Por Telma Elorza
Londrina adora posar de moderna, inovadora, exemplo de desenvolvimento no interior do Paraná. Mas, quando se olha de perto, a máscara cai: é uma cidade cruel com quem mais precisa. Uma cidade que legisla contra os pobres, corta benefícios sociais e trata vulnerabilidade como incômodo a ser varrido das ruas. Mas que privilegia secretários municipais e o vice-prefeito invisível com aumentos de salário. A Câmara de Vereadores e o prefeito Tiago Amaral estão lado a lado nessa obra de ficção que chamam de “gestão responsável”. O enredo, no entanto, é mais parecido com um manual de crueldade urbana. Tô exagerando? Em que mundo você vive que não viu as notícias recentes da cidade?
Já falamos do projeto de lei 92/2024 que proibe a distribuição de alimentos em vias públicas, que está correndo. Nada de marmita na rua, sopa na praça ou sanduíche para os pobres e famintos. “Centralizar as doações na Secretaria de Assistência Social”, dizem eles. Que piada! Especialistas e ativistas gritam: isso vai restringir o acesso à comida e aumentar a vulnerabilidade dos sem-teto. Ora, quem precisa de ajuda urgente vai esperar burocracia? Não, vai passar fome. É como se a Câmara dissesse: “Pobres, sumam ou morram de fome em silêncio”. Londrina está virando uma cidade onde ajudar o próximo é criminalizado.
Além disso, há também o projeto – inconstitucional, diga-se de passagem – da internação involutária, à força. Também já falamos sobre isso. “Respaldo legal para acolhimento de dependentes químicos crônicos e com transtornos mentais”. Soa humanitário, né? Mas na real, é só mais uma forma de varrer os indesejados pra debaixo do tapete. Imagina: um morador de rua, já destruído pela vida, sendo arrastado contra a vontade pra uma “clínica” qualquer (e a cidade nem tem estrutura para isso, faltam leitos psiquiátricos na cidade e até o CAPS AD está sem mínimas condições de atendimento, como já mostrei aqui).
Sem escolha, sem dignidade. Isso não é ajuda, é repressão disfarçada de caridade. E quem paga a conta? Os pobres, claro, que viram cobaias de políticas que ignoram as raízes do problema: falta de emprego, moradia e políticas públicas de saúde mental consistentes e apoio real. Jessicão e seus comparsas na Câmara acham que trancar gente resolve? Resolveria se eles trancassem a si mesmos pra refletir sobre o quão hipócritas são.
Ah, não esqueçamos do projeto já aprovado em dois turnos -e também inconstitucional – que proíbe pessoas em situação de rua de usar praças e vias públicas para dormir, cozinhar ou se higienizar, com a justificativa de “evitar a degradação do espaço público e a desordem urbana”, como mostramos aqui.
E o prefeito Tiago Amaral? Ele deve estar aplaudindo todas essas leis que marginalizam ainda mais os vulneráveis e também dá sua contribuição eficiente. Enquanto vereadores criminalizam a pobreza, a Prefeitura avança no desmonte da Assistência Social (a mesma que seria responsável pela distribuição de alimentos à população em situação de rua, lembra?). O Decreto nº 960 já contingenciou verbas em 2025, e para 2026 o plano é cortar mais R$ 17 milhões da Secretaria de Assistência Social.
O resultado já aparece: o BEE, benefício emergencial de R$ 210 para alimentação, está suspenso. O PMTR (Programa Municipal de Transferência de Renda), que complementa renda de famílias vulneráveis, está atrasado. Até o CadÚnico, que depende do município para inscrições, tem mais de 3 mil pessoas na fila por falta de funcionários para dar conta. E muitas famílias estão perdendo benefícios federais simplesmente porque Londrina não faz o básico do atendimento às famílias pobres. E qual foi a desculpa? “As receitas cresceram menos do que o esperado.” A velha narrativa contábil usada para justificar o injustificável: tirar comida da boca de quem tem fome para “equilibrar planilhas”.
Outro alvo da tesoura é a Cultura. O PROMIC, principal programa de fomento cultural da cidade, vai perder 41% do orçamento em 2026. Cai de R$ 5,3 milhões para R$ 3,1 milhões. E o argumento de sempre volta à cena: “é melhor investir em saúde do que em cultura”. O orçamento total da Cultura representa nem 1% do orçamento anual do município Esse dinheiro não faz diferença nenhuma na Saúde, mas destrói toda uma cadeia cultural que gera empregos, autoestima e oportunidades. É o típico jogo populista: demonizar a cultura para posar de gestor sério.

Proibir pobres de respirar pode ser o próximo projeto
O mais revoltante é que a Câmara, que deveria fiscalizar, não só passa pano para o prefeito como atua eficientemente como agente hostil aos pobres. É internação involuntária, é probição de doação de comida, é proibição de ficar nas praças. Daqui a pouco, algum(a) “nobre edil” pode ter a belíssima ideia de proibir pobres de respirar na cidade (atenção: contém alto índice de sarcasmo). É o que falta para esse projeto de erradicação de miseráveis na cidade ficar completo.
Londrina já teve lideranças que defendiam justiça social. Hoje, tem vereadores que competem para ver quem é mais desumano e um prefeito que administra a cidade como se fosse planilha de Excel, cortando vidas para “fechar conta”. Com R$ 3,7 bilhões de orçamento, Londrina não é pobre. Mas é uma cidade que trata pobres como estorvo. Prefere esconder a miséria do que enfrentá-la. Prefere cortar cultura do que mexer em privilégios. Prefere suspender benefícios do que revisar contratos de obras (que sempre têm aditivos milionários e, para isso, não falta dinheiro).
E tudo isso com o discurso de “gestão eficiente”. Só que gestão eficiente não é aumentar salário de secretário enquanto suspende benefício de R$ 210 para quem passa fome. Gestão eficiente não é cortar cultura que custa centavos do orçamento e sustentar cabides de emprego. Gestão eficiente não é varrer pobres das praças para fingir que Londrina é uma cidade limpa.
Gestão eficiente seria enfrentar os problemas de frente, sem maquiagem, sem hipocrisia. Mas isso exige coragem política e um mínimo senso de humanidade – coisa que anda em falta tanto no Executivo quanto no Legislativo de Londrina.
Por enquanto, sobra apenas a imagem de uma cidade hostil. Londrina pode até ter bons discursos de progresso. Mas, no dia a dia, é a cidade que odeia os pobres.
Telma Elorza
Jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD. Integra o Conselho da Mulher Empresária da ACIL.
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Respostas de 2
Sinto falta dos “haha” que vc trazia nos textos, na época do outro jornal.
Excelente crônica.
Valeu, Telma!
Parabéns a administração Londrinensa