam chegar a uma solução conjunta porque a responsabilidade é dos três. Se nenhum puder dar uma parte dos rendimentos mensais para ajudar os pais, que tal pensar num empréstimo, talvez, com as parcelas divididas entre vocês? Por que não?
Apenas não aceite o papel da filha que se sacrifica enquanto os outros apenas assistem. Esse é o papel tradicional que a sociedade impõe às mulheres – a cuidadora, a que se sacrifica. Mas não é justo conosco e nunca foi.
Por isso, digo com franqueza: não conte à sua família o quanto você tem guardado. Você tinha um motivo para esconder esse dinheiro, sabia que poderia sofrer pressão. E, pelo visto, seu receio não era absurdo. Se decidir ajudar, faça porque você quer e pode, dentro dos limites que você estabeleceu, e não porque está sendo obrigada.
Manter seu sonho não significa que não se importa
Manter seus planos não significa que você esteja abandonando seus pais. Você pode continuar a planejar seu sonho, ajudar de outras maneiras e acompanhar a situação. Ou seja, arrumar uma maneira de ajudar sem destruir a própria vida. Você não precisa escolher entre ser uma mártir em nome da família e ser uma mulher que realiza seus sonhos.
Mas tudo vai depender dessa conversa com a família para estabelecer o grau de dificuldades para sair dessa situação emergencial. Se for estabelecido que realmente a coisa grave e que precisa de uma ajuda financeira maior, aí e somente aí, é que sugiro que faça o que sua consciência mandar. Mas a decisão tem que ser sua, tomada com calma e dentro das suas possibilidades.
Porque uma coisa é certa, amiga, sacrificar seu sonho por culpa é uma péssima maneira de ajudar alguém. O resultado é sempre catastrófico. Pensa comigo: você dá todo o seu dinheiro economizado com sacrifício, resolve o problema e, daqui alguns anos, você continua sem viagem, sem dinheiro e ressentida com a família – que, no fim das contas, pode achar que você não fez mais que sua obrigação.
Converse com seus irmãos e pais. Entenda exatamente o tamanho da encrenca e defina quanto você pode ajudar sem comprometer sua segurança financeira. E, assim que puder, vá para a Europa, viver seu sonho. Isso não é egoísmo, você passou oito anos construindo esse patrimônio. Nada mais justo que viver a viagem que sonhou.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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