Por Ana Paula Barcellos
É provável que daqui há alguns meses algumas cidades do Paraná, principalmente mais ao Sul do Estado, olhem para o céu e o clima com muita preocupação. Cientistas da NOAA e outros centros alertam: há mais de 90% de chance de um El Niño se formar este ano, com grande probabilidade de ser forte ou até um “Super El Niño”. Chuvas intensas, enchentes, deslizamentos ou, em outras regiões, secas extremas e calor recorde. Espera-se que por aqui a gente sinta um inverno ainda mais fraco, mais quente do que deveria, com muito mais chuvas.
E a pergunta que deve estar sendo feita agora – ou deveria: por que, mesmo com o aumento claro de catástrofes climáticas nos últimos anos, em diversas regiões, não lutamos de verdade por cidades verdes? Por que as pautas ambientais ainda ficam em segundo, terceiro ou último plano nas discussões, nas campanhas eleitorais e nas prioridades diárias?
Sabemos que o El Niño trará enchentes fortes que podem destruir não apenas bairros, mas partes de cidades inteiras. Também sabemos que ondas de calor muito intensas podem inclusive matar pessoas, sabemos também que os efeitos das secas podem comprometer a comida que chega na mesa. Sabemos que a arborização tem sim o poder de reduzir alagamentos, que parques absorvem água, que planejamento urbano com permeabilidade diminui tragédias.

Mesmo com ameaças como El Niño, continuamos a construir prédios
Sabemos que investimentos em drenagem, em alerta precoce e em educação ambiental salvam vidas e dinheiro a longo prazo. Mesmo assim, adiamos essa cobrança. Ou falamos muito e fazemos pouco nesse sentido. E a cidade continua priorizando a construção de prédios que segue à toda, o loteamento sem critério, a obra visível. O verde fica para “quando der”. Mesmo com um super El Niño batendo na porta.
Deixamos por último porque o ambiental parece abstrato demais pra nós até a água começar a subir de verdade. Porque o ciclo eleitoral é curto e a conta climática é longa. Porque é mais fácil cobrar limpeza, asfalto novo, soluções imediatas de problemas mais cotidianos do que cobrar um projeto de arborização, um plano diretor sustentável.
Agora, com esse Super El Niño se aproximando, fiquei aqui refletindo: como cobrar dos nossos representantes municipais que cuidem de verdade do meio ambiente na nossa cidade? É preciso exigir planos concretos.
Não adianta só reclamar depois de um alagamento, por exemplo. A cobrança tem que ser constante, organizada. Vereadores, prefeito, deputados estaduais e federais: a conta do clima está chegando. E esse é o tipo de questão que não se resolve com improviso. É preciso cobrar dados, cobrar projetos, cobrar execução. Fiscalizar o dinheiro público aplicado em prevenção.
A cidade que queremos precisa ser construída todos os dias, não apenas frente à possibilidade de situações de emergência. De toda forma, um bom momento para cobrar é agora. Principalmente, antes que o Super El Niño chegue. Ou você acha que a cidade passará incôlume?
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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