“Tem dó? Leva pra casa!”

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Por Ana Paula Barcellos

Não pode mais estender a mão – ter um mínimo de empatia – pra ajudar com uns trocados a pessoa no sinaleiro, não, não. Não sem ser reprochada pelo motorista por aplicativo, sem ter que aguentar discursinho. Ou pior, ouvir frase de papagaio: “Tá com dó? Leva pra casa!”. Me bate, instantaneamente, um cansaço existencial. A pessoa quer me dizer o que fazer com meu próprio dinheiro e, ainda, discursar cheio de falso moralismo.

A sensação que tenho é de que a cidade grita, cada vez mais, para que ninguém olhe para o abismo ao lado.

Amigo, levo não. Já pago meus impostos – e não pago pouco! – e reclamo todo ano do IPTU da minha casa que financia mais viadutos que abrigos. Eu posso, no máximo, cobrar que o governo cumpra a Constituição, que garanta o direito à moradia, à vida digna, como manda o artigo 6º. É dever deles que estão lá em cima, governando, não meu. Mas aí vem a frase, esse refrão popular que virou hino de uma indiferença armada. “Leva pra casa!”. Como se empatia fosse uma fraqueza que se resolve com deboche. Como se o outro, o de rua, o vulnerável, fosse uma mancha na nossa vida imaculada. E o pior: o povo urrando por aí, bando de lobos urbanos, defendendo essa muralha de “cada um por si”. Por quê? Por que tanto ódio?

Pra mim, ajudar quando posso, tem muito a ver com o que aprendi com meus pais, questão de cultura familiar. Tanto meu pai quanto minha mãe eram líderes cristãos. A coisa mais comum era ter donativos em casa sendo separados, meu pai sair tarde para socorrer alguém, minha mãe chegar tarde pois estava servindo comida na rua, nosso carro sempre cheio de “caronas”.

Domingo era um dia que começava excepcionalmente cedo e acabava tarde pra dar conta de todo mundo que precisava de ajuda. “Podendo, ajude”, meu pai dizia. E não tinha romantização nem moralização da ajuda, não tinha julgamento. Muito cedo entendi também o aspecto prático, lógico de ajudar necessitados e marginalizados: uma comunidade inteira só respira bem se todos têm ar. Eu via isso na prática. Inteligência social, diria hoje: se o vizinho come bem, a mesa de todos fica mais farta. Se o excluído tem teto, a violência não transborda para o nosso quintal.

Leva pra casa não é só deboche

Mas e esse ressentimento que ferve nas veias da cidade? Esse “leva pra casa” que não é só deboche, mas um rosnado gutural contra o próprio vazio? Fico lembrando que o que nos incomoda no outro é o espelho do que negamos em nós. Aquele homem na rua? Ele nos lembra da fragilidade que esconde nossa roupa bonita de trabalho – o medo de cair, de perder o emprego, a casa, a pose de intocável. Em vez de enfrentar essa sombra, a gente grita “leva pra casa!”, empurrando o abismo para longe, como se o problema fosse da “dó” alheia, não da nossa culpa coletiva. A sociedade nos ensina a acumular, a trancar portas, e quando o bicho selvagem da necessidade aparece na esquina, a gente o exorciza com ódio.

Fico pensando também nos pequenos no meio da desigualdade. O brasileiro médio, esmagado por boletos e chefes, olha para o sem-teto e não vê o irmão de infortúnio, mas o bode expiatório. “Por que ele recebe esmola e eu não?”, pensa, ignorando que o sistema que nos esmaga é o mesmo que o joga na sarjeta.

Parece que, em Londrina, é proibido ter empatia com os mais vulneráveis. Não posso dar um trocado para o homem no sinal, que o motorista do aplicativo já vem com um "tem dó? Leva pra casa"!
Fotos: Freepik

Cada vez que um motorista diz enchendo a boca, quase babando, que o rapaz no sinal consegue fácil trezentão em poucas horas, não resisto, respondo singela: “O que te impede de parar de trabalhar e ir pro sinal? Estaciona o carro e vai!” Eu, pelo menos, não trocaria minha vida por ganhar dinheiro no sinaleiro. Quem está lá, com a mão estendida, já perdeu tudo.

Mas é a eterna dança com o “Outro”: a gente odeia porque o desejo do outro nos confronta com o nosso – ele quer sobreviver, e nós, o que queremos? Ser vistos, amados, sem ter que dividir o pão? Esse “urrar” é defesa: odiar o vulnerável nos faz sentir poderosos, mestres do nosso destino ilusório. Mas é só isso ilusão pura.

Eu não levo ninguém pra casa, não. Inclusive, meu apartamento é pequeno demais pra tanto heroísmo. Mas levo essa frase comigo, como um alerta. Porque, no fim das contas, empatia não é dó; é o fio que tece a rede onde ninguém cai sozinho. E se o governo falha – e falha feio –, cabe a nós, cidadãos de boa-fé, cobrar mais ao invés de gritar igual papagaio-loro-do-bico-dourado. Podendo, ajudo. Não julgo. Quem sabe, um dia, as coisas mudam? Aí até começo a escrever crônicas bem melhores que essa, cheia de raiva urbana.

Ana Paula Barcellos

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É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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