O tombo das universidades

pesquisa-uel-scaled-e1775052056844

Por Telma Elorza

Quando eu li que os resultados do ranking mundial CWUR mostraram que todas as universidades paranaenses avaliadas perderam posições, fiquei realmente preocupada. Eu, formada pela UEL, tinha orgulho de ver minha universidade (e outras do Estado que escolhi morar) bem-posicionada nesse ranking. Noticiei esse fato várias vezes aqui, no O LONDRINE̅NSE.

Muita gente, no entanto, tratou a notícia da queda no ranking (aliás, parece que estou obcecada com rankings) como algo menor. Mas não é. É mais um alerta vermelho sobre o futuro do ensino superior, da pesquisa científica e da capacidade de desenvolvimento econômico do Paraná e do Brasil.

O que é preciso entender é que a queda não aconteceu da noite para o dia. Nenhuma universidade (ou cidade) acorda excelente numa segunda-feira e na terça, babau, despencou. O processo é lento, acumulativo e previsível. O que estamos vendo agora é resultado de anos de escolhas políticas que transformaram a educação e a ciência em despesas incômodas (o mesmo que fazem com a cultura e arte, de modo geral), não em investimentos estratégicos.

O brasileiro tem o hábito de enxergar universidades públicas como centros de gastos desnecessários. Enquanto países desenvolvidos disputam cérebros, financiam pesquisas e atraem cientistas do mundo inteiro, aqui, no Brasil, ainda há quem pergunte por que investir em laboratórios, bolsas de pesquisa e pós-graduação. Com se conhecimento fosse luxo e inovação nascesse em árvores.

O fato das universidades estaduais terem caído no ranking mundial CWUR é preocupante, porque ele é medido por capital intelectual, não por prédios
Fotos: UEL/divulgação

Nos últimos anos, a ciência brasileira atravessou um dos períodos mais difíceis de sua história recente. Bolsas de pesquisa – que muitas vezes é a única verba que os cientistas recebem para se manter trabalhando – perderam o valor; programas científicos foram reduzidos; laboratórios enfrentaram para manter atividades básicas e pesquisadores passaram a dedicar mais tempo procurando financiamento para continuarem do que pesquisando.

O problema não começou nem termina em um único governo. Mas seria desonestidade intelectual ignorar que, entre 2019 e 2022 – e que reverbera ainda hoje – , o discurso político nacional frequentemente tratou universidades, pesquisadores e cientistas com desconfiança. Para a essa ideologia, universidades públicas passaram a ser combatidas porque seriam “centros de drogas” e a educação superior, desestimulada. Professores, em vez de serem respeitados como aliados do desenvolvimento, foram apresentados como adversários. A ciência passou a ser atacada por pessoas que mal conseguem sequer escrever um texto em português sem erros graves.

O resultado dessa mentalidade é terrível. Pesquisadores deixam o país à rodo (quem aqui não conhece alguém que foi embora para dar continuidade à suas pesquisas e que depois decide ficar no país estrangeiro porque paga melhor?). Projetos brasileiros são interrompidos, linhas inteiras de investigação científica desaparecem. E, com isso, a sociedade inteira perde.

Universidades ficaram quase uma década sem concursos para professores e técnicos

No Paraná, os governos das  últimas décadas mantiveram e até ampliaram os repasses às universidades estaduais em termos de valores nominais. Isso é fato. Mas outro fato igualmente importante é que orçamento, sozinho, não garante excelência acadêmica. Universidades precisam de planejamento de longo prazo, infraestrutura moderna, internacionalização, valorização de profissionais e estabilidade institucional.

As universidades estaduais do Paraná, mesmo com verbas, viveram um longo e sufocante período sem concursos públicos para os quadros efetivos de docentes e técnicos. Foi quase 10 anos sem reposição de capital humano, que esvaziou departamentos inteiros e sobrecarregou a força de trabalho que restava, funcionando à base de PSS (processos seletivos simplificados), o que evitou o colapso do ensino e de serviços básicos, mas que trouxe uma grande rotatividade e precarização.

Os rankings internacionais não avaliam o tamanho da folha de pagamento ou quantidade de prédios. Eles medem produção científica, impacto das pesquisas, relevância internacional e qualidade acadêmica. Ou seja: capital intelectual. Como cumprir tudo isso com PSS? São áreas que dependem de políticas públicas consistentes ao longo dos anos, profissionais que sabem que poderão contar com verbas para continuarem a ensinar e pesquisar.

E há uma ironia amarga nessa história. A mesma ideologia política que reclama das “despesas exageradas” com universidades e pesquisas, também reclama da falta de inovação, da baixa produtividade e da dificuldade de atrair empresas de tecnologia. Como se fosse possível criar um Vale do Silício tupiniquim sem cientistas. Eles querem o quê? Que empresas de alta tecnologia brotem por geração espontânea?

A verdade é que países ricos não ficaram ricos apesar das universidades, mas por causa delas. Veja a China, por exemplo, que, em 20 anos, fez toda uma revolução tecnológica e econômica depois que começou a atrair e reter cientistas, revertendo a chamada “fuga de cérebros”, estruturalmente, a partir da década de 1990.

Por isso tudo, a queda das universidades paranaenses – e brasileiras, como um todo – nos rankings internacionais deveria provocar muita preocupação. Porque não é só uma questão acadêmica, é social, econômica e estratégica.

O Paraná gosta de se apresentar como um estado moderno, inovador, competitivo, mas inovação não nasce em discursos de campanha, vídeos promocionais ou marketing governamental. Inovação nasce na educação, nos laboratórios, bibliotecas e centros de pesquisa. Sem isso, seremos eternamente pobres de tudo e dependentes da ciência estrangeira.

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

Leia mais artigos de Opinião

Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram: @olondrinensejornal

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse