Por Ana Paula Barcellos
Passei dias com isso martelando na cabeça, era pra já ter escrito algo sobre, mas acho que, no fundo, precisava de mais tempo para elaborar essa história que, de tão esquisita, parece até roteiro de distopia numa cidade como Londrina. Como sabemos, a Câmara Municipal aprovou, no dia 16 de junho de 2025, o Projeto de Lei nº 92/2024, que proíbe a entrega de alimentos para pessoas em situação de rua em vias públicas. Quem quiser ajudar alguém com fome, agora precisa de autorizações, vistorias sanitárias e um caminhão de burocracia. Caso contrário, pode levar uma multa daquelas. A justificativa? “Higiene e ordem”, segundo a vereadora autora do projeto. Parece que marmita para quem não tem onde comer é uma ameaça à limpeza urbana.
Aí, como se fosse uma piada de mau gosto, logo depois, no dia 22 de julho de 2025, surge o Projeto de Lei nº 13.832/2024, que, pasme, flexibiliza a alimentação de animais em situação de rua na cidade Quer colocar ração e água para gatos e cachorros abandonados? Tudo bem, vá em frente, sem problema. A lei garante que ninguém será impedido de cuidar dos bichos. E olha, eu amo animais, eles precisam mesmo receber atenção e cuidados, precisam ser protegidos. Mas como é que a gente chegou nesse ponto? Proibir ajudar pessoas com fome enquanto libera cuidar de animais? É como se a cidade tivesse virado de ponta-cabeça, invertendo qualquer escala de prioridades humanas.
Eu tô um tanto cansada. Cansada de abrir o jornal e ler absurdos que desafiam a lógica. Por isso, talvez venha desviando o olhar para as fugas do cotidiano. Ando cansada de ver a dignidade humana ser tratada como um estorvo, enquanto a fome, a miséria, viram questões de “ordem pública”. A Secretaria Municipal de Assistência Social até tentou se defender, dizendo que o programa Nova Trilha oferece 150 jantares diários e que o Restaurante Popular está aí pra isso. Mas, sério, 150 jantares pra uma cidade com mais de 500 mil habitantes? E o que acontece com quem não consegue chegar ao Centro Pop às 15h? Fica com fome, porque, aparentemente, uma marmita na calçada é um crime contra a “higiene”.
O PL 13.832/2024, que protege quem alimenta animais de rua, é um avanço, claro. Ninguém quer ver bichos passando fome ou sede. Mas a ironia é cruel. Qual é o critério aqui? Por que a fome de um ser humano é menos urgente que a de um animal? É uma escolha ética que me embrulha o estômago.
Cidade de valores invertidos

Essa inversão de valores escancara uma questão mais profunda: a quem serve essa “ordem” que a vereadora tanto defende nesta cidade? Porque, pra mim, parece que é mais fácil invisibilizar quem está na rua do que enfrentar o problema de frente. Proibir a entrega de comida não resolve a fome, não resolve a desigualdade, não resolve a falta de moradia. Só empurra as pessoas para ainda mais longe dos olhos da sociedade. E enquanto isso, a gente pode cuidar dos bichos, porque, aparentemente, eles não atrapalham a estética da cidade.
Eu fico imaginando o que passa na cabeça de alguém que aprova uma lei dessas. Será que é mais fácil lidar com a culpa de deixar um cachorro com fome do que com a de ignorar um ser humano? Será que é mais fácil fiscalizar marmitas do que construir políticas públicas que tirem as pessoas da rua? Ou será que é só mais cômodo fingir que o problema não existe? Porque, no fim das contas, é isso que o PL 92/2024 faz: varre a miséria pra debaixo do tapete e chama isso de “higiene”.
É muito cansativo. E falar e escrever sobre isso é necessário, mas é como carregar um peso que não explica a si mesmo. É bizarro, é absurdo, é desumano. Onde foi parar nossa bússola ética? A moral os moralistas perderam faz muito tempo. Se a gente acha que alimentar um ser humano é menos importante que alimentar um animal, talvez a gente precise parar e repensar o que significa ser humano nesta cidade.
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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