Adolescente quer morar com genitor

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Por Telma Elorza

“Tenho duas enteadas de 13 e 11 anos, que crio com amor há 10 anos. O pai nunca esteve presente, nem paga pensão direito. Isso já deu muita briga entre minha esposa e o genitor. Mas agora, minha mais velha entrou numa fase de querer morar com o pai, que sempre joga a culpa do afastamento dele em nossas costas. Ele é um irresponsável, mas nada tira da cabeça da menina que nós é que estamos afastando ele das filhas. A caçula não quer, ela me chama de pai e diz que não precisa do genitor. Como podemos convencer a mais velha a ficar conosco? Ainda não foi nada para a justiça.”

Rapaz, primeiro de tudo, respira fundo. O que você está vivendo não é fácil, mas também não é o fim do mundo. Muitos padrastos passam por situações parecida, principalmente quando o genitor é um “fantasma” que aparece de vez em quando só para bagunçar tudo. Ele não paga pensão, não foi presente e ainda joga toda a culpa no colo de vocês, coisas clássicas de quem quer se fazer de vítima e não assumir a própria responsabilidade. Quantos homens por aí não fazem isso, né?

Infelizmente sua menina mais velha foi pega pelo vitimismo do genitor, um cara que nunca segurou a bronca de verdade. E isso dói, eu sei. Parece que todo aquele amor que você deu, a segurança, o carinho e até todo dinheiro investido no conforto delas foram por água abaixo. Mas calma, vamos conversar direitinho e, quem sabe, eu possa ajudar a aliviar um pouco sua cabeça.

Primeiro, entenda o que está rolando na cabeça dela. Aos 13 anos, a adolescência bate forte. Numa mistura de hormônios em ebulição e fase em que os jovens questionam tudo: identidade, família, autoridade. Ela pode ter idealizado o genitor ausente como um herói, porque o desconhecido parece mais emocionante que a rotina real, principalmente se tem que seguir regras que não concorda dentro de casa: ajudar na arrumação da casa, se dedicar aos estudos, ter horário para chegar, enfim, essas coisas que pais presentes impõem.

A manipulação do genitor

O genitor provavelmente está manipulando isso, questionando essas regras, falando mal de vocês pelas costas para se sentir importante. Até imagino ele falando: “como assim sua mãe não a deixa ir em festas, você tem que viver”! Ou algo do tipo: “sua mãe e o marido dela querem fazê-la de empregada”. Coisinhas que ele vai colocando na cabeça dela para que os vejam como tiranos, pessoas ruins, enfim. Você não pode culpá-la por ter caído nessa esparrela. Lembre-se, adolescência é época em que querem contrariar tudo que os pais falam, em que eles acham que já sabem tudo e que são “adultos” para tomar decisões. Ela, provavelmente, não quer magoar você e sua esposa. O que deve estar sentindo é uma mistura de curiosidade, rebeldia e, talvez, um vazio emocional que o pai biológico deixou. Adolescente costuma idealizar o que não tem.

Mas não caia na armadilha da disputa, nem tente retribuir o jogo da culpa, falando mal do genitor. Fazer isso, só vai dar a certeza que vocês são os vilões e ela vai se fechar cada vez mais. Em vez de brigar, tente começar por uma conversa aberta. Chame ela para um momento só de vocês dois – um sorvete, um passeio – e diga algo como: “eu sei que você está querendo morar com seu pai e respeito seus sentimentos. Mas quero entender o que está lhe deixando animada com isso”. Ouça sem interromper, mostre que você valoriza a opinião dela. Isso pode desarmar a defesa e abrir espaço para ela refletir.

Foque nos pontos positivos da sua família, sem atacar o pai. Reforce os bons momentos que vocês têm juntos, planeje atividades em família: passeios, dia de jogos, cinema, viagens curtas, cozinhar algo que ela goste. Inclua a caçula nisso, para ela ver que a irmã também faz parte dessa equação. A caçula o chama de pai? Use como exemplo positivo, mas sem comparações entre as duas. Experimente dizer para a mais velha: “Sua irmã se sente segura aqui e eu quero que você se sentia assim também”.

Mas cuidado para não pressionar. Convencer à base de pressão dificilmente funciona com adolescente. Quanto mais vocês disserem “seu pai é irresponsável” ou “aqui é melhor”, mais ela vai querer provar que não. É o famoso efeito contrário. O melhor é mostrar, com ações, por que ficar é uma boa escolha.

Prepare-se para ver ela ir

No entanto, prepare-se para possíveis mudanças. Você disse que ainda não buscou a Justiça. Mas se a menina realmente insistir em morar com o genitor, pode ser a única saída. E nesse caso, não adianta se desesperar. O juiz sempre olha o melhor interesse da criança e, para uma adolescente de 13 anos, a opinião dela tem peso na decisão. Pode acontecer que a Justiça dê o que ela quer, por mais doloroso que seja para o restante da família. Mas isso não significa que vocês perderam a guerra. Significa que ela precisa viver essa experiência para entender, na carne e na prática, quem é quem. O bom é que, com 13 anos, ela já tem maturidade suficiente para ver as diferenças. Depois de passar quase a vida toda em um lar cheio de carinho e cuidados, ela saberá reconhecer o valor disso.

No fim das contas, pai de verdade é quem está presente, não que gerou. E você já provou que é esse cara. Se a mais velha for morar com o genitor, continue mostrando que vocês estão de braços abertos para ela, sem rancor. Vai doer, claro, mas lembre-se: amor de pai (mesmo que de coração) não é um contrato com data de vencimento. É um vínculo que permanece por toda a vida.

E, se o clima estiver muito pesado em casa, não exite em procurar ajuda profissional. Um psicólogo especializado em adolescência e família pode ajudar todo mundo a colocar os sentimentos para fora sem brigas. Muitas vezes, ouvir de um profissional o que você já fala há anos pode ter um peso diferente para um adolescente. Um profissional pode ajuda-la a processar sentimentos confusos, sem julgar ninguém. Ela pode descobrir que o genitor não é o príncipe encantado que imagina, de forma natural, sem vocês precisarem apontar o dedo.

Por fim, cuide de você e sua esposa. Esta situação pode estar desgastando o casal. Tirem um tempo para vocês dois, sem as meninas no meio. Vocês formam uma equipe há 10 anos, fortaleça essa equipe. E, se sua filha realmente for morar com o genitor, prepare um plano B: visitas regulares, comunicação aberta, deixar claro que sempre estarão presentes por ela, a qualquer hora, sete dias por semana. Mas torça pelo melhor: com paciência e amor, ela pode mudar de ideia antes que a mudança aconteça.

Cara, ser padrasto é um ato de heroísmo diário. Você deu um lar amoroso para essas meninas e isso não se apaga. Foque no diálogo, no apoio profissional e no fortalecimento familiar. Enfim, o que convence é o exemplo. Força aí.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Depois de 10 anos de cuidado e amor, o leitor vê a enteada querendo ir morar com o genitor, que não paga a pensão e é ausente. O que você faria?
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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